Justiça italiana arquiva processo que ligava Berlusconi a atentados da máfia de 1993
Segundo juíza, não há provas concretas de contato entre ex-premiê e Cosa Nostra
A Justiça italiana decidiu arquivar um processo que buscava estabelecer uma ligação entre o falecido ex-primeiro-ministro da Itália Silvio Berlusconi (1936-2023) e a série de atentados a bomba perpetrados pela máfia siciliana Cosa Nostra em 1993.
A decisão, publicada nesta quinta-feira (4) e assinada em 15 de janeiro pela juíza de instrução do Tribunal de Florença, Patrizia Martucci, concluiu que não existem provas concretas que sustentem a acusação.
Segundo a magistrada, "faltam provas concretas de contatos ou relações diretas entre a Cosa Nostra e Berlusconi e, consequentemente, com Marcello Dell'Utri, um assessor próximo de Berlusconi".
Com isso, foi determinado o arquivamento do processo que investigava Dell'Utri no âmbito do inquérito sobre os supostos mandantes ocultos dos atentados mafiosos ocorridos em 1993.
A decisão marca o sexto arquivamento de uma investigação desse tipo após mais de três décadas de apurações. Entre maio e agosto de 1993, cinco atentados com carros-bomba em Roma, Florença e Milão deixaram 10 mortos e dezenas de feridos.
No ano anterior, em 1992, a Cosa Nostra havia assassinado os promotores antimáfia Giovanni Falcone e Paolo Borsellino em ataques que chocaram a Itália.
Em meio ao inquérito, Dell'Utri, ex-senador e antigo colaborador de Berlusconi, foi condenado em 2014 a sete anos de prisão por envolvimento externo com uma associação mafiosa. Apesar disso, a Justiça considerou insuficientes as evidências para sustentar qualquer ligação dele ou de Berlusconi com os atentados de 1993.
Berlusconi, que já foi alvo de inquéritos semelhantes, era suspeito de ter sido o mandante dos ataques.
Após a divulgação da decisão, Marina Berlusconi, empresária e filha mais velha do ex-premiê, afirmou que o caso demonstra a necessidade de reformas no sistema judiciário italiano.
Ela criticou o resultado do referendo realizado em março, que rejeitou uma proposta de reforma constitucional apoiada pelo governo da primeira-ministra Giorgia Meloni.
"A incrível história da investigação de Florença demonstra mais uma vez o estado da justiça italiana e confirma que a derrota no referendo de março foi uma enorme oportunidade perdida para o nosso país", declarou Marina, presidente da holding familiar Fininvest e da editora Arnoldo Mondadori Editore.
A empresária também defendeu mudanças que ampliem a responsabilidade civil dos magistrados e afirmou que o sistema judicial italiano permanece em situação de emergência.
"Como cidadã que testemunhou muitos desastres judiciais em primeira mão, gostaria que os políticos não deixassem essa questão de lado: há muitas questões a serem resolvidas, a começar pela falta de verdadeira responsabilidade civil para os juízes", acrescentou.
Segundo ela, a teoria de que os atentados mafiosos de 1993 e 1994 teriam favorecido o surgimento do partido Força Itália (FI) alimentou durante décadas suspeitas infundadas contra seu pai e Dell'Utri.
"Toda essa fúria em torno de uma teoria sem sentido alimentou 30 anos de suspeitas, insinuações e campanhas de deslegitimação contra Silvio Berlusconi e Marcello Dell'Utri. Mas, no fim, só produziu uma montanha de papel inútil, tanto nos tribunais quanto nas redações de certos jornais", afirmou.
Por fim, Marina reiterou a inocência do pai e destacando seu papel no combate ao crime organizado. "A verdade histórica é completamente diferente. Meu pai foi um dos principais protagonistas na luta contra o crime organizado na Itália", concluiu. .
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