Israel e Irã continuam ataques após declarações de Trump sobre 'negociações' - que Teerã chama de 'fake news'
Donald Trump diz que o Irã quer 'muito fazer um acordo' de paz, mas presidente do parlamento iraniano afirma que essas notícias são falsas e foram usadas para "manipular" os mercados de petróleo.
Israel e Irã continuam, nesta terça-feira (24/3) a trocar ataques depois que o presidente americano, Donald Trump, afirmou que o Irã queria "muito fazer um acordo" com Estados Unidos.
Nesta segunda-feira (23/3), Trump disse que seu país se reuniria "provavelmente por telefone" com representantes iranianos. "Nós também gostaríamos de fazer um acordo", disse, a repórteres, antes de embarcar em seu avião presidencial, o Air Force One, em Palm Beach, na Flórida.
"Temos uma chance muito séria de um acordo", disse Trump, acrescentando que "isso não garante nada; não estou garantindo nada".
O presidente dos EUA também afirmou que os dois países estariam discutindo 15 pontos para encerrar a guerra, com o Irã renunciando às armas nucleares como os pontos "número um, dois e três".
Trump também sugeriu que o Irã poderia concordar em abandonar os planos para um programa de armas nucleares em troca da paz.
"Amanhã de manhã, em algum horário deles, esperávamos explodir suas maiores usinas de geração de energia elétrica, que custaram mais de US$ 10 bilhões (R$ 52 bilhões) para construir", afirmou. "Era uma usina muito boa, não havia falta de dinheiro. Um tiro e ela se vai. Desaba. Por que eles iriam querer isso?".
Mas a Casa Branca afirmou nesta terça que a situação é "fluida" e advertiu que nenhuma reunião formal entre líderes de alto escalão dos Estados Unidos e do Irã foi anunciada.
"Essas são discussões diplomáticas sensíveis e os Estados Unidos não vão negociar pela imprensa", disse Karoline Leavitt, secretária de imprensa da Casa Branca, à BBC em um comunicado.
"Trata-se de uma situação fluida, e especulações sobre reuniões não devem ser consideradas definitivas até que sejam formalmente anunciadas pela Casa Branca."
Em meio aos relatos conflitantes sobre possíveis negociações, um alto funcionário do Ministério das Relações Exteriores iraniano disse à CBS News, parceira da BBC nos Estados Unidos, que o Irã recebeu "pontos" para um possível acordo.
"Recebemos pontos dos EUA por meio de mediadores e eles estão sendo analisados."
A CBS esclareceu que essa etapa foi tomada como um possível passo preliminar para conversas, e que as negociações não estão confirmadas nem em andamento.
Na noite de sábado (21/3), o presidente americano havia dito que, se o Estreito de Ormuz não fosse aberto "sem ameaças" em 48 horas, os EUA "aniquilariam" as usinas de energia iranianas. O Irã havia prometido reagir a qualquer eventual ataque americano com escalada de violência.
Segundo Trump, após a ameaça, autoridades do Irã ligaram para ele querendo fazer um acordo. Por isso, ele recurou, suspendendo por cinco dias qualquer ataque a usinas iranianas.
Alguns veículos de imprensa publicaram que o enviado especial de Donald Trump, Steve Witkoff, e Jared Kushner — conhecido como "conselheiro de Trump" — estariam negociando com o presidente do parlamento iraniano, Mohammad-Bagher Ghalibaf.
Mas uma conta do X atribuída a Mohammad-Bagher Ghalibaf publicou que nenhuma negociação ocorreu com os EUA.
A publicação acrescenta que "notícias falsas" foram usadas para "manipular" os mercados de petróleo e que o povo iraniano "exige punição completa e severa dos agressores".
Mais cedo, na rede Truth Social, Trump já havia afirmado que os EUA e o Irã tiveram "conversas muito boas e produtivas" nos últimos dois dias sobre a "resolução completa e total das nossas hostilidades" no Oriente Médio.
No entanto, o Ministério das Relações Exteriores do Irã emitiu um comunicado no qual nega ter tido qualquer conversa com os EUA
"Negamos o que o presidente dos EUA, Donald Trump, disse sobre as negociações em curso entre os Estados Unidos da América e a República Islâmica do Irã", disse a nota do governo de Teerã.
"A República Islâmica do Irã mantém sua posição de rejeitar qualquer tipo de negociação antes de alcançar os objetivos do Irã com a guerra", afirma a nota, segundo a CBS News.
