Exército sírio anuncia fim da operação em Aleppo, mas curdos alegam que combates continuam
Os recentes combates entre o exército sírio e as forças curdas em Aleppo, no norte do país, deslocaram "cerca de 155 mil pessoas" nos últimos cinco dias, anunciou o governo local neste sábado (10). Essas pessoas deixaram suas casas nos bairros predominantemente curdos de Sheikh Maqsoud e Ashrafieh, afetados pela violência, buscando refúgio em outras partes da cidade ou em outros locais da província, disse o governador Azzam al-Gharib em uma coletiva de imprensa.
Os confrontos entre o governo central e os curdos, os mais violentos em Aleppo desde a queda de Bashar al-Assad, em dezembro de 2024, eclodiram na última terça-feira (6). Desde então, pelo menos 21 civis foram mortos.
Essa nova escalada no conflito acontece no momento em que ambos os lados lutam para implementar um acordo alcançado em março de 2025 para integrar as instituições da administração autônoma curda e as Forças Democráticas Sírias (FDS) ao novo Estado.
Também neste sábado, o exército sírio anunciou que concluiu sua operação contra o último reduto do grupo étnico em Aleppo, uma alegação negada pelas forças curdas, que afirmam continuar lutando contra as tropas do governo.
Após já ter assumido o controle de Ashrafieh, o outro distrito controlado pelos curdos, o exército sírio anunciou em um comunicado à agência de notícias oficial Sana que "todas as operações militares em Sheikh Maqsoud cessaram, com efeito, a partir das 15h (9h de Brasília)".
O comunicado afirma ainda que os combatentes do grupo étnico seriam "transferidos" para a cidade de Tabaqa, controlada por eles, no nordeste da Síria.
No entanto, as forças curdas negaram essas "alegações", classificando-as como "infundadas" e afirmaram que os combates continuavam. Tiros ainda podiam ser ouvidos no início da tarde, segundo correspondentes da AFP, que haviam testemunhado a entrada do exército no distrito e soldados resgatando civis presos em suas casas.
"Proteção curda local"
Antes dos anúncios contraditórios, uma alta funcionária da administração curda síria, Elham Ahmed, não havia descartado uma retirada, mas estipulou como condição a manutenção da "proteção curda local" para os moradores dos bairros povoado pelo grupo étnico em Aleppo.
"O governo está tentando, por meio desses ataques, minar os acordos firmados. Estamos comprometidos com eles e nos esforçando para implementá-los", disse Ahmed na sexta-feira.
Em Amã, o enviado dos EUA para a Síria, Tom Barrack, reafirmou o compromisso dos Estados Unidos em trabalhar para "garantir a retirada pacífica das Forças Democráticas Sírias" de Aleppo e "garantir a segurança" dos civis, após uma reunião com o ministro das Relações Exteriores da Jordânia, Ayman Safadi.
"Apelamos a todas as partes para que exerçam a máxima contenção, cessem imediatamente as hostilidades e retomem o diálogo em conformidade com os acordos" de março e abril de 2025 alcançados entre o governo e as Forças Democráticas da Síria (FDS), escreveu Tom Barrack no X, referindo-se às forças lideradas pelos curdos, que controlam parte do nordeste do país.
A FDS, que liderara a luta contra os jihadistas do Estado Islâmico na Síria, é apoiada por Washington, que também apoia o regime islamista de Ahmad al-Sharaa.
Desde a queda de Bashar al-Assad, o novo governo islamista prometeu proteger as minorias, mas enfrentou massacres de alauítas no litoral em março e violência contra drusos no sul em julho.
Corredores humanitários
Na entrada do bairro, Imad al-Ahmad, um homem de 60 anos, aguardava que as forças de segurança o deixassem voltar para casa. "Saí há quatro dias (...) Me refugiei na residência da minha irmã. Estou voltando para ver minha casa", disse ele.
Nahed Mohammad Qassab, uma mulher viúva de 40 anos, explicou que havia saído antes dos combates para comparecer a um funeral. "Meus três filhos ainda estão lá dentro, na casa do meu vizinho. Quero tirá-los de lá", disse ela.
Na sexta-feira, assim como nos dias anteriores, o exército permitiu que civis que desejassem fugir utilizassem dois "corredores humanitários" para escapar dos bairros curdos. Diante da medida, moradores sairam na chuva, carregados de bagagens.
Damasco havia pedido às forças curdas que deixassem a cidade, prometendo transportá-las em segurança para áreas controladas pelas Forças Democráticas da Síria (FDS) no nordeste do país.
Mas os combatentes entrincheirados em Sheikh Maqsoud recusaram-se a render-se e, segundo uma fonte militar citada pela televisão estatal, lançaram drones de ataque contra bairros de Aleppo a partir de suas posições a leste da cidade.
Com AFP