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Perfis falsos impulsionam campanha por travessia para Ceuta

Uma investigação exclusiva da Rádio França Internacional (RFI) identificou indícios de uma campanha coordenada de desinformação nas redes sociais para promover uma nova tentativa de travessia ilegal da fronteira entre Marrocos e o enclave espanhol de Ceuta, marcada para este sábado, 15 de agosto.

14 ago 2026 - 10h37
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Grégory Genevrier e Sophiane Amazian, da RFI em Paris

Os rumores começaram a circular enquanto Ceuta ainda tentava se recuperar da grave crise migratória dos dias 30 e 31 de julho. Em apenas 48 horas, mais de 70 mil pessoas, a maioria jovens marroquinos, chegaram ao enclave espanhol de Ceuta, na costa do Mediterrâneo. Segundo ONGs marroquinas, ao menos 141 pessoas morreram durante as tentativas de alcançar o território.

Nas últimas semanas, publicações no Instagram e no Facebook passaram a difundir mensagens sugerindo uma possível abertura da fronteira ou condições favoráveis para entrada na Espanha. As informações foram desmentidas pelas autoridades. Em uma mensagem divulgada nas redes sociais, a Guarda Civil espanhola afirmou que a fronteira permanece fechada, que novas barreiras de segurança foram instaladas e que quem tentar atravessá-la será devolvido.

Contas recentes

Ao analisar a origem e a circulação dessas mensagens, a RFI identificou cerca de dez perfis considerados suspeitos. A maioria deles foram criados recentemente, alguns em julho e até mesmo em agosto deste ano. As contas têm poucos seguidores, seguem poucas pessoas, utilizam nomes e imagens genéricas e, em alguns casos, mudaram de nome de usuário diversas vezes. As publicações são quase inteiramente dedicadas à convocação para uma travessia em massa no dia 15 de agosto.

Apesar do alcance reduzido desses perfis, alguns dos vídeos publicados acumularam milhões de visualizações. A discrepância levanta suspeitas de compra de visualizações para inflar artificialmente a popularidade do movimento e criar a impressão de uma mobilização muito maior do que a existente na realidade. Embora os indícios apontem para uma ação coordenada, a investigação não conseguiu determinar quem está por trás da operação, nem se ela foi conduzida por um único grupo ou por diferentes atores.

Imagens manipuladas alimentam ilusão

Outro elemento que chama a atenção é o uso de conteúdos sem qualquer relação com imigração para atrair novos candidatos. Algumas publicações sobre a travessia continham legendas em japonês que faziam referência ao evento de moda Vogue World 2025, realizado em outubro do ano passado. Os textos mencionavam celebridades internacionais, como a banda sul-coreana BTS e a rapper americana Doja Cat, mas não tinham nenhuma ligação com Marrocos, Espanha ou Ceuta.

Segundo a RFI, essas legendas foram copiadas de uma publicação da conta oficial da revista Vogue no Instagram. A postagem original, escrita em inglês, havia alcançado mais de 11 milhões de visualizações e 766 mil curtidas. As contas que promoviam a travessia reproduziram, copiaram e até traduziram o texto, numa aparente tentativa de aproveitar o sucesso do conteúdo para obter maior destaque nos sistemas de recomendação das plataformas. O episódio representa um exemplo concreto de manipulação dos algoritmos das redes sociais para ampliar artificialmente o alcance das mensagens.

Especialistas ouvidos pela RFI afirmam que o movimento apresenta características de "astroturfing", prática que consiste em fabricar a aparência de uma mobilização popular espontânea por meio de campanhas coordenadas e amplificação artificial de conteúdo. Um dos elementos apontados pela investigação é o uso recorrente de hashtags como "haraga" e "espanha".

Hashtags como isca

O sociólogo Mehdi Alioua, professor da Universidade Internacional de Rabat, explica que o termo "haraga" tem um significado particular no contexto migratório do Norte da África. A palavra é usada para designar migrantes que tentam atravessar fronteiras irregularmente e deriva da prática de destruir documentos de identidade para evitar identificação e deportação. Para o pesquisador, a repetição sistemática dessa linguagem nas redes sociais não parece ser acidental e ajuda a construir uma narrativa de desafio às fronteiras e de busca por uma vida melhor na Europa.

Esta mensagem em japonês com a menção do termo "haragaa" aparece na legenda de vários vídeos que citam a nova travessia de 15 de agosto.
Esta mensagem em japonês com a menção do termo "haragaa" aparece na legenda de vários vídeos que citam a nova travessia de 15 de agosto.
Foto: RFI

Embora a campanha tenha acumulado dezenas de milhões de visualizações nas plataformas digitais, a reportagem encontrou sinais de uma distância significativa entre a repercussão virtual e a mobilização real. A RFI se infiltrou em grupos privados de WhatsApp ligados ao movimento e constatou que o maior deles reunia cerca de 800 participantes, número muito inferior ao alcance registrado nas redes abertas.

Nos grupos, circulavam informações falsas sobre a possibilidade de travessia em 15 de agosto. Também eram frequentes as mensagens de participantes em busca de contatos próximos à fronteira que pudessem fornecer informações ou facilitar a passagem para Ceuta. Aproveitando esse interesse, um influenciador marroquino com mais de 100 mil seguidores passou a divulgar vídeos prometendo viagens gratuitas de ônibus rumo à Espanha, uma oferta considerada irreal.

Apesar da intensa atividade online, muitos integrantes desses grupos afirmaram aos jornalistas da RFI que haviam aderido apenas por curiosidade. Vários disseram não ter qualquer intenção de tentar cruzar a fronteira e garantiram que permaneceriam em casa no sábado.

Um jovem influenciador marroquino, provavelmente menor de idade, propõe a seus seguidores transporte de ônibus para atravessar a fronteira do Marrocos com o enclave espanhol de Ceuta.
Um jovem influenciador marroquino, provavelmente menor de idade, propõe a seus seguidores transporte de ônibus para atravessar a fronteira do Marrocos com o enclave espanhol de Ceuta.
Foto: RFI

Geração de jovens sem futuro no Marrocos

Para os especialistas, as redes sociais funcionam como aceleradoras de um fenômeno que já existe. A falta de perspectivas econômicas para parte da juventude marroquina, somada à percepção de que a Europa continua oferecendo oportunidades de trabalho e melhores condições de vida, ajuda a explicar por que mensagens desse tipo encontram receptividade.

Mesmo assim, a disseminação dos rumores teve consequências concretas. Autoridades marroquinas e espanholas reforçaram o efetivo policial e militar na região e Rabat informou ter identificado mensagens anônimas incentivando tentativas de travessia coletiva para Ceuta e Melilla. Segundo as autoridades marroquinas, pessoas ligadas à disseminação desses conteúdos chegaram a ser detidas.

Para os pesquisadores ouvidos pela RFI, o reforço da segurança torna pouco provável a repetição, em tão curto prazo, da crise migratória observada no fim de julho. Ainda assim, eles acreditam que campanhas semelhantes continuarão surgindo no futuro, alimentadas pela combinação de redes sociais, desinformação e pelo desejo de milhares de jovens de buscar uma vida melhor do outro lado da fronteira.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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