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'Inepto, atrapalhado e incompetente': os e-mails vazados de embaixador britânico com críticas a Trump

O vazamento de e-mails confidenciais do embaixador do Reino Unido em Washington gerou um grande mal-estar diplomático com os EUA

9 jul 2019
15h01
atualizado às 15h21
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O vazamento de críticas do embaixador britânico em Washington, Kim Darroch, ao governo Donald Trump gerou mal-estar diplomático entre dois países que são aliados históricos e que não se cansam de repetir que possuem uma "relação muito especial".

Enquanto o governo do Reino Unido tem manifestado apoio a Darroch, o presidente americano, Donald Trump, já declarou que sua administração não vai mais lidar com o embaixador.

Trump afirmou que os Estados Unidos não vão mais lidar com diplomata britânico Kim Darroch, que teve mensagens críticas ao presidente americano vazadas
Trump afirmou que os Estados Unidos não vão mais lidar com diplomata britânico Kim Darroch, que teve mensagens críticas ao presidente americano vazadas
Foto: AFP/PA MEDIA / BBC News Brasil

O impasse pode prejudicar a comunicação entre os dois países, já que o embaixador atua como porta-voz e representante do Reino Unido nos Estados Unidos. Darroch ocupa o cargo mais alto da diplomacia britânica nos EUA desde 2016 - ano da eleição americana que elegeu Trump.

Mas quais são os pontos mais polêmicos das correspondências do embaixador britânico? Quais foram as reações a esse vazamento?

E que consequências esse episódio pode trazer?

'Inepto' e 'incompetente'

A crise teve início no domingo (7), quando o jornal britânico "The Mail on Sunday" vazou e-mails diplomáticos confidenciais, nos quais Darroch classifica o governo Trump de "inepto", "inseguro" e "incompetente".

Em correspondências sigilosas, o embaixador britânico nos EUA classificou o governo Trump de 'inepto', 'inseguro' e 'incompetente'
Em correspondências sigilosas, o embaixador britânico nos EUA classificou o governo Trump de 'inepto', 'inseguro' e 'incompetente'
Foto: Larry French/Getty Images / BBC News Brasil

Os documentos obtidos pelo jornal britânico abarcam o período entre 2017, primeiro ano de Trump como presidente, até o presente. Neles, o embaixador aborda desde políticas do presidente americano sobre Oriente Médio até seus planos de reeleição.

Segundo o jornal, nas correspondências oficiais, o embaixador:

- Alerta que Trump pode estar em dívida com "russos suspeitos"

- Afirma que as políticas econômicas do presidente americano podem arruinar o sistema de comércio internacional

- Diz que Trump pode estar no "começo de uma espiral de queda... que leva à desgraça e à decadência"

- Expressa o temor de que Trump possa atacar o Irã

"Nós não acreditamos que essa administração vai ser substancialmente mais normal, menos disfuncional, menos imprevisível, menos divido em facções, menos diplomaticamente atrapalhada e inepta", diz Darroch, num dos telegramas mais sensíveis.

Ele também diz, segundo o "The Mail on Sunday", não acreditar que o governo Trump "parecerá competente" um dia.

Relação de Trump com a Rússia

Ao falar sobre as suspeitas de conluio entre russos e a equipe de Trump na eleição presidencial de 2016, o embaixador britânico disse que 'o pior não pode ser descartado'
Ao falar sobre as suspeitas de conluio entre russos e a equipe de Trump na eleição presidencial de 2016, o embaixador britânico disse que 'o pior não pode ser descartado'
Foto: REUTERS/Jorge Silva / BBC News Brasil

Nas correspondências, o embaixador britânico teria abordado vários temas polêmicos, entre os quais: a relação dos EUA com o Irã e a suspeita de que Trump teria atuado em conluio com russos para ganhar da democrata Hilary Clinton na eleição de 2016.

De acordo com o jornal britânico, num e-mail do dia 22 de junho de 2017, endereçado ao Conselho Nacional de Segurança do Reino Unido, Darroch diz que "o pior não pode ser descartado", em referência às suspeitas de ingerência russa na campanha eleitora para a Presidência dos EUA.

O embaixador alega, no e-mail, que investidores russos "podem ter resgatado" empresas de Trump e de seu genro, Jared Kushner, "quando elas corriam risco de quebrar em décadas anteriores".

Mas, na mesma correspondência, Darroch parece admirar a capacidade do presidente americano de sobreviver a escândalos.

