Quase metade dos franceses já foi vítima de racismo, aponta pesquisa; negros, árabes e asiáticos estão entre os principais alvos
Quase metade dos franceses afirma já ter sido vítima de discriminação racial. Essa é a conclusão de uma pesquisa realizada pelo instituto Ifop em parceria com a Licra (Liga Internacional contra o Racismo e o Antissemitismo). Segundo o estudo, os principais alvos são pessoas percebidas como negras, árabes e do leste asiático, além de indivíduos de religião judaica e muçulmana. Diante dessas experiências, as vítimas costumam adotar estratégias para evitar situações de constrangimento.
Após um mês de coleta de dados, o Ifop e a Licra também destacam o racismo persistente que permeia todos os aspectos da sociedade francesa, incluindo suas instituições. Dos bairros às delegacias de polícia, a discriminação racial revelada pela pesquisa se manifesta de forma ampla.
"Quando você é informado de que precisará mudar seu filho de escola porque ele sofre discriminação, trata-se de uma mudança bastante radical. Não há trégua para as vítimas do racismo", explica Léo Major, pesquisador do Ifop.
A escola é a instituição que aparece com mais frequência entre os locais onde ocorre discriminação racial, de acordo com o levantamento. "Isso significa que o próprio berço dos nossos valores, daquilo que constrói nossa sociedade, está mergulhado nesses problemas. Ainda que não seja sistêmico, é certamente generalizado e afeta de forma recorrente as minorias", afirma o pesquisador.
Cerca de 60% dos entrevistados percebidos como negros, árabes ou de religião muçulmana relataram ter sofrido comportamentos racistas nos últimos cinco anos.
"Não estamos falando dos anos 1990 nem dos anos 2000. Isso obviamente já acontecia naquela época, mas também acontece hoje. E, a partir dos poucos indicadores que conseguimos reunir de outros estudos, percebemos que, na verdade, não houve redução."
Segundo a análise, o racismo na França é um fenômeno disseminado, e não excepcional. Para pessoas que não são católicas ou não são percebidas como brancas, a experiência pode fazer parte do cotidiano.
Estratégias para evitar a discrimimação
Mais de 52% das vítimas francesas de discriminação racista ou religiosa afirmam ter adotado alguma estratégia para evitar situações consideradas de risco. Mais de um terço disse evitar determinadas ruas ou regiões; 19% relataram deixar de "exibir uma aparência que pudesse revelar suas origens"; e outros 19% afirmaram ocultar deliberadamente suas origens na internet ou nas redes sociais.
Essas estratégias atingiram oito em cada dez judeus franceses, quase seis em cada dez muçulmanos e metade dos católicos, segundo a pesquisa, que também levou em conta a origem étnica "percebida" pelos outros.
Os dados mostram ainda que 61% dos entrevistados percebidos como "árabes" e 53% dos percebidos como "negros" adotaram comportamentos para evitar a discriminação. De acordo com o estudo, 22% das vítimas já consideraram deixar a França — percentual que chega a 55% entre judeus e 46% entre muçulmanos. O estudo foi realizado por telefone entre 8 de agosto e 2 de setembro de 2025, com uma amostra representativa de 14.025 pessoas com 15 anos ou mais na França.