Script = https://s1.trrsf.com/update-1765905308/fe/zaz-ui-t360/_js/transition.min.js
PUBLICIDADE

Groenlândia com bandeira dos EUA: trumpismo revive fantasmas coloniais e testa limites da soberania global

Um mapa da Groenlândia coberto pela bandeira dos Estados Unidos e a palavra "soon" bastaram para acionar alarmes diplomáticos na Europa e reacender um debate global sobre poder, soberania e ironia política. Publicado por uma integrante do staff imediato da Casa Branca no sábado (3), o gesto aparentemente trivial revelou mais do que humor digital: expôs uma lógica que mistura nostalgia imperial, provocação em rede social e desprezo calculado por normas internacionais.

4 jan 2026 - 11h42
(atualizado às 11h45)
Compartilhar
Exibir comentários

A imagem correu o mundo com a velocidade típica das redes sociais, mas o conteúdo parecia saído de um século anterior. Um mapa da Groenlândia pintado com as cores da bandeira dos Estados Unidos, acompanhado de uma única palavra em letras maiúsculas, em inglês: "SOON". Em breve.

O post foi publicado no dia 3 de janeiro por Katie Miller, esposa de Stephen Miller, vice-chefe de gabinete da Casa Branca e uma das figuras mais influentes do círculo político de Donald Trump. Em poucas horas, a provocação digital se transformou em incidente diplomático, com o embaixador da Dinamarca em Washington exigindo publicamente respeito à integridade territorial do Reino dinamarquês.

O episódio, amplamente reportado por agências como AFP e repercutido por veículos europeus de referência, tornou-se mais um símbolo de um fenômeno que analistas internacionais vêm descrevendo, com ironia e preocupação, como uma espécie de síndrome trumpista pós-colonial.

A reação de Copenhague foi cuidadosamente calibrada. O embaixador dinamarquês lembrou que Dinamarca e Estados Unidos são aliados históricos e que essa aliança pressupõe respeito mútuo às fronteiras e à soberania. A necessidade de um esclarecimento público, porém, já dizia muito. Afinal, não se tratava de uma declaração oficial do governo norte-americano, nem de um discurso presidencial, mas de um post em rede social feito por alguém que orbita o poder em Washington.

Ainda assim, a mensagem foi levada a sério, porque ninguém no circuito diplomático internacional ignora que, na era Trump, gestos aparentemente informais costumam antecipar ideias que circulam nos bastidores do poder.

Trump quer a Groenlândia

O interesse de Donald Trump pela Groenlândia não é novidade. Durante seu primeiro mandato, o então presidente norte-americano já havia sugerido publicamente a possibilidade de comprar o território autônomo dinamarquês, despertando perplexidade entre aliados europeus e rejeição explícita das autoridades locais groenlandesas.

A proposta, tratada à época como excentricidade, voltou a ganhar contornos mais nítidos no fim de 2025, quando Trump anunciou a nomeação de um enviado especial para o território, reacendendo tensões diplomáticas com a Dinamarca.

A postagem de Katie Miller, portanto, não surgiu no vácuo. Ela funcionou como uma espécie de meme geopolítico, condensando em uma imagem e uma palavra uma ambição antiga, agora reapresentada sob a estética leve e provocadora das redes sociais.

É nesse ponto que a ironia se mistura à análise séria. A imprensa internacional de referência, de jornais britânicos a agências globais de notícias, tem observado que o trumpismo opera uma curiosa fusão entre nostalgia imperial e linguagem digital contemporânea. A ideia de expansão territorial, historicamente associada a impérios coloniais europeus ou ao conceito norte-americano de destino manifesto do século XIX, ressurge travestida de brincadeira, de provocação online, de imagem viral.

O conteúdo, no entanto, carrega implicações muito reais. Quando um aliado precisa reiterar publicamente que seu território não está disponível para anexação simbólica ou literal, algo se deslocou no campo das normas diplomáticas.

O conceito de síndrome trumpista pós-colonial não sugere que os Estados Unidos sejam formalmente um império colonial nos moldes clássicos, mas aponta para um comportamento político que parece ignorar, ou deliberadamente testar, os limites do consenso internacional construído após a Segunda Guerra Mundial.

Esse consenso se baseia na inviolabilidade das fronteiras, no respeito à soberania e na resolução de disputas por meios diplomáticos. Ao brincar com mapas, bandeiras e a palavra "em breve", figuras próximas ao poder norte-americano evocam uma lógica anterior, na qual territórios eram vistos como objetos de negociação, desejo ou conquista.

O contexto internacional recente amplia ainda mais esse debate. O mesmo período em que o tweet sobre a Groenlândia circulou foi marcado por ações contundentes do governo Trump no cenário externo, incluindo operações unilaterais e decisões que desafiam normas tradicionais do direito internacional.

Para analistas ouvidos por jornais europeus e britânicos, há uma coerência inquietante entre esses movimentos: a ideia de que a força política, militar ou simbólica de um Estado pode se sobrepor a regras multilaterais quando isso convém a seus interesses estratégicos.

Com AFP

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
Compartilhar
Publicidade

Conheça nossos produtos

Seu Terra












Publicidade