Anna Politkovskaia: 20 anos depois, mandantes da morte da jornalista russa seguem desconhecidos
Vinte anos após o assassinato de Anna Politkovskaia, os responsáveis por ordenar a morte da jornalista russa continuam sem ser identificados. Ela foi morta a tiros em 7 de outubro de 2006, aos 48 anos, na entrada do prédio onde morava, em Moscou, no mesmo dia do aniversário do presidente russo, Vladimir Putin, de quem era crítica.
Vinte anos após o assassinato de Anna Politkovskaia, jornalista russa crítica a Vladimir Putin e aos crimes na Chechênia, os mandantes do crime seguem desconhecidos. Embora executores tenham sido condenados em 2014, seu filho afirma que uma investigação conclusiva só existirá com uma mudança de regime na Rússia. Enquanto é apagada dos meios oficiais russos, Politkovskaia permanece como símbolo global de coragem e liberdade de imprensa contra o autoritarismo de Moscou.
Arina Makarova, da RFI, e AFP
Repórter da Novaia Gazeta, Politkovskaia ficou conhecida por suas investigações sobre corrupção, abusos das forças russas e crimes de guerra durante a segunda guerra da Chechênia. Crítica de Vladimir Putin, ela também denunciou a repressão política e os abusos cometidos pelo regime checheno de Ramzan Kadyrov.
Cinco homens foram condenados em 2014 pelo assassinato, entre eles quatro chechenos. Os julgamentos estabeleceram a participação dos executores e organizadores, mas os mandantes nunca foram identificados. Um dos condenados foi posteriormente perdoado, em 2023, após combater na guerra da Ucrânia. O Kremlin e Ramzan Kadyrov negaram envolvimento no crime.
Em entrevista exclusiva à RFI, o filho da jornalista, Ilia Politkovski, afirmou que ainda mantém esperança de que os responsáveis sejam identificados, mas considera improvável uma investigação conclusiva enquanto o atual regime permanecer no poder.
"Uma verdadeira investigação só será possível se o regime mudar. E quero deixar claro que não se trata apenas da saída de Putin. É preciso realmente uma mudança de regime."
Uma jornalista que antecipou a deriva autoritária
Politkovskaia havia documentado durante anos os abusos cometidos pelo Exército russo na Chechênia e denunciado a crescente concentração de poder nas mãos de Putin. Em 2004, sobreviveu a um envenenamento quando viajava para cobrir a crise dos reféns na escola de Beslan.
Segundo Ilia, a percepção que tinha da situação política russa também mudou radicalmente ao longo dos anos. Quando era mais jovem, ele discutia com a mãe porque não considerava a situação do país tão grave quanto ela dizia.
"Eu considerava que o poder que estava então no lugar era relativamente normal. Mas eu simplesmente não entendia muito bem as coisas". Depois do assassinato, sua visão mudou. "Eu sabia que o poder era criminoso e que as coisas continuariam piorando".
O que ela estaria fazendo hoje?
Para o filho, se estivesse viva, Politkovskaia provavelmente estaria cobrindo a guerra na Ucrânia.
Ele considera, porém, que seria praticamente impossível para ela trabalhar livremente dentro da Rússia. Ilia acredita que ela poderia trabalhar para veículos de língua russa sediados no exterior.
"Ela cobriria essa guerra, com certeza. Não tenho certeza de que poderia fazer isso a partir da Rússia, porque não iam permitir."
A respeito da cobertura internacional da guerra, ele faz uma ressalva: considera que a imprensa ocidental cobre o conflito de maneira geralmente adequada, mas afirma que os interesses dos diferentes países também influenciam a cobertura.
Uma memória preservada fora da Rússia
A memória de Politkovskaia permanece presente em diferentes países. Seus livros continuam publicados em várias línguas, e ruas, praças e outros espaços públicos receberam seu nome.
Na Rússia, porém, sua presença desapareceu praticamente por completo dos meios de comunicação federais, segundo seu filho. "Uma grande tristeza, se falamos da Rússia. E um imenso orgulho em relação ao resto do mundo", afirmou.
Para jornalistas russos que continuam trabalhando no exílio, Politkovskaia permanece como uma referência. Segundo Sergei Sokolov, editor-chefe da Novaia Gazeta, sua insistência em investigar temas difíceis e sua disposição para enfrentar riscos continuam servindo de exemplo.
Vinte anos depois de sua morte, porém, a pergunta central permanece sem resposta: quem ordenou o assassinato de Anna Politkovskaia?
Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.