Líder sênior do Hezbollah rejeita desarmamento em declaração à BBC
Durante entrevista exclusiva em Beirute, o líder sênior do Hezbollah Wafiq Safa foi categórico ao responder se a organização estaria disposta a entregar suas armas.
Durante entrevista exclusiva em Beirute, no Líbano, o líder de alto escalão do Hezbollah Wafiq Safa foi categórico ao responder se a organização, algum dia, entregaria suas armas, atendendo a uma antiga exigência de Israel, dos Estados Unidos e de muitos dentro do próprio Líbano.
"Nunca, jamais", respondeu ele. "Ninguém pode desarmar o Hezbollah. Ninguém."
Safa destacou que não poderá haver discussões sobre o armamento do grupo "até um cessar-fogo adequado, real, não antes da retirada de Israel, do retorno dos prisioneiros, do regresso das pessoas deslocadas e da reconstrução".
Ele negou as indicações de que o Hezbollah teria saído enfraquecido do último conflito e defendeu que Israel não atingiu seus objetivos militares.
"Israel acreditava que o Hezbollah tivesse ficado muito fraco", afirmou ele. "Mas esta guerra demonstrou o contrário. Israel fracassou e não tem escolha a não ser recuar."
O Hezbollah é um grupo político e militar muçulmano xiita, que se opõe ao direito de existência do Estado de Israel. Os EUA, o Reino Unido, Israel e muitos outros países o consideram uma organização terrorista.
Safa afirmou que as forças israelenses serão pressionadas até uma faixa estreita ao longo da fronteira entre o Líbano e Israel.
Mas seus comentários contrastam totalmente com as declarações do primeiro-ministro israelense no dia 16 de abril. Benjamin Netanyahu reafirmou que as forças de Israel permanecerão no sul do Líbano, criando o que ele chama de "zona tampão de segurança".
O governo de Israel afirma que o desarmamento do Hezbollah é uma exigência fundamental para novas conversações com o governo libanês.
O Hezbollah entrou no recente conflito disparando foguetes contra Israel no início de março.
O grupo afirma ter atacado em retaliação à morte do líder supremo do Irã, Ali Khamenei (1939-2026), e aos ataques israelenses quase diários ao Líbano desde a última guerra, em novembro de 2024.
Israel respondeu com intensos ataques aéreos e outra invasão por terra no sul do Líbano, afirmando que sua campanha continuará até o desarmamento do Hezbollah.
Avisados antecipadamente
Safa declarou que o Hezbollah foi informado antecipadamente sobre o cessar-fogo entre Israel e o Líbano, que entrou em vigor à meia-noite (hora local) de quinta-feira (16/4), horas antes do anúncio público do acordo pelo presidente americano, Donald Trump.
Falando de um bloco de apartamentos na capital libanesa, Safa afirmou que a informação veio do Irã.
"Fomos notificados", disse ele. "Os iranianos nos informaram."
Seus comentários oferecem uma rara visão da coordenação existente entre o Hezbollah e seu principal apoiador na região em um momento crítico do conflito.
"Não aceitaremos o retorno ao passado", declarou ele.
Safa é uma figura proeminente na estrutura de liderança do Hezbollah, mas vem operando nas sombras desde que sobreviveu a uma tentativa de assassinato de Israel em outubro de 2024.
Duas semanas antes, seu homem de confiança — o líder do Hezbollah de longa data, Hassan Nasrallah (1960-2024) — foi morto em um forte bombardeio israelense.
Até o momento, Safa permanece sendo um alvo muito importante, gerando forte segurança em torno da entrevista.
Eles nos pediram que chegássemos a um ponto designado, onde nossos telefones foram imediatamente confiscados. Dali, apenas eu e um cinegrafista fomos levados de carro, em alta velocidade, até o local secreto da entrevista, um edifício residencial nos limites dos subúrbios do sul de Beirute.
Quando cheguei, Safa já estava ali para me encontrar. Ele tinha aparência serena, apesar dos edifícios bombardeados nas proximidades.
Ao reconhecer a proposta de cessar-fogo, Safa sugeriu que o Hezbollah não aceitaria termos que simplesmente restaurassem o status quo, após mais de um ano de combates.
"Certamente, não aceitaremos se isso significar o retorno a como tudo estava antes", declarou ele.
"Mas, se o cessar-fogo for abrangente e genuíno, incluindo a retirada completa, sem liberdade de movimento [para as forças israelenses], a libertação de prisioneiros, o retorno de pessoas deslocadas e a reconstrução, será outra questão."
'Duas almas em um só corpo'
A entrevista também esclareceu as relações entre o Hezbollah e o Irã, uma questão fundamental no debate interno do Líbano e nos esforços internacionais para restringir a influência do grupo.
"O Hezbollah e o Irã são duas almas em um só corpo", afirmou Safa. "Não pode haver o Hezbollah sem o Irã, nem o Irã sem o Hezbollah."
Ele descreveu o relacionamento como "religioso, legal e ideológico". E acrescentou que "não pode haver separação".
Seus comentários provavelmente reforçam o receio dos críticos do Hezbollah de que o grupo, em última análise, serve os interesses estratégicos iranianos, não os do povo libanês.
Líbano ou Irã?
Questionado se o Hezbollah priorizaria os interesses do Líbano ou do Irã em um momento em que os dois vierem a divergir, Safa defendeu que o grupo age nos interesses do Líbano.
"É claro que o Hezbollah observa os interesses libaneses", declarou ele. "Nós nos beneficiamos do Irã, não o contrário."
Ele afirmou que o apoio iraniano, incluindo a pressão pelo cessar-fogo, ajudou o Líbano no conflito atual. E também indicou que a resiliência do Hezbollah no campo de batalha forçou Israel a iniciar negociações.
"Se não houvesse perseverança na linha de frente, Israel teria atingido seus objetivos", segundo Safa. "Mas eles enfrentam um impasse político e militar."
Muitos libaneses (incluindo pessoas entrevistadas pela BBC em reportagens recentes) afirmam que desejam ver o grupo desarmado e culpam o Hezbollah por terem arrastado o país para o conflito.
A entrevista evidencia as profundas divisões existentes no Líbano sobre o papel do Hezbollah. Mas Safa rejeita essa crítica.
"É uma visão errada", ele responde. "O perigo que estamos vivenciando se deve ao comportamento do inimigo israelense, não do Hezbollah."
Safa acusou Israel de conduzir ataques não apenas no Líbano, mas em toda a região, incluindo a Síria, Iraque, Irã e Iêmen.
País no limite
O Líbano enfrenta graves tensões desde a escalada do conflito. Grandes partes do sul do país e áreas de fronteira foram reduzidas a escombros e mais de um milhão de civis foram deslocados.
O momento da entrevista — poucas horas antes do anúncio do cessar-fogo — enfatiza como a situação permanece frágil e com possibilidade de mudar rapidamente.
A trégua pode trazer alívio temporário, mas os comentários de Safa deixam claro que as questões estruturais permanecem sem solução.
Quando terminamos a entrevista, ouvi um drone israelense voando sobre nossas cabeças. Safa colocou seus óculos de sol, puxou um chapéu sobre a cabeça e saiu silenciosamente do edifício.
Com o Hezbollah se recusando a se desarmar e insistindo em condições mais amplas, enquanto Israel mantém suas exigências de segurança, qualquer cessar-fogo pode se tornar apenas uma pausa em um conflito muito maior.
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