Zelensky acusa Rússia de 'escalada' após ataque massivo de drones contra Ucrânia
O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky acusou a Rússia nesta sexta-feira (3) de promover uma "escalada" do conflito, ao lançar centenas de drones contra a Ucrânia, deixando ao menos seis mortos. A ofensiva começou quando Zelensky conversava por telefone com o papa Leão XIV.
"No exato momento em que falávamos, os russos atacavam novamente a Ucrânia", escreveu Zelensky nas redes sociais. "Eis a resposta da Rússia à nossa proposta de trégua na Páscoa", afirmou. Segundo Moscou, o país nunca "formulou claramente" nenhuma iniciativa de cessar-fogo.
O governo ucraniano intensificou nas últimas semanas seus ataques contra instalações petrolíferas russas e afirma ter proposto na segunda-feira (30) uma "trégua energética" em resposta à crise desencadeada pela guerra no Oriente Médio, mas sem sugerir uma data. A Páscoa ortodoxa é celebrada na Ucrânia e na Rússia em 12 de abril.
No total, a Rússia lançou 542 drones e 37 mísseis desde a noite desta quinta-feira (2) contra infraestruturas civis ucranianas, afirmou a Força Aérea da Ucrânia no Telegram. Pelo menos 515 drones e 26 mísseis foram abatidos.
Os novos bombardeios russos deixaram ao menos seis mortos em todo o país desde a noite passada, segundo autoridades. Um homem morreu em Kharkiv, segunda maior cidade do país, localizada no nordeste, perto da fronteira russa. Duas pessoas foram mortas nas regiões de Kiev e Jytomyr e três na região de Soumy (nordeste).
"O inimigo utiliza novas rotas e drones que modernizam constantemente, além de novas táticas", declarou o porta-voz da Força Aérea, Yourii Ihnat, na TV estatal.
Ele comparou essa nova onda de bombardeios aos ataques sofridos pela Ucrânia na terça-feira (31), que deixaram pelo menos quatro mortos. As ofensivas aéreas desorganizam o cotidiano, obrigando serviços administrativos, empresas e transportes públicos a interromperem suas atividades. "O inimigo pressiona nossa população paralisando o funcionamento de certas instituições", afirmou Ihnat.
"Quase 500 drones e mísseis de cruzeiro atacaram a Ucrânia", disse no X o ministro das Relações Exteriores, Andriï Sybiga. "É assim que Moscou responde à proposta ucraniana de trégua de Páscoa: com ataques brutais", declarou, reiterando a fala de Zelensky.
A Ucrânia costuma ser alvo de ataques durante a noite. Mas a Rússia multiplicou seus bombardeios diurnos contra nas últimas semanas. Em 24 de março, Moscou havia lançado um dos maiores ataques diurnos contra o território ucraniano a desde o início da guerra, com mais de 400 drones.
Almost half a thousand drones and cruise missiles attacked Ukraine. At least one person was killed and others injured.
In Obukhiv, a drone smashed into a residential building. Terrorist Russia strikes in broad daylight deliberately—to maximise civilian casualties and damage.… pic.twitter.com/UovxLdW3Rp
— Andrii Sybiha 🇺🇦 (@andrii_sybiha) April 3, 2026
Cortes de energia atingem várias regiões
Em Kiev, nesta sexta por volta das 11h (horário local), a luz se apagou repentinamente. De acordo com a operadora pública Ukrenergo, os cortes atingiram várias regiões. Segundo a primeira-ministra Ioulia Svyrydenko, os apagões afetam a capital, mas também as cidades de Tcherkassy (centro) e Jytomyr (centro-oeste).
As negociações de paz com a Rússia, que vinham ocorrendo desde 2025, estão suspensas desde o início da guerra no Oriente Médio, no fim de fevereiro, que desviou o olhar global. Zelensky afirmou ter convidado emissários dos Estados Unidos a Kiev para retomar as negociações.
A atenção de Washington, que se apresenta como mediador entre Kiev e Moscou, está concentrada na guerra no Oriente Médio, desencadeada pelos ataques israelenses e americanos ao Irã em 28 de fevereiro.
"A delegação fará tudo o que for possível, nas condições atuais, durante a guerra com o Irã, para vir a Kiev", afirmou Zelensky, cujas declarações estavam sob embargo até sexta-feira, a um grupo de jornalistas que incluía a AFP. "É uma opção alternativa para uma reunião trilateral no nível dos grupos técnicos. O grupo americano pode vir até nós e, depois, ir a Moscou", acrescentou.
Olhar global voltado para o Oriente Médio
Os encontros dos últimos meses entre Estados Unidos, Ucrânia e Rússia não produziram resultados concretos para encerrar a guerra. "No ritmo em que as coisas vão, nossa próxima esperança está em 2028, durante a próxima eleição americana", comentou Serhiy Solodky, diretor do centro de estudos New Europe Center, em entrevista ao jornal Le Monde.
Zelensky ainda afirmou ter oferecido a ajuda de Kiev às monarquias do Golfo para desbloquear o estreito de Ormuz, que está parcialmente fechado e provocou uma crise energética mundial. Na linha de frente, que se estende por 1.200 km, Zelensky afirmou que a situação permanecia "complexa", acrescentando que ela nunca esteve "tão favorável para a Ucrânia nos últimos dez meses", baseando-se em dados dos serviços de inteligência ucranianos e britânicos.
O presidente declarou que o saldo entre territórios ocupados e libertados estava "ligeiramente positivo" para a Ucrânia, com um ganho de 20 km².
"A ofensiva que eles planejavam para março foi frustrada graças à ação de nossas Forças Armadas. É por essa razão que os russos vão intensificar os ataques", disse Zelensky, em declaração divulgada nesta sexta-feira por seu gabinete.
O Exército russo está reunindo tropas perto dos centros estratégicos de Pokrovsk, na região de Donetsk (leste), e Houliaípole, na região de Zaporíjia (sul), afirmou. "Neste momento, não vemos nenhuma ameaça em larga escala", concluiu o presidente ucraniano.
Com agências