Script = https://s1.trrsf.com/update-1779108912/fe/zaz-ui-t360/_js/transition.min.js
PUBLICIDADE

As Principais Notícias da Europa

Publicidade

Slopaganda: como a inteligência artificial reinventou a propaganda de guerra

Guerras não são disputadas apenas com armas. Elas também são travadas com imagens, narrativas e propaganda - uma estratégia antiga, que se reinventa a cada avanço tecnológico. Do uso de cartazes e animações no século 20 aos vídeos gerados por inteligência artificial no século 21, conflitos armados também se desenrolam no campo simbólico da imagem e da informação. Em 2026, essa lógica ganhou uma nova dimensão: o Irã passou a usar ferramentas de IA generativa como peça central de suas operações de influência política, tanto para consumo interno quanto para o público internacional.

30 mai 2026 - 12h07
Compartilhar
Exibir comentários

Maria Paula Carvalho, da RFI

Em meio a um confronto direto do Irã com Estados Unidos e Israel, disputas militares e tensões diplomáticas começaram a ser retratadas como desenhos animados, vídeos satíricos e cenas fictícias criadas com auxílio da tecnologia. A intenção é controlar a informação, confundir a população e projetar uma imagem de força que nem sempre corresponde à realidade no terreno.

As redes sociais estão cheias de vídeos inteiramente fabricados: ataques militares que nunca aconteceram, cidades inimigas em chamas, líderes ocidentais ridicularizados ou humilhados. Conteúdos pensados para gerar uma sensação de controle, poder e vitória militar, ainda que fictícia.

O avanço da tecnologia facilitou esse processo. Hoje, é possível criar cenários imaginários em poucos minutos. Líderes políticos, como o presidente norte-americano Donald Trump, são transformados em personagens de produções artificiais que rapidamente viram memes globais e circulam pelo mundo, muitas vezes republicados por canais oficiais.

A inteligência artificial também passou a ser usada para encenar futuros alternativos. Um vídeo viral, criado fora do governo americano, mas compartilhado por Donald Trump, transformava Gaza em um resort virtual. A Rússia recorre à mesma tecnologia para fabricar vídeos de rendições e derrotas do exército ucraniano que nunca ocorreram. Nessas produções, não há limites para a criatividade.

Estratégia não é nova

Apesar das novas ferramentas, a estratégia está longe de ser inédita. O uso da animação como propaganda política e militar já existia antes da Segunda Guerra Mundial, durante a Primeira Guerra e no período entre guerras. Foi, no entanto, durante a Segunda Guerra Mundial que esse tipo de produção passou a ser utilizado de forma massiva e estratégica por governos, especialmente nos Estados Unidos, na Alemanha nazista, no Japão e na antiga União Soviética.

A animação deixou de ser apenas entretenimento para se tornar uma arma poderosa da propaganda. Regimes autoritários, como o de Adolf Hitler, usaram desenhos animados para manipular emoções, mobilizar massas e fabricar inimigos. Do outro lado do conflito, os Estados Unidos chegaram a contratar estúdios como Walt Disney e Warner Bros. para produzir animações contra o nazismo, o fascismo e o militarismo japonês. No Japão imperial, longas-metragens animados glorificavam os exércitos. Durante a Guerra Fria, personagens ajudaram a difundir ideologias rivais.

Entre arquivos históricos e a nova estética algorítmica, a propaganda política continua se adaptando às linguagens da cultura de massa. Com a inteligência artificial, essas produções se tornaram mais baratas, mais rápidas e muito mais fáceis de espalhar.

Guerra como produto "consumível"

Especialistas apontam os vídeos fabricados pelo Irã como parte de uma guerra de narrativas, hoje travada principalmente no ambiente digital. Histórias leves, compartilháveis e aparentemente inofensivas, que suavizam a violência, infantilizam o inimigo e transformam os horrores do conflito em um produto consumível.

Para Matheus Soares, coordenador do Aláfia Lab, laboratório de pesquisa brasileiro dedicado a estudar a relação entre tecnologias digitais, comunicação, política e sociedade, esse tipo de estratégia reflete uma transformação mais profunda na lógica dos conflitos.

"Propagandas de Estados, especialmente em contextos de conflito, sempre existiram. Mas o que a gente vem percebendo nos últimos anos é que essas guerras estão sendo travadas não só nos territórios, mas principalmente nas redes sociais", afirma.

Segundo o pesquisador, governos tentam desmoralizar o inimigo e, ao mesmo tempo, confundir o debate público para conquistar apoio popular às suas causas. "Nesse contexto, a inteligência artificial surge como mais uma camada da comunicação política, facilitando a criação de vídeos e animações que têm o objetivo de viralizar e engajar nas redes", explica.

Esses conteúdos passaram a ser chamados de "slopaganda", em referência ao termo AI slop, usado para definir vídeos gerados por inteligência artificial que são engraçados, toscos ou sem muito sentido, mas com alto poder de circulação.

"É por meio do engajamento desses vídeos fofos, engraçados e aparentemente inofensivos que governos conseguem driblar as políticas de moderação das plataformas e distribuir suas narrativas não só para seus próprios cidadãos, mas para pessoas ao redor do mundo", diz Soares.

Sem compromisso com a realidade, essas produções apostam no impacto emocional. "Esses vídeos têm o objetivo de engajar, de tocar o emocional das pessoas, fazendo com que sintam raiva ou ódio do inimigo, mas também orgulho pela causa e pelo lado que escolheram no conflito", conclui.

Nesse cenário, a credibilidade passa a valer menos do que um clique. A ausência de verdade corre o risco de parecer apenas uma brincadeira.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
Compartilhar

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.

Publicidade

Conheça nossos produtos

Seu Terra