Irmão do rei Charles, Andrew é libertado após ser preso por conduta imprópria relacionada a Epstein
O irmão mais novo do rei Charles, Andrew Mountbatten-Windsor, foi libertado da custódia policial na noite (horário local) desta quinta-feira, após ser preso sob suspeita de má conduta no exercício de cargo público, devido a alegações de que ele teria enviado documentos confidenciais do governo a Jeffrey Epstein.
Mountbatten-Windsor, que completou 66 anos nesta quinta-feira, foi interrogado durante todo o dia por detetives da Polícia do Vale do Tâmisa, que neste mês anunciou estar investigando alegações de que ele teria repassado documentos ao falecido criminoso sexual enquanto trabalhava como enviado comercial.
A prisão de um membro sênior da realeza, oitavo na linha de sucessão ao trono, é algo sem precedentes nos tempos modernos.
"Recebi com profunda preocupação a notícia sobre Andrew Mountbatten-Windsor e a suspeita de má conduta em cargo público", disse o rei Charles em um comunicado.
Uma testemunha da Reuters viu o príncipe Andrew saindo de uma delegacia de polícia em Aylsham, no leste da Inglaterra, onde foi recebido por um pequeno grupo de fotógrafos e equipes de televisão, pouco depois das 19h (horário local).
Uma fotografia da Reuters tirada após sua libertação mostra ele sentado dentro de um carro, aparentando estar abalado.
A Polícia do Vale do Tâmisa disse mais tarde que "o homem preso" havia sido "libertado sob investigação".
"A LEI DEVE SEGUIR SEU CURSO"
Embora o Palácio de Buckingham não tenha sido informado com antecedência sobre a prisão, Charles disse que as autoridades tinham o "apoio e cooperação total e sinceros" da família.
"Deixe-me afirmar claramente: a lei deve seguir seu curso", disse o monarca em sua declaração.
"Enquanto isso, minha família e eu continuaremos cumprindo nosso dever e servindo a todos vocês."
O rei visitou um desfile de moda em Londres nesta quinta-feira, sem fazer mais comentários públicos.
Mountbatten-Windsor, o segundo filho da falecida rainha Elizabeth, sempre negou qualquer irregularidade em relação a Epstein e disse que lamenta a amizade entre eles.
Seu gabinete não respondeu a um pedido de comentário e ele não se pronunciou publicamente desde a divulgação de mais de 3 milhões de páginas de documentos pelo governo dos Estados Unidos relacionados a Epstein, que foi condenado por solicitar prostituição de uma menor em 2008.
Esses documentos sugeriam que Mountbatten-Windsor havia encaminhado a Epstein, em 2010, relatórios sobre o Vietnã, Cingapura e outros lugares que ele havia visitado em viagens oficiais como representante especial do governo para comércio e investimento.
Ele foi forçado a deixar o cargo em 2011, depois que suas ligações estreitas com Epstein vieram à tona.
"Após uma avaliação minuciosa, abrimos agora uma investigação sobre essa alegação de má conduta no exercício de cargo público", disse o subchefe de polícia do Vale do Tâmisa, Oliver Wright, em um comunicado.
"Entendemos o grande interesse público neste caso e forneceremos atualizações no momento oportuno."
A prisão marca um novo ponto baixo para o ex-príncipe, que foi forçado a renunciar a todas as funções oficiais da realeza em 2019 devido a suas ligações com Epstein e, em outubro passado, teve seus títulos e honras retirados por seu irmão mais velho, em meio a novas revelações sobre o relacionamento entre os dois.
CARROS POLICIAIS DESCARACTERIZADOS
Mais cedo, seis carros de polícia descaracterizados e cerca de oito policiais à paisana foram fotografados em Wood Farm, na propriedade de Sandringham, no leste da Inglaterra, onde Mountbatten-Windsor reside atualmente.
Policiais do Vale do Tâmisa também estavam revistando a mansão na propriedade do rei em Windsor, onde Mountbatten-Windsor morava até ser forçado a sair em meio à indignação com as revelações sobre Epstein.
Embora a prisão signifique que a polícia tem suspeitas razoáveis de que um crime foi cometido e que o membro da família real é suspeito de envolvimento em um delito, isso não implica culpa.
Uma condenação por má conduta em cargo público acarreta pena máxima de prisão perpétua e deve ser julgada em uma Corte da Coroa, que lida apenas com os crimes mais graves.
A polícia afirmou anteriormente que a conduta imprópria no exercício de um cargo público, que é um crime de "'Common Law" (direito consuetudinário) e não está abrangido pela legislação escrita, envolve "complexidades específicas".
PROCESSO JUDICIAL DE VIRGINIA GIUFFRE
Em 2022, o irmão do rei chegou a um acordo em um processo civil movido nos Estados Unidos pela falecida Virginia Giuffre, que o acusou de abuso sexual quando ela era adolescente em propriedades pertencentes a Epstein ou seus associados.
A investigação policial atual não está relacionada a essa ou qualquer outra alegação de conduta sexual imprópria.
"Hoje, nossos corações partidos foram aliviados com a notícia de que ninguém está acima da lei, nem mesmo a realeza", disse a família de Giuffre, que cometeu suicídio no ano passado, em um comunicado.
Em resposta à prisão mais cedo de Mountbatten-Windsor, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse que era uma "vergonha".
"Acho muito triste. Acho que é muito ruim para a família real", disse Trump aos repórteres. "É muito, muito triste para mim... ver o que está acontecendo com o irmão dele (do rei Charles)."
Se Mountbatten-Windsor acabar enfrentando acusações criminais, ele se juntará a um grupo muito pequeno de membros da realeza britânica que foram formalmente acusados de crimes.
Sua irmã mais velha, a princesa Anne, foi multada por excesso de velocidade em 2001 e, no ano seguinte, tornou-se a primeira membro da realeza a ser condenada por um crime em 350 anos, quando compareceu ao tribunal para se declarar culpada por não ter impedido que um de seus cães, chamado Dotty, mordesse duas crianças.
O rei Charles 1º foi julgado por traição em 1649, no final da Guerra Civil Inglesa, considerado culpado e decapitado.
A investigação por má conduta não é a única acusação contra Mountbatten-Windsor que a polícia está investigando.
O grupo antimonárquico Republic denunciou-o por alegações de que ele esteve envolvido no tráfico de uma mulher para o Reino Unido para fins sexuais em 2010. A Polícia do Vale do Tâmisa disse que estava avaliando as alegações de que uma mulher havia sido levada para um endereço em Windsor, onde o ex-príncipe morava até recentemente.
Parlamentares dos EUA também afirmaram que ele deveria testemunhar perante comissões nos Estados Unidos sobre o que sabia sobre Epstein.
Enquanto isso, o ex-primeiro-ministro britânico Gordon Brown também pediu uma investigação policial sobre a extensão do tráfico de mulheres por Epstein sem as devidas verificações pelas autoridades no aeroporto Stansted, de Londres, dizendo que isso havia sido negligenciado em inquéritos anteriores sobre Mountbatten-Windsor.
A polícia de Essex disse na quarta-feira que estava investigando o assunto.