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Mel, hermetismo e ópio: conheça a estrutura do Talebã

29 set 2015 - 14h50
(atualizado às 17h10)
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Grupo extremista ganhou fama mundial em 2001; desde então perdeu poder, mas continuar a controlar partes do Afeganistão
Grupo extremista ganhou fama mundial em 2001; desde então perdeu poder, mas continuar a controlar partes do Afeganistão
Foto: (BBC)

O que acontece com um grupo extremista depois da morte de seu líder? Depende. No caso do Talebã, sabe-se pouco sobre como se deu o processo de sucessão interna após a morte do mulá Omar ter sido confirmada, em julho deste ano.

Há indícios de divisões internas e multiplicam-se incertezas sobre como se reorganizou a cúpula do grupo extremista ─ que ganhou fama mundial em 2001 após os atentados de 11 de Setembro e ainda controla algumas áreas do país.

Mas, nesta semana, o Talebã anunciou seu novo líder: o mulá Akhtar Mansour. E o anúncio foi acompanhado de uma vitória militar importante: a tomada da cidade de Kunduz, no norte do Afeganistão, na última segunda-feira.

Talebã anunciou nova liderança: Mulá Mansour
Talebã anunciou nova liderança: Mulá Mansour
Foto: (EPA) / BBC News Brasil

Depois de meses de investigação e com a ajuda de vários especialistas, a BBC conseguiu descobrir como se estrutura atualmente o grupo extremista, revelando não só como ele se financia, mas também como se reorganizou após a morte de um de seus principais fundadores e líderes históricos.

Os detalhes trazido à tona são em parte surpreendentes.

Segundo um relatório produzido por Barnett Rubin, analista internacional e membro do Centre on International Cooperation, centro de estudos ligado à Universidade de Nova York, a venda de mel foi uma das formas que o Talebã encontrou para arrecadar recursos.

"A rede Haqqani (grupo ligado ao Talebã) tem negócios no Afeganistão, Paquistão e em outros países do Golfo Pérsico entre os quais está incluída a venda de mel de abelha", explicou Rubin.

A unidade do Talebã acabou?

Uma das principais características do Talebã é que durante os anos de atividade sob o comando do mulá Omar o grupo extremista nunca apresentou sinais de divisão interna.

Nesta semana, apontou que pretende seguir por esse caminho ao demonstrar apoio unificado à sua nova liderança, o mulá Mansour.

"O Talebã é um grupo altamente ideológico e essa é a razão pela qual (seus integrantes) permaneceram unidos até agora. Eles obedecem plenamente as ordens do emir", disse à BBC Waheed Mozhda, analista internacional do Ministério das Relações Exteriores afegão.

"Eles têm consciência de que são mais fracos que os rivais e de que, uma vez divididos, poderiam ser facilmente derrotados por seus inimigos", acrescentou.

Outro fator importante é que a unidade faz parte dos princípios ideológicos do grupo.

"O Talebã foi fundado para pôr fim a facções. Dessa forma, mesmo que haja diferença de opiniões, eles nunca se organizam em facções. Todo mundo obedece às determinações do mulá", explicou.

Os dissidentes, por sua vez, deixam o grupo ou são expulsos e logo perdem a influência sobre os outros membros, afirmou o especialista.

"Ninguém quer ter mais voz dentro do grupo. Eles só competem por status, dinheiro ou poder", acrescentou Mozhda.

Talebã tentou assassinar ativista paquistanesa Malala Yousafzai
Talebã tentou assassinar ativista paquistanesa Malala Yousafzai
Foto: (Getty)

Como o Talebã se financia?

Uma das revelações surgidas a partir da investigação da BBC é que o Talebã nunca se estabeleceu como uma organização de grandes pretensões materiais.

Sobrevivem com pouco: nunca tiveram um braço no Paquistão, mas estão a todo momento deslocando-se pelo país, operando sobretudo em escolas islâmicas e mesquitas.

"Uma filial da rede de Haqqani ─ que pertence à estrutura da organização – foi encontrada na remota região do Waziristão, no Paquistão, mas não se sabe se ela permanece ativa", explicou à BBC Haroon Rashid, editor do serviço urdu da BBC.

A maior parte do dinheiro com que o Talebã consegue financiar suas atividades provêm de recursos como extorsão contra estabelecimentos comerciais e proteção pela venda de drogas.

Mas o grupo extremista não vive apenas dessas atividades. Entre suas outras fontes de receita, estão o comércio de mel e do ópio ─ um dos principais produtos do Afeganistão ─ e o narcotráfico.

"Além de exigir impostos dos camponeses que cultivam papoulas dormideiras (planta usada para produzir ópio), também cobram pedágio em rodovias, roubam produtos e armamentos, e extorquem empresas privadas estrangeiras que preferem pagar ao grupo extremista do que ao Exército do país por sua proteção", afirmou Mozhda.

"Mas no último ano, o Talebã encontrou uma nova fonte de receita: a mineração, controlada pelo comitê financeiro, que é o segundo em importância na hierarquia do grupo, após o militar", acrescentou o especialista.

Como é feita a comunicação do grupo?

Seu hermetismo, mas sobretudo a capacidade de desenvolver redes internas de comunicações seguras, evidenciou como o grupo extremista conseguiu preservar a informação sobre a morte de seu líder, o mulá Omar.

Mas a morte de seu fundador reforçou a necessidade de proteger informações sensíveis da organização.

"A melhor opção para eles tem sido a comunicação ‘boca a boca’, evitando a tecnologia. Mas também possuem um sistema complexo de envio de cartas. Vi algumas que foram encontradas na cidade de Miranshah. Essa é a forma de comunicação entre membros do grupo", disse Rashid, do serviço urdu da BBC.

Rubin, do Centre on International Cooperation, ressalva, por outro lado, que o grupo não ficou "preso" ao passado.

"Eles possuem agora uma rede avançada de internet e mantêm atividade constante nas redes sociais", destacou.

Quem são os aliados do Talebã?

Frente ao crescimento do grupo autodenominado "Estado Islâmico", no Iraque e na Síria, e do Boko Haram, na Nigéria, antigas organizações insurgentes islâmicas ficaram em segundo plano, apesar do poderio que alguns, como a al-Qaeda e o Talebã, tinham no passado.

A al-Qaeda foi uma das principais aliadas do Talebã nos últimos anos, ajudando a arrecadar fundos para a organização.

No entanto, "o Talebã não recebe nenhum apoio militar da al-Qaeda que, por sua vez, não apoia nenhuma atividade jihadista a nível global", disse Rubin.

Em meio a tantas dúvidas, o único consenso é de que com a expansão do "EI" surgiu um novo inimigo que pretende ter uma autoridade "islâmica" sobre o território do Afeganistão.

"O líder do Talebã é somente o emir dos afegãos, mas eles não vão tolerar que outra figura queiram impor sua autoridade islâmica".

Foto: BBC
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