Horas antes, a agência de notícias iraniana Fars, afiliada à Guarda Revolucionária Islâmica do Irã (IRGC), citou uma fonte iraniana não identificada dizendo que "não há contato direto ou indireto com Trump". A fonte disse que, após "ouvir que nossos alvos incluiriam todas as usinas de energia do Oriente Médio, ele [Trump] recuou".
"Tenho o prazer de anunciar que os Estados Unidos da América e o país do Irã tiveram ao longo dos últimos dois dias conversas muito boas e produtivas a respeito de uma resolução completa e total das nossas hostilidades no Oriente Médio", escreveu Trump na nova mensagem na segunda-feira.
"Com base no teor e tom dessas conversas profundas, detalhadas e construtivas que continuarão ao longo da semana, eu instruí o departamento de Guerra a adiar todo e qualquer ataque militar contra usinas de energia do Irã e infraestrutura de energia por um período de cinco dias, sujeito ao sucesso das reuniões e discussões em andamento. Obrigado pela atenção para esse assunto! Presidente Donald J. Trump."
Logo após a mensagem de Trump, os mercados reverteram as tendências de alta do preço do petróleo e de queda das bolsas. O petróleo Brent caiu 13%, para cerca de US$ 96 o barril. Já o índice FTSE 100, da bolsa de Londres, subiu 0,5% (antes do anúncio estava em queda de 2%).
O prazo dado inicialmente por Trump iria expirar nesta segunda às 20h44 no horário de Brasília. O Irã respondeu no dia seguinte com um comunicado da Guarda Revolucionária Islâmica — uma das principais forças militares e políticas do Irã — na qual afirmou que fecharia "completamente" o Estreito de Ormuz caso os EUA atacassem a infraestrutura energética iraniana.
O Estreito de Ormuz é vital para o transporte global de petróleo. O bloqueio e os ataques do Irã contra navios no Estreito — que começaram depois dos ataques dos EUA e Israel ao país — fizeram com que os preços do petróleo disparassem nas últimas semanas. Em tempos de paz, cerca de 20% das remessas mundiais de petróleo e gás natural liquefeito (GNL) passam pelo Estreito.
Conversas com Starmer
Trump vem pressionando seus aliados a ajudar nos esforços para abrir o Estreito de Ormuz. Na semana passada, ele chamou os países da aliança militar de "covardes".
Na noite de domingo, o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, conversou por telefone com Trump. A ligação durou 20 minutos e foi "construtiva", segundo Downing Street.
Um porta-voz do governo britânico disse que os dois discutiram a situação no Oriente Médio e, "em particular, a necessidade de reabrir o Estreito de Ormuz para retomar o transporte marítimo global".
"Eles concordaram que a reabertura do Estreito de Ormuz era essencial para garantir a estabilidade no mercado global de energia", disse o porta-voz. Ambos "concordaram em conversar novamente em breve".
Starmer fará uma reunião com seu gabinete nesta segunda-feira para discutir a situação com seus ministros.
No domingo, Trump compartilhou um esquete satírico da recém-estreada versão britânica do programa de humor britânico Saturday Night Live (SNL) na sua rede Truth Social, no qual atores interpretando Starmer e o vice-primeiro-ministro David Lammy conversam sobre uma iminente ligação telefônica com o presidente americano.
"Ai, meu Deus, e se o Donald gritar comigo? O que eu digo, Lammy?", diz o ator que interpreta Starmer, antes de acrescentar: "Estou perdido aqui, Lammy. Como a Liz Truss [ex-premiê britânica] fazia esse trabalho parecer tão fácil?"
Trump ainda publicou uma breve mensagem em sua plataforma Truth Social durante a madrugada, escrita em letras maiúsculas: "PAZ ATRAVÉS DA FORÇA, PARA DIZER O MÍNIMO!!!"
O Departamento de Estado dos EUA emitiu um novo alerta para cidadãos americanos em todo o mundo devido às tensões no Oriente Médio.
Em comunicado divulgado no X, o departamento pede aos americanos "em todo o mundo, e especialmente no Oriente Médio, que exerçam cautela".
"Fechamentos periódicos do espaço aéreo podem causar transtornos em viagens. Instalações diplomáticas americanas, inclusive fora do Oriente Médio, têm sido alvos de ataques", afirma o comunicado. "Grupos que apoiam o Irã podem atacar outros interesses americanos no exterior ou locais associados aos EUA e/ou a cidadãos americanos em todo o mundo."