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Seca histórica obriga França a afrouxar regras para produção de queijos tradicionais

A pior seca registrada na França em décadas está obrigando produtores de leite destinado a alguns dos queijos mais famosos do país a rever regras centenárias de produção. Com os pastos ressecados, está cada vez mais difícil cumprir as rígidas normas de produção associadas aos produtos de origem protegida, conhecidos na França pela sigla AOP (Apelação de Origem Protegida).

27 ago 2026 - 11h52
(atualizado às 12h17)
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Resumo
Devido a uma seca histórica que reduziu drasticamente as pastagens, o governo francês flexibilizou temporariamente as rígidas regras de denominação de origem protegida (AOP) para a produção de queijos tradicionais como Abondance, Beaufort e Comté. A medida excepcional permite que os produtores utilizem ração e feno externos para alimentar o gado, garantindo a sobrevivência dos rebanhos e a continuidade da produção diante dos impactos das mudanças climáticas na agricultura do país.

Para enfrentar a escassez de capim, o governo francês anunciou nesta quarta-feira (26) medidas temporárias que flexibilizam as exigências para a produção de Abondance, Beaufort e Comté. Os três são queijos duros produzidos com leite cru de vacas criadas nos Alpes e nas montanhas do Jura. 

Os produtores de Abondance poderão reduzir a parcela da alimentação baseada em capim de pastagem. Os de Beaufort terão mais liberdade para utilizar feno e capim que não seja produzido localmente. Já os produtores de Comté poderão adquirir parte do milho verde utilizado de fora de suas propriedades, até o fim de outubro. 

"É uma decisão bem-vinda e sensata, diante da situação alarmante provocada pela seca", afirmou Joel Vindret, presidente da SIFA, associação que reúne produtores de queijo do vale de Abondance, ao sul do Lago de Genebra. 

Em 10 de agosto, o crescimento das pastagens permanentes estava cerca de um terço abaixo da média registrada entre 1989 e 2018, segundo o serviço estatístico do Ministério da Agricultura. 

"O objetivo continua sendo alimentar os rebanhos nas melhores condições possíveis, apesar da forte redução da disponibilidade de capim e feno. Isso exige medidas excepcionais", declarou Vindret à RFI

Seca torna inviáveis as exigências da AOP 

A vasta variedade de queijos regionais franceses é motivo de orgulho nacional, e as autoridades adotam regras rigorosas para preservar os métodos tradicionais de produção e garantir a autenticidade dos produtos. Para obter o cobiçado selo AOP e utilizar um nome protegido, os produtores precisam seguir exigências detalhadas sobre a área de criação dos animais e sua alimentação. 

No caso do Abondance, a produção deve ocorrer exclusivamente nas montanhas da Alta Savoia, onde muitos rebanhos passam o verão em pastagens alpinas.  

"A dieta dos animais é baseada principalmente em capim de pastagem. Alimentos fermentados são proibidos, assim como organismos geneticamente modificados. O uso de complementos alimentares, como cereais, é limitado", explica Vindret. 

A seca deste verão, que afetou 95% da França continental em julho, tornou impossível cumprir integralmente essas exigências. 

"O regulamento da nossa AOP prevê que os rebanhos sejam alimentados principalmente com capim fresco no verão e com feno no inverno. Além disso, esse capim deve vir da área de denominação Abondance", explica. 

"Se seguíssemos essas regras neste verão e também no próximo inverno, não conseguiríamos alimentar nossos rebanhos adequadamente." 

Vacas se alimentam de pastagem ressecada pela onda de calor em Saint-Pierre-des-Ifs, na região da Normandia, no noroeste da França, em 18 de agosto de 2026.
Vacas se alimentam de pastagem ressecada pela onda de calor em Saint-Pierre-des-Ifs, na região da Normandia, no noroeste da França, em 18 de agosto de 2026.
Foto: RFI

Flexibilização temporária e excepcional 

O selo AOP garante ao consumidor normas de qualidade e de respeito aos métodos tradicionais de produção, e uma flexibilização das regras poderia levantar dúvidas sobre sua credibilidade. Vindret, no entanto, afirma não estar preocupado. 

"Essas medidas só devem ser adotadas em circunstâncias excepcionais. O selo AOP continua oferecendo muitas outras garantias, como a preservação dos saberes tradicionais e das raças locais de gado", argumenta. 

As medidas fazem parte de uma flexibilização mais ampla das regras de origem protegida diante dos efeitos da seca. O Instituto Nacional da Origem e da Qualidade (INAO), órgão responsável pela gestão e fiscalização das denominações de origem, informou que também concederá autorizações temporárias para a produção de outros queijos, entre eles Reblochon, Cantal, Bleu d'Auvergne e Fourme d'Ambert. 

Agricultura sob pressão 

Enquanto isso, agricultores franceses de outros setores também enfrentam dificuldades. Os produtores rurais se preparam para a menor safra de milho desde 1980, enquanto viticultores registram algumas das vindimas mais precoces já observadas no país. 

Segundo cientistas, as mudanças climáticas provocadas pela atividade humana agravaram a seca. Mais do que a falta de chuva, o calor extremo tem sido apontado como o principal fator responsável pelas condições de seca. 

Segundo Vindret, os produtores de Abondance já vêm adotando medidas para se adaptar às mudanças climáticas, como a melhoria da ventilação das instalações, a ampliação das áreas de sombra para os animais e uma gestão mais eficiente das pastagens. 

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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