Itália pedirá aval da UE para se endividar em prol de gastos militares
Ministro anunciou recurso a cláusula que permite déficit extra de 1,5% do PIB
O governo da Itália pedirá à União Europeia a ativação das cláusulas de escape que permitem a um Estado-membro ter mais flexibilidade no orçamento para ampliar investimentos em defesa e segurança energética.
O anúncio foi feito nesta quarta-feira (5) pelo ministro italiano da Economia, Giancarlo Giorgetti, em audiência na Câmara dos Deputados.
A Cláusula de Escape Nacional (NEC, na sigla em inglês) foi criada pela UE após a invasão da Rússia à Ucrânia e, originalmente, permitia um déficit extra de até 1,5% do produto interno bruto (PIB) por três anos para despesas com defesa, mas o governo da premiê Giorgia Meloni conseguiu incluir também gastos com energia na medida, na esteira da disparada dos preços dos combustíveis devido à guerra no Irã.
De acordo com Giorgetti, a Itália, segunda economia mais endividada da UE, pedirá permissão para um déficit extra de 0,9% do PIB para investir em defesa e de 0,6% para segurança energética. Ao longo de três anos, isso deve significar uma cifra de cerca de 35 bilhões de euros (21 bilhões para defesa e 14 bilhões para energia). A Comissão Europeia, poder Executivo do bloco, decidirá sobre o pedido em outubro.
A decisão ocorre em meio à pressão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para que a Itália e outros membros da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) aumentem os gastos com defesa e segurança para 5% do PIB.
Giorgetti, no entanto, admitiu que a medida é "impopular" e que o governo terá dificuldade em convencer a população sobre a necessidade de elevar o endividamento para financiar gastos militares. "Se tivéssemos tomado decisões difíceis e impopulares no passado, inclusive em relação à energia, não estaríamos nesse estado de dependência e falta de autonomia", afirmou o ministro, em referência à dependência italiana de combustíveis fósseis importados.
"Mas a política significa assumir responsabilidades, e eu sou muito sensível à cultura dos deveres. Não se pode fugir diante de um dever", acrescentou.
O governo Meloni vem tentando reduzir o déficit fiscal do país para menos de 3% do PIB, como mandam as regras orçamentárias da União Europeia, para encerrar um procedimento instaurado por Bruxelas ? em 2025, o déficit foi de 3,1% do produto interno bruto.
Em meio a esse cenário, lideranças da oposição já se movimentam para tentar barrar o endividamento extra para financiar gastos com defesa. "Não nos peçam um euro sequer para o rearmamento. Vocês não encontraram recursos contra o encarecimento do custo de vida e agora nos pedem 20 bilhões para a defesa, é uma loucura", declarou o presidente do Movimento 5 Estrelas (M5S), o ex-premiê Giuseppe Conte.
A Itália tem a segunda maior dívida pública da UE, em 137,1% do PIB, atrás apenas da Grécia, com 146,1%, segundo a Comissão Europeia.
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