"Trump tem estado envolto a escândalos durante quase toda a sua vida e vem superando essas situações. Parece indestrutível."

Política 'incoerente' sobre o Irã

Neste ano, em 22 de junho, o britânico afirmou que os rumores de "caos e conflitos" na Casa Branca eram, em sua maioria, verdadeiros, e que a política do governo em questões sensíveis como o Irã era "incoerente e caótica".

"É improvável que a política dos EUA sobre o Irã se torne mais coerente num futuro próximo. Este é um governo dividido."

A tensão com o Irã tem aumentado desde maio de 2018, quando Trump retirou os EUA de um acordo nuclear que restringia o enriquecimento de urânio pelos iranianos em troca da retirada de sanções à república islâmica.

A tensão com o Irã tem aumentado desde maio de 2018, quando Trump retirou os EUA de acordo nuclear
A tensão com o Irã tem aumentado desde maio de 2018, quando Trump retirou os EUA de acordo nuclear
Foto: EPA / BBC News Brasil

Mais recentemente, a crise entre os governos americano e iraniano escalou com a derrubada de um drone militar americano por forças do Irã. Segundo o veículo "The Mail on Sunday", o embaixador britânico criticou o que chamou de "36 horas de mensagens e decisões contraditórias" por parte dos EUA.

A derrubada do drone quase levou o governo americano a atacar o Irã militarmente. Trump teria autorizado a ofensiva, mas disse ter desistido após ser informado de que ela causaria cerca de 150 mortes.

Em correspondência sigilosa com autoridades britânicas, Darroch disse acreditar que, na verdade, a intenção de se reeleger presidente na eleição de 2020 foi o que pesou na decisão de Trump sobre o Irã.

"É mais provável que ele nunca tenha estado totalmente de acordo (com a ideia de atacar o Irã) e que ele tenha se preocupado com a imagem que essa aparente contradição com as suas promessas de campanha de 2016 causaria em 2020 (na próxima eleição)", disse.

Mas, conforme o jornal britânico, Darroch encerra o e-mail alertando que um possível ataque dos EUA ao Irã não pode ser descartado.

"Essa pode ser, no entanto, uma pausa temporária. Algum outro ataque iraniano em algum lugar da região pode desencadear mais uma mudança de orientação de Trump."

Quais foram as reações às críticas

Theresa May disse, por meio de porta-voz, que o embaixador Kim Darroch conta com usa "total confiança" e "apoio"
Theresa May disse, por meio de porta-voz, que o embaixador Kim Darroch conta com usa "total confiança" e "apoio"
Foto: AFP / BBC News Brasil

Logo após os e-mails serem publicados pelo "Mail on Sunday", o porta-voz da primeira-ministra britânica, Theresa May, disse que ela não concorda com o teor das mensagens vazadas, mas que o embaixador conta com sua "total confiança".

O porta-voz ainda afirmou que o vazamento é inaceitável. "O trabalho de um embaixador é prover opiniões honestas e sem verniz, mas May não concorda com suas análises", disse, acrescentando que a premiê entrou em contato com Trump para discutir o episódio.

O chanceler britânico, Jeremy Hunt, que é candidato a primeiro-ministro, também tentou distanciar o governo das críticas feitas por Darroch a Trump.

"É muito importante dizer que o embaixador estava fazendo seu trabalho de embaixador, que é proporcionar relatórios francos e opiniões pessoais sobre o que ocorre no país em que ele trabalha", disse.

"Mas são opiniões pessoais, não as opiniões do governo britânico, nem a minha opinião", declarou, segundo um comunicado.

Rompimento

A primeira reação do presidente americano ao episódio foi dizer: "Nós não somos grandes fãs daquele homem e ele não serviu bem ao Reino Unido".

Mas, no decorrer da segunda-feira (8), Trump endureceu o discurso, atacando Theresa May diretamente e anunciando rompimento com o embaixador britânico.

"Eu tenho sido muito crítico da forma como o Reino Unido e a primeira-ministra Theresa May têm lidado com o Brexit. Que bagunça ela e seus representantes criaram", escreveu o presidente americano no Twitter. "Eu disse a ela como deveria ser feito, mas ela optou por outro caminho."

Trump ainda afirmou que não conhece o embaixador britânico em Washington, mas garantiu que Darroch "não é apreciado".

