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MPF abre investigação sobre rede de aliciamento de mulheres para Epstein no Brasil após reportagem da BBC: 'Participação das vítimas é fundamental'

BBC News Brasil revelou que criminoso sexual manteve contato pessoal com modelos no país e as financiou.

12 fev 2026 - 04h58
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Mensagens mostram pagamentos de Epstein a brasileiras, ajuda com logística em viagens e troca de favores
Mensagens mostram pagamentos de Epstein a brasileiras, ajuda com logística em viagens e troca de favores
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

O Ministério Público Federal (MPF) instaurou um procedimento sigiloso na terça-feira (10/2) para investigar possíveis tentativas de aliciamento de mulheres no Brasil relacionadas ao criminoso sexual Jeffrey Epstein.

A procuradora da República Cinthia Gabriela Borges disse, em entrevista exclusiva à BBC News Brasil, que a intenção é analisar todas as situações em que mulheres brasileiras possam ter sido aliciadas e tentar identificar se havia redes de aliciamento no país.

Conforme mostrou a BBC News Brasil, o MPF recebeu uma denúncia na última semana sobre uma troca de emails entre uma brasileira e Epstein, ocorrida em 2010, em que eles tratavam de uma viagem de uma mulher de Natal, descrita como alguém de "família simples", aos Estados Unidos.

Na troca de mensagens, Epstein pediu fotos da brasileira de biquíni ou sutiã. Não é possível saber, pelas mensagens, o objetivo da viagem ou se ela ocorreu, de fato.

Essa denúncia resultou em um procedimento formal, agora instaurado na Unidade Nacional de Enfrentamento ao Tráfico Internacional de Pessoas e ao Contrabando de Migrantes. O órgão é uma estrutura especializada no MPF que centraliza todas as investigações e ações judiciais do país nessa área.

O caso em Natal, foco da denúncia feita ao MPF, não será o único analisado.

Na segunda-feira (9/2), a BBC News Brasil revelou que Epstein manteve relações pessoais com modelos brasileiras, ajudou-as financeiramente e até pode tê-las empregado em algum momento como assistentes.

O órgão disse, em resposta à reportagem sobre essas novas conversas, que vai acompanhar a divulgação dos arquivos do caso publicados pelo governo americano e buscar outras menções a brasileiros.

"O MPF está atento a essa situação de mulheres que estavam no Brasil e que foram levadas para os EUA com alguma intenção de exploração sexual, porque isso pode vir a caracterizar o crime de tráfico internacional de pessoas", disse Borges.

Diversas mensagens demonstram dependência financeira delas em relação ao bilionário, como pagamento de procedimentos estéticos, cortes de cabelo, viagens e até compra de celulares. Em troca, ele receberia fotos e contatos de outras mulheres, de idade não divulgada nos documentos.

Não há, nas mensagens, informação sobre a idade das pessoas envolvidas.

A reportagem identificou conversas por email datadas pelo menos desde 2006, antes de Epstein ter sido preso pela primeira vez.

Nessas conversas, ele é convidado para festas, fala de visitas a São Paulo, diz que vai mandar dinheiro, pede para que apresentem outras mulheres a ele, recebe fotos dessas mulheres (suas idades não são mencionadas) e até mesmo avisa a uma delas que seria preso pela primeira vez poucos dias antes de isso ocorrer, em 2008.

A BBC News Brasil mostrou, na última semana, que um parceiro de Epstein conversou com ele sobre a intenção de comprar uma revista de moda no Brasil e que teriam um contato direto no país para conseguir garotas, inclusive com menores de idade.

Revelou também, por meio de entrevista com uma vítima, que diversas brasileiras estiveram em sua mansão nos EUA.

'Participação das vítimas é fundamental'

Na última semana, sites de notícias do Rio Grande do Norte divulgaram que havia citações a uma mulher de Natal nos arquivos de Epstein divulgados pelo governo americano.

Datadas de 2011, as mensagens, obtidas pela BBC News Brasil, não confirmam se houve aliciamento nem revelam a idade da pessoa citada. Mas mostram o interesse de Epstein por uma brasileira após ela ser apresentada por uma conhecida.

Mostram ainda que esta pessoa no Brasil também tentou apresentá-lo a outras amigas e fez diversos pedidos de ajuda financeira, embora não seja possível identificar qual era a relação deles pelas mensagens.

Os diálogos detalham a organização para a emissão de um passaporte, o plano de levá-la aos Estados Unidos e pedidos explícitos de Epstein por fotos em trajes de banho e lingerie.

O procurador-chefe Gilberto Barroso de Carvalho Júnior, de Natal (RN), comunicou ter recebido informações "dando conta do aliciamento e envio de mulher residente nos arredores de Natal/RN possivelmente para a prática de atos sexuais com a pessoa de Jeffrey Epstein, nos EUA".

A procuradora Cinthia Gabriela Borges, da Unidade Nacional de Enfrentamento ao Tráfico Internacional de Pessoas e ao Contrabando de Migrantes, diz à BBC News Brasil que a data das mensagens pode ser um desafio na investigação, já que muitas delas são de mais de 10 anos atrás e podem ter ocorrido fora do Brasil.

