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Morre aos 91 anos Jane Goodall, cientista pioneira que revolucionou o estudo dos chimpanzés

A antropóloga e primatóloga britânica Jane Goodall, primeira a identificar o uso de ferramentas por primatas, morreu aos 91 anos por causas naturais, segundo informou seu instituto nesta quarta-feira (1º). Incansável defensora da biodiversidade, Goodall transformou a forma como o mundo compreende os animais e suas relações com os humanos. Ela estava na Califórnia, nos Estados Unidos, participando de uma série de conferências.

1 out 2025 - 15h56
(atualizado às 15h59)
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A antropóloga e primatóloga britânica Jane Goodall, primeira a identificar o uso de ferramentas por primatas, morreu aos 91 anos por causas naturais, segundo informou seu instituto nesta quarta-feira (1º). Incansável defensora da biodiversidade, Goodall transformou a forma como o mundo compreende os animais e suas relações com os humanos. Ela estava na Califórnia, nos Estados Unidos, participando de uma série de conferências.

La célèbre primatologue Jane Goodall, ici photographiée lors d'une de ses dernières apparitions publiques à New York en pleine conférence, le 24 septembre 2025.
La célèbre primatologue Jane Goodall, ici photographiée lors d'une de ses dernières apparitions publiques à New York en pleine conférence, le 24 septembre 2025.
Foto: REUTERS - Caitlin Ochs / RFI

Aurore Lartigue, da RFI

Convidada a discursar na Unesco em 2024, Jane Goodall surpreendeu ao iniciar sua fala "na língua dos chimpanzés" — com um grito de primata, usado como alerta sobre o colapso da biodiversidade e como lembrete de que tudo está interligado.

"Recebi um dom: quando falo, as pessoas escutam. E àqueles que perderam a esperança, pareço capaz de devolver um pouco mais", declarou à RFI, justificando seu compromisso incansável com a causa animal.

Nada indicava que aquela jovem inglesa se tornaria um ícone ambiental, exceto sua paixão precoce por bichos. Desde cedo, passava horas observando minhocas, o cachorro da família e até galinhas, tentando entender de onde vinham os ovos.

Sua vida entre os primatas começou em 1957, ao conhecer o antropólogo Louis Leakey durante uma viagem ao Quênia. Sem formação científica, Jane se instalou às margens do lago Tanganica, na Tanzânia, para estudar o comportamento dos grandes símios do Parque Nacional de Gombe.

Conquistando a confiança dos chimpanzés

Com paciência e binóculos, conquistou a confiança dos chimpanzés e, em 1960, testemunhou um deles usar uma vareta para extrair cupins — descoberta que abalou a visão científica sobre os primatas e redefiniu o conceito de humanidade, até então atribuído exclusivamente aos humanos.

Suas abordagens pouco convencionais geraram críticas: ela dava nomes aos chimpanzés, em vez de números, como se fazia em laboratórios. Ainda assim, obteve doutorado em etologia pela Universidade de Cambridge. Provou que os chimpanzés não são vegetarianos, mas sim onívoros, que se comunicam por meio de dezenas de sons distintos e que são capazes de travar guerras sangrentas.

Reportagens em revistas revelaram ao mundo a primatóloga de rabo de cavalo loiro. Rara presença feminina num campo dominado por homens — ao lado de figuras como Dian Fossey, especialista em gorilas assassinada em 1985 no Ruanda — Jane Goodall ajudou a abrir espaço para mulheres na ciência e a transformar para sempre o modo como compreendemos os animais.

Heroína da biodiversidade e dos animais

Ícone intergeracional, Jane Goodall seguiu sua missão fora da selva por meio do Instituto que leva seu nome, fundado em 1977 e presente em mais de cem países. Promovendo pesquisa, educação e proteção da fauna, a organização busca devolver à natureza o espaço que lhe foi tomado.

Em abrigos na África, acolheu chimpanzés órfãos cujas mães foram vítimas da caça — animais que, sem essa intervenção, estariam condenados. Goodall sempre defendeu que a preservação da vida selvagem depende também do desenvolvimento das comunidades locais, especialmente na África, onde a floresta equatorial vem sendo devastada pela expansão do cultivo de cacau e da exploração de madeira. Com esse foco, o programa Tacare oferece bolsas de estudo e microcréditos em sete países africanos, incentivando a criação de negócios sustentáveis e alternativas econômicas que não destruam a biodiversidade.

"Fazemos todos parte do mundo animal", lembrava com frequência. "Dependemos de um ecossistema feito de interações complexas entre espécies vegetais e animais. Cada uma com seu papel. É como uma tapeçaria magnífica: cada vez que uma planta ou animal desaparece, é como se um fio fosse puxado. E se puxarmos demais, a tapeçaria se desfaz."

Vegetariana desde jovem, Jane alertava para os impactos devastadores da pecuária intensiva — não apenas pela crueldade contra os animais, mas também pelos efeitos sobre o desmatamento, a poluição e o clima.

Ao longo de sete décadas dedicadas à natureza e à vida, recebeu dezenas de prêmios e foi indicada várias vezes ao Nobel da Paz. Como prometeu, defendeu a biodiversidade até o fim. Nas últimas décadas, deixou a selva africana, mas percorreu incansavelmente o mundo como "mensageira da paz" das Nações Unidas.

Mesmo aos 90 anos, seguia inspirando gerações de ativistas climáticos, especialmente os jovens, a quem repetia: "Cada pessoa conta, cada um tem um papel e pode fazer a diferença. Porque, se milhares fizerem pequenas ações positivas, no fim isso se transforma em uma enorme mudança."

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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