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Jersey, o pequeno paraíso fiscal no Canal da Mancha que gerou uma disputa naval entre a França e o Reino Unido

Navios de guerra britânicos e franceses foram posicionados em confronto aberto nas águas da fronteira de Jersey, uma pequena dependência britânica a 22 quilômetros da Normandia que se tornou o principal foco das tensões pós-Brexit entre Londres e a União Europeia.

8 mai 2021 12h16
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Jersey tem população de 100 mil habitantes
Jersey tem população de 100 mil habitantes
Foto: AFP / BBC News Brasil

O Canal da Mancha esta semana passou por uma das maiores tensões navais em décadas.

Por mais de dois dias, navios de guerra do Reino Unido e da França foram posicionados nas águas da ilha de Jersey, uma pequena dependência britânica a 22 quilômetros da Normandia.

A ilha, cuja posse em outros séculos foi objeto de invasões, guerras e disputas, tornou-se agora o principal foco das tensões pós-Brexit entre Londres e a União Europeia (UE).

A nova crise começou no início da semana passada, quando uma frota de mais de 60 navios de pesca franceses navegou com destino a um porto da capital da ilha, Saint Helier.

Foi assim que os pescadores iniciaram um protesto sobre as novas exigências e limitações para seu comércio que entraram em vigor neste mês, em decorrência da saída dos britânicos do bloco europeu.

Sob um acordo com a UE, os donos de barcos franceses devem comprovar um histórico de pesca na área para receber uma licença a fim de operar nas águas de Jersey, mas eles dizem que outras exigências foram adicionadas sem aviso prévio e agora afetam seu trabalho.

O governo francês questionou a medida britânica e saiu em defesa de seus cidadãos.

Logo após o início do protesto, a França ameaçou cortar a eletricidade da ilha, que vem de território francês, levando a um dos maiores confrontos diplomáticos dos últimos tempos entre Londres e Paris.

A tensão chegou a tal ponto que dois navios da Marinha Real britânica foram enviados para a área, ao que a França também respondeu com o envio de dois outros navios de patrulha.

Finalmente, na noite de quinta-feira (6/5), após várias negociações, os barcos pesqueiros franceses deixaram o porto de Jersey, encerrando assim o confronto com Londres.

Pelo menos, "por enquanto".

"Estamos satisfeitos que os barcos de pesca franceses tenham deixado os arredores de Jersey. Como a situação está resolvida por enquanto, os navios de patrulha marítima da Marinha Real vão se preparar para retornar ao porto no Reino Unido", anunciou o governo britânico.

No entanto, especialistas consultados pela BBC garantem que a situação está longe de ser resolvida, visto que suas causas (as relações econômicas e políticas entre os membros da UE e do Reino Unido na era pós-Brexit) continuam a ser uma fonte de tensão entre as partes.

E Jersey, localizada entre a França e o Reino Unido, pode continuar a ser um gatilho para novos confrontos.

Mas por que esta ilha é tão relevante para Londres?

Uma ilha peculiar

Jersey é um lugar geográfico, histórico e politicamente peculiar: é a maior das Ilhas do Canal da Mancha e está tão perto da França que culturalmente é considerada mais próxima deste país do que do Reino Unido.

No entanto, é politicamente dependente de Londres: suas relações exteriores, defesa e "boa governança" são de responsabilidade do Reino Unido, embora não seja oficialmente parte dele.

De fato, a mistura entre as duas culturas é uma constante por lá.

A maioria de seus habitantes nativos fala inglês e uma versão peculiar do francês (um subdialeto do normando); dirige-se à esquerda, como no Reino Unido, mas se cozinham pratos típicos da Normandia; o críquete inglês é um esporte popular; mas muitos dos nomes de cidades e vilarejos são em francês. A moeda oficial é a britânica, a libra esterlina.

Pescadores franceses protestaram contra os novos regulamentos de pesca
Pescadores franceses protestaram contra os novos regulamentos de pesca
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

A ilha, com pouco mais de 100 mil habitantes, nunca fez parte da União Europeia ou do Espaço Econômico Europeu e é considerada uma monarquia constitucional e democracia parlamentar autônoma, com poder de autodeterminação e sistemas financeiros, jurídicos e judiciários próprios.