"Embora sejam fatos de grande magnitude e muito interesse mundial, esses fatos remontam a mais ou menos 2011, 2012."

Ela avalia que o caso "envolve uma complexidade probatória muito acentuada não só pelo decurso do tempo como também de extraterritorialidade, já que boa parte dos fatos envolvendo mulheres brasileiras aconteceram em território americano."

Borges ressalta que os casos serão analisados individualmente, buscando entender o relacionamento das pessoas com Epstein e se havia uma rede especializada no aliciamento de mulheres e se elas eram maiores ou menores de idade.

A procuradora destaca também a importância de que vítimas ajudem na investigação.

"É uma situação bastante embrionária, uma investigação que está no seu início. É fundamental nesses casos a participação das vítimas na investigação, para que possam trazer à luz os elementos de como foi o recrutamento."

Outro desafio que ela cita é uma mudança legislativa que houve no Brasil em 2016, em relação ao tráfico internacional de pessoas. Antes, o crime se configurava apenas pelo fato de a vítima ser aliciada e levada para o exterior.

Com a nova regra, isso não é mais suficiente: tornou-se fundamental provar que houve algum vício de consentimento, ou seja, que a vítima sofreu fraude, coação, violência ou abuso de sua vulnerabilidade.

A procuradora da República reforça que as mulheres que mantiveram contato com Epstein não estão sendo investigadas no processo.

"As vítimas, em regra, não são consideradas responsáveis por eventuais atos que elas venham a praticar, na situação de vítima de tráfico de pessoas."

Ela diz que a investigação vai se concentrar em entender se havia pessoas especializadas em aliciar e recrutar mulheres para fins sexuais. "As vítimas não podem ser consideradas culpadas neste caso."

Como foi a troca de mensagens em Natal

Conversas entre uma brasileira e Epstein entre 2009 e 2013 deram origem à denúncia.

As mensagens mostram que ela não apenas solicitava recursos para despesas pessoais e procedimentos estéticos, mas também apresentava outras mulheres ao bilionário. As idades dessas mulheres não são mencionadas nas conversas.

Em 2009, as trocas de mensagens detalham pedidos de dinheiro para uma cirurgia de implante de silicone; a mulher adiou o procedimento enquanto aguardava o pagamento, afirmando que pretendia "se exibir em Palm Beach [cidade da Flórida, nos Estados Unidos]" após o resultado.

Para viabilizar o pedido, Epstein instruiu funcionários a realizarem transferências bancárias, inclusive em moeda brasileira.

O suporte financeiro estendia-se a outros pedidos: uma funcionária de Epstein relatou que a brasileira esteve em seu escritório solicitando US$ 450 para a compra de um celular, e, em outro momento, registros mostram assistentes coordenando pagamentos para serviços de beleza de luxo tanto para a jovem quanto para sua mãe.

O papel da brasileira na intermediação de contatos consta em registros de janeiro de 2011, quando ela tratou da ida de uma jovem de Natal para os Estados Unidos — é esse o caso que trata o MPF no procedimento aberto.

Em uma mensagem, ela descreveu que a moça não falava inglês, nunca havia viajado e vinha de uma família simples, sugerindo que ela viajasse no mesmo voo para facilitar o trajeto. A idade da jovem não é mencionada nos registros.

Acompanhando o relato, a brasileira enviou fotos da jovem e afirmou que Epstein iria "adorá-la". A resposta de Epstein foi um pedido por mais imagens, especificando que deveriam ser de "lingerie ou biquíni".

Embora o bilionário tenha escrito posteriormente que a ajuda poderia ser "mal interpretada", a brasileira continuou a sugerir o encontro, propondo que ocorresse em Paris, na França, e reforçando que a jovem era o "tipo" dele.

Natal é mencionada também em outro contexto, quando o agente de modelos Jean-Luc Brunel diz a Epstein que esteve na cidade, em 2010. Brunel era um conhecido parceiro de Epstein.

Brunel foi encontrado morto na prisão em Paris, em 2022. Estava detido desde o início de uma investigação formal, após ser acusado de assédio sexual e estupro contra jovens com idades entre 15 e 18 anos na França. Ele negava as acusações.

As vindas de Brunel ao Brasil em busca de modelos são conhecidas, e há até uma foto dele em Brasília e vídeos em uma agência de recrutamento.

Em uma mensagem em 2013, da mesma brasileira, ela pede ajuda a Epstein. Diz que está com ordem de despejo, não tem recursos para pagar um advogado e pede um lugar para ficar.

No mesmo texto, ela mencionou uma nova amiga recém-chegada do Brasil que teria interesse em conhecê-lo.

Novas mensagens do arquivo Epstein foram divulgadas pelo governo americano nos últimos meses
Novas mensagens do arquivo Epstein foram divulgadas pelo governo americano nos últimos meses
Foto: Getty Images / BBC News Brasil
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