"Nós não vamos mais lidar com ele. A boa notícia para o maravilhoso Reino Unido é que muito em breve eles terão um novo primeiro-ministro", disse, em referência ao fato de que o Partido Conservador fará novas eleições internas, até o dia 21 de julho, para a escolha de um substituto para May.

"Embora eu tenha gostado muito da magnífica visita de Estado (ao Reino Unido) no mês passado, foi a rainha quem mais me impressionou", acrescentou.

'Total apoio'

Mesmo após as mais recentes críticas de Trump, o governo britânico reafirmou, nesta terça-feira (9), "total apoio" ao embaixador britânico.

"Deixamos claro aos Estados Unidos o quão infeliz foi esse vazamento. Os trechos vazados não refletem a proximidade e a estima que temos pelo relacionamento (com os EUA)", disse um porta-voz de Theresa May.

Na visão do governo britânico, retirar o embaixador do posto poderia prejudicar os trabalhos de todos os diplomatas, de quem se espera relatórios com 'opiniões sinceras'
Na visão do governo britânico, retirar o embaixador do posto poderia prejudicar os trabalhos de todos os diplomatas, de quem se espera relatórios com 'opiniões sinceras'
Foto: Paul Morigi/GETTY IMAGES / BBC News Brasil

Mas ele também destacou que embaixadores precisam ter estabilidade para encaminhar análises sinceras sobre a política nos países onde estão alocados. De acordo com o porta-voz, May continua a apoiar Darroch.

"O Reino Unido tem uma relação especial e duradoura com os EUA, baseada na nossa longa história de comprometimento com valores comuns, e isso vai continuar", disse.

Em entrevista ao programa "Today", da Radio 4, da BBC, o ex-secretário de Relações Exteriores William Hague reforçou a visão de que diplomatas não devem ser retirados dos postos em casos de vazamentos de correspondências oficiais.

"Você nunca conseguiria ter um relatório honesto de qualquer embaixador do mundo se dissesse: 'Bem, se alguma de suas comunicações for divulgada, teremos que remover você do posto'", exemplificou.

Nesta terça-feira (9), Trump voltou a atacar o embaixador britânico chamando-o de "cara estúpido". "O embaixador desvairado que o Reino Unido impôs aos Estados Unidos não é alguém que nos agrade, é um cara muito estúpido", disse.

"Ele deveria falar com o seu país e com a primeira-ministra May sobre as negociações fracassadas do Brexit em vez de ficar chateado com minhas críticas sobre como elas (as negociações) foram mal conduzidas."

Possíveis consequências

A divulgação das conversas do embaixador britânico ocorre num momento delicado para o Reino Unido, que tenta assegurar um acordo de comércio com os Estados Unidos para entrar em vigor após o Brexit, marcado para ocorrer no final de outubro.

Há algumas semanas, em junho, Trump foi recebido com pompa em Londres pela rainha Elizabeth, que ofereceu ao presidente americano um banquete no palácio de Buckingham.

Na ocasião, Darroch teria enviado um memorando ao governo britânico alertando que, embora Trump tenha ficado "deslumbrado" com a visita de Estado ao Reino Unido, a Casa Branca continua movida pelos próprios interesses.

Segundo Trump, na visita que fez ao Reino Unido, quem mais o 'impressionou' foi a rainha
Segundo Trump, na visita que fez ao Reino Unido, quem mais o 'impressionou' foi a rainha
Foto: REUTERS/Carlos Barria / BBC News Brasil

"Esta ainda é a terra do 'America First (Estados Unidos em primeiro lugar)'", escreveu, segundo o jornal "The Mail on Sunday".

A editora de política da BBC, Laura Kuenssberg, destaca que, em breve, um novo primeiro-ministro será eleito e, com isso, um novo embaixador em Washington deverá ser escolhido.

Por isso, segundo Kuenssberg, a tendência é que May e Trump mantenham o atual discurso em relação ao episódio do vazamento. "No entanto, esse caso torna a escolha do novo embaixador britânico nos EUA uma controvérsia à espera de acontecer", diz.

Os dois candidatos a substituir May são o ex-secretário de Estado Boris Johnson e o atual ocupante deste posto, Jeremy Hunt.

Para Laura Kuenssberg, eles terão que fazer uma escolha difícil ao estabelecer as bases da relação que desejam ter com os Estados Unidos: "desafiar Trump, tentar 'amansar' o presidente americano ou simplesmente tolerá-lo".

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