Jeffrey Epstein trocou elogios sobre Bolsonaro com Steve Bannon: 'Mudou o jogo'
Novos documentos sobre caso Epstein foram divulgados pelo governo dos EUA nesta sexta-feira, 30/01.
Uma troca de emails atribuída a Jeffrey Epstein, criminoso sexual condenado nos Estados Unidos e morto em 2019, e Steve Bannon, ex-conselheiro do presidente americano, Donald Trump, e estrategista político, faz diversas menções elogiosas ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
"Bolsonaro mudou o jogo. Nenhum refugiado quer entrar. Bruxelas não lhe diz o que fazer. Ele só precisa reativar a economia. MASSIVO", diz uma mensagem atribuída a Epstein em 8 de outubro de 2018.
Na véspera, Bolsonaro disputava a eleição presidencial contra o petista Fernando Haddad e havia obtido 49,2 milhões de votos (46% dos válidos), ante 31,3 milhões de Haddad (29,28%), o que garantiu um segundo turno, do qual ele sairia vitorioso.
A comunicação está entre os documentos divulgados na última sexta-feira (30/1) pelo Departamento de Justiça dos EUA, relacionados ao caso Epstein.
As novas mensagens também fazem menção ao presidente Lula, em um contexto de diálogos entre Epstein e o filósofo Noam Chomsky (mais detalhes aqui).
Bannon respondeu a Epstein que era próximo ao grupo do ex-presidente. "Eles me querem como conselheiro. Devo fazer isso?"
Epstein responde: "É meio o argumento 'reino no inferno' de novo".
Bannon declarou apoio explícito a Bolsonaro naquele ano.
Em entrevista à BBC News Brasil à época, após meses de intensas especulações sobre uma eventual participação dele na campanha, o ex-estrategista de Trump descreveu Bolsonaro como "líder", "brilhante", "sofisticado" e "muito parecido com Trump".
Ele negou, no entanto, que fizesse parte da campanha.
"Diga a ele que o meu candidato vai ganhar no primeiro turno", respondeu Bannon, aparentemente se referindo ao Bolsonaro.
"Bolsonaro é de verdade", respondeu Epstein (a expressão usada foi "the real deal", no original em inglês).
Eles também discutiram uma ida de Bannon ao Brasil para apoiar Bolsonaro.
Epstein afirmou: "Se você está confiante na vitória [de Bolsonaro], pode ser bom para sua marca se você fosse visto lá".
Há ainda um trecho da conversa divulgado nos documentos do governo dos EUA em que Epstein diz que não gostou de Bolsonaro ter chamado de "fake news" uma associação com Bannon.
Naquela época, Eduardo Bolsonaro, filho do ex-presidente, deu declarações à imprensa de que Bannon estaria à disposição da família.
Segundo o jornal Folha de S. Paulo, Eduardo chegou a participar, em novembro de 2018, de um jantar de aniversário de Bannon.
Em resposta às declarações do filho e aos questionamentos da imprensa, Jair Bolsonaro disse que a parceria não existia.
"Tenho que manter essa coisa do Jair nos bastidores", disse Bannon. "Meu poder vem do fato de não ter ninguém para me defender."
Bannon disse à época que "ficou impressionado" com a dinâmica "jovem" da campanha de Bolsonaro. E disse que deu conselhos à família.
"Minha preocupação número um foi que ele fosse assassinado. Eu nem perguntei ao filho, apenas disse diretamente: 'Vocês precisam de segurança'", disse ele à BBC News Brasil, em 2018.
Epstein também aconselhou Bannon, segundo conversa que aparece em outro documento, a evitar falar de Bolsonaro quando ele se encontrasse com Noam Chomsky, em um encontro facilitado pelo empresário no Arizona.
"A esposa dele é brasileira, então vá com calma ao falar de Bolsonaro. Eles [o casal Chomsky] são amigos do Lula. Mas ele é uma figura icônica e não se deve perder a chance de conversar sobre história e política. Vou colocar vocês em contato por e-mail, para que possam se coordenar diretamente."
Chomsky mantinha uma relação próxima com Epstein, que teria usado suas habilidades financeiras para ajudá-lo e até oferecido estadia em suas casas.
"Ele vai querer saber se você está do lado dos pequenos: corte de impostos, ataques à saúde pública e as ameaças bolsonaristas aos trabalhadores organizados", teria dito Epstein a Bannon, antes do encontro.