Ex-chefe da inteligência alemã teria colaborado com serviços de espionagem do Azerbaijão
O ex-chefe da inteligência alemã August Hanning e seu antigo assistente Manfred D. foram presos sob suspeita de espionagem e traição. Hanning teria recebido cerca de 2 mil documentos sigilosos do BND para uso lucrativo em sua consultoria privada, além de supostamente elaborar análises para a inteligência do Azerbaijão. O caso, negado pelas autoridades azeris, levou parlamentares alemães a defenderem regras de quarentena mais rígidas para ex-membros de agências secretas no setor privado.
Segundo revista "Spiegel", informações confidenciais podem ter sido repassadas a um contato no Cáucaso. August Hanning teria obtido ilegalmente milhares de documentos secretos após deixar o cargo.O ex-chefe do Serviço Federal de Inteligência (BND), August Hanning, preso nesta terça-feira (06/10) sob suspeita de espionagem e traição, teria continuado a receber informações confidenciais após deixar o cargo e as teria utilizado em sua atividade como consultor.
Segundo uma reportagem da revista alemã Der Spiegel, pelo menos um serviço de inteligência estrangeiro teria se beneficiado de sua atuação.
Hanning é acusado pela Procuradoria-Geral da Alemanha de atuar como agente de um serviço de inteligência estrangeiro, realizar espionagem contra o Estado, obter segredos de Estado e de tentativa de traição à pátria. Durante seu trabalho como consultor, ele teria elaborado análises para o serviço de inteligência do Azerbaijão.
Investigadores apuram a suspeita de que ele mantinha contato com um agente da república caucasiana. Hanning e seu antigo chefe de gabinete no BND, Manfred D., foram presos nesta terça-feira (06/10).
Segundo a Procuradoria-Geral Federal, Hanning teria recebido informações secretas de Manfred D. e, com base nelas, elaborado uma análise para um serviço de inteligência estrangeiro. A acusação, no entanto, não informou de qual país se tratava.
A prisão de Hanning ocorreu após descobertas feitas durante investigações de um outro crime: o sequestro dos filhos da empresária de Hamburgo Christina Block, em janeiro de 2024, em meio a uma disputa pela guarda das crianças com seu ex-marido. Elas teriam sido retiradas do pai, que vive na Dinamarca.
Espionagem para o Azerbaijão?
De acordo com a Spiegel, o suposto contratante de Hanning era um agente de inteligência do Azerbaijão. Ainda está sendo apurado se a análise elaborada pelo ex-chefe do BND chegou de fato ao destinatário.
Hanning presidiu o BND de 1998 a 2005 e, posteriormente, atuou como secretário de Estado no Ministério do Interior. Depois disso, migrou para o setor privado, trabalhando como consultor de segurança.
Segundo a Procuradoria-Geral Federal, Manfred D. trabalhou por muito tempo com Hanning, inicialmente no BND e, mais tarde, no Ministério do Interior, onde passou a atuar como seu assistente a partir do final de 2005.
Hanning e Manfred D. teriam combinado, supostamente em 2010, que o ex-chefe de gabinete forneceria continuamente informações valiosas do BND ao ex-chefe, mediante pagamento. Hanning teria utilizado essas informações para fins lucrativos em suas atividades de consultoria.
Hanning teria integrado a diretoria do Fórum Alemão-Azerbaijano, um grupo de lobby próximo ao governo autocrático da república do Cáucaso. A Procuradoria-Geral Federal não quis comentar a reportagem da Spiegel.
Após o término da gestão de Hanning, Manfred D. trabalhou novamente como chefe de gabinete no BND para presidentes que sucederam seu ex-chefe - entre março de 2012 e março de 2026, segundo a Procuradoria-Geral. Nessa função, ele teria tido acesso a informações sigilosas e supostamente repassado cerca de 2 mil documentos a Hanning. Manfred D. encontra-se atualmente em prisão preventiva.
Nesta quarta-feira, o Tribunal Federal de Justiça (BGH) decidirá se Hanning também terá sua prisão preventiva decretada.
O Azerbaijão negou, nesta quarta-feira, as informações contidas na reportagem da Spiegel. O Conselho de Mídia e Radiodifusão do país afirmou, em nota, que as alegações de uma ligação do Azerbaijão com o caso, noticiadas inicialmente pela revista, eram infundadas.
"A intenção maliciosa das forças por trás dessa operação de desinformação é prejudicar as relações entre o Azerbaijão e a Alemanha", declarou o conselho.
Políticos pedem "quarentena" para altos funcionários
Em razão do escândalo, alguns políticos alemães defendem a imposição de uma proibição de que ex-altos funcionários de serviços de inteligência assumam cargos relacionados à sua área de atuação anterior logo após deixarem o serviço público.
Políticos do Partido Social-Democrata (SPD) e do Partido Verde exigiram regras mais rigorosas de quarentena para ex-integrantes de serviços de inteligência.
O vice-presidente do Bundestag (Parlamento alemão), Omid Nouripour, declarou ao jornal Kölner Stadt-Anzeiger que "o caso Hanning demonstra a sensibilidade de cargos de consultoria no setor privado ocupados por ex-autoridades que detinham informações de altíssimo sigilo". O político do Partido Verde defendeu que o governo federal analise as atividades profissionais subsequentes e proíba, após a saída do cargo, o exercício de atividades de lobby no setor de segurança por parte desses indivíduos.
Konstantin von Notz, do partido de Nouripour, também criticou as atividades paralelas de ex-funcionários. Segundo ele, o órgão parlamentar de controle havia alertado explicitamente, em maio de 2023, sobre as atividades paralelas problemáticas de autoridades com acesso a informações de altíssimo sigilo. "O fato de esses problemas de segurança evidentes não terem sido sanados constitui uma falha grave", escreveu ele em postagem no X.
"O caso deixa claro que precisamos endurecer ainda mais as regras de quarentena para ex-dirigentes de serviços de inteligência", afirmou Sonja Eichwede, especialista em assuntos internos do SPD, ao defender um período de quarentena vitalício para ex-ocupantes de cargos de alto escalão.
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