No entanto, sua defesa é de responsabilidade constitucional do Reino Unido. A ilha também não tem poder legal para nomear diplomatas e a Rainha Elizabeth 2ª é considerada sua monarca (e chefe de Estado).

Esse estranho status político tem a ver com sua história e remonta aos primórdios do primeiro milênio depois de Cristo.

Uma história entre duas nações

Por volta do ano 996, a ilha, inicialmente um enclave romano, foi anexada ao Ducado da Normandia, mas seu status e destino mudaram devido a um dos eventos que mais impactaram na história da Europa: a Batalha de Hastings.

Em outubro de 1066, o duque William da Normandia, conhecido como William, o Conquistador, invadiu a Inglaterra e derrotou o rei Harold 2º, espalhando o poder normando para o norte do Canal da Mancha.

Batalha de Hastings foi um dos eventos históricos mais importantes da história antiga da Europa
Batalha de Hastings foi um dos eventos históricos mais importantes da história antiga da Europa
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

A partir de então, Jersey e Inglaterra foram unidas sob a mesma monarquia.

Após a divisão do Ducado da Normandia em 1204, as ilhas ficaram sob a posse dos ingleses, e em sucessivos episódios na história a França tentou sem sucesso recuperá-las.

Durante a Idade Média, de fato, a Inglaterra perdeu muitas de suas possessões feudais no continente europeu, mas conseguiu manter suas ilhas no Canal da Mancha.

Ilha foi ocupada pela Alemanha nazista durante a 2ª Guerra Mundial
Ilha foi ocupada pela Alemanha nazista durante a 2ª Guerra Mundial
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

O Reino Unido, entretanto, perdeu sua posse por alguns anos: entre 1º de julho de 1940 e 9 de maio de 1945, a ilha foi ocupada pelos nazistas, que chegaram a criar campos de concentração para onde transferiam prisioneiros soviéticos a fim de realizar trabalhos forçados.

Na verdade, a ilha passou por uma fome intensa após os desembarques da Normandia, depois que os Aliados assumiram o controle da região e cortaram o abastecimento da França.

Isso porque a economia e a vida de Jersey têm estado estrategicamente ligadas à França, de onde não só obtém sua eletricidade por cabos submarinos, mas com quem mantêm seu maior intercâmbio econômico.

A ilha dos escândalos

Apesar de seu pequeno tamanho e diminuta população, Jersey teve um impacto notável na vida política, econômica e midiática, não apenas da Europa.

Da pequena ilha, surgiu uma raça de vacas (jersey), comercializadas em todo o mundo por seu leite rico em gordura, uma batata (jersey royal), que também conquistou o paladar mundial, e um tipo de malha que, produzida por sua indústria têxtil, se tornou tão famosa a ponto de batizar uma peça de roupa (em alguns países de língua espanhola, a vestimenta ainda é chamada de jersey; em outros, suéter).

Sua importância estratégica para a Inglaterra foi inclusive lembrada na conquista da América do Norte: em sua homenagem, os ingleses batizaram uma de suas 13 colônias: Nova Jersey.

A ilha também ficou conhecida por outros motivos menos curiosos.

Há uma década, estava nas manchetes de quase todo o mundo quando foi descoberto o chamado caso Haut de la Garenne, uma série de casos de abuso e pedofilia em um orfanato entre 1960 e 1980.

Ilha foi designada paraíso fiscal
Ilha foi designada paraíso fiscal
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

A economia da ilha e o seu sistema financeiro também lhe garantiu má reputação durante décadas: é considerada um dos principais paraísos fiscais da Europa.

A ONG Tax Justice Network, que rastreia paraísos fiscais corporativos em todo o mundo, classificou Jersey em sua lista de 2019 como uma das mais "agressivas" do mundo.

O governo local negou por anos que a ilha seja um paraíso fiscal e garante que seus negócios são ali conduzidos "totalmente de acordo" com os padrões estabelecidos por "órgãos globais independentes".

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