Script = https://s1.trrsf.com/update-1786557910/fe/zaz-ui-t360/_js/transition.min.js
PUBLICIDADE

As Principais Notícias da Europa

Publicidade

Maior exposição de grafite e arte urbana do mundo apresenta em Paris 50 anos de contracultura

Nascido nos vagões do metrô nova-iorquino e durante décadas associado à ilegalidade, o grafite ocupa hoje museus, galerias e grandes exposições internacionais sem abandonar o debate sobre suas origens. Em cartaz até 23 de agosto na Grande Halle de La Villette, em Paris, Beyond the Streets reúne mais de cem artistas e cinco décadas de produção para mostrar como uma prática marginal transformou a arte contemporânea, influenciou a música, a moda, o design e a cultura visual em escala global.

14 ago 2026 - 11h02
Compartilhar
Exibir comentários

Márcia Bechara, da RFI em Paris

De um lado, vagões de metrô cobertos por assinaturas feitas às pressas durante a madrugada. De outro, instalações monumentais, obras preservadas em coleções e artistas expostos em instituições culturais de prestígio. Poucas formas de expressão percorreram um caminho tão improvável quanto o grafite. É justamente essa transformação que a exposição Beyond the Streets propõe investigar na Grande Halle de La Villette, onde mais de cem artistas ocupam 3.600 metros quadrados com obras, fotografias, documentos raros, esculturas e ambientes imersivos dedicados à história das culturas urbanas.

Apresentada anteriormente em Los Angeles, Nova York, Londres e Xangai, a mostra chega pela primeira vez à capital francesa sob a curadoria de Roger Gastman, um dos principais historiadores do grafite nos Estados Unidos. A edição parisiense foi concebida como uma homenagem à relação singular da cidade com a arte urbana, sem perder de vista a ambição de traçar uma narrativa internacional desse movimento que atravessou fronteiras e influenciou diferentes campos da produção cultural.

Para Gastman, Paris nunca foi apenas mais uma parada na circulação internacional da exposição."Queríamos vir para Paris desde a primeira edição da mostra, em Los Angeles. É uma cidade central para a história da arte urbana e para a história da arte na Europa de forma geral."

O curador afirma que a presença da mostra na França faz parte de um projeto antigo. Segundo ele, apenas faltavam o local e as condições adequadas para concretizar a edição parisiense.

"Paris não é uma reflexão posterior. Paris é uma cidade importante e continua sendo uma cidade importante. Estamos felizes em vir para cá e contar muitas histórias de Paris misturadas às histórias globais que Beyond the Streets se tornou conhecida por apresentar."

Cosmic Cavern (2023): Instalação imersiva criada pelo artista norte-americano Kenny Scharf, conhecida por suas formas orgânicas, cores vibrantes e personagens inspirados na cultura pop e na ficção científica. A obra transforma o espaço expositivo em um ambiente lúdico e psicodélico, característico do universo visual desenvolvido por Scharf ao longo de sua trajetória artística.
Cosmic Cavern (2023): Instalação imersiva criada pelo artista norte-americano Kenny Scharf, conhecida por suas formas orgânicas, cores vibrantes e personagens inspirados na cultura pop e na ficção científica. A obra transforma o espaço expositivo em um ambiente lúdico e psicodélico, característico do universo visual desenvolvido por Scharf ao longo de sua trajetória artística.
Foto: RFI

A exposição procura demonstrar que a história da intervenção urbana na França antecede em muito o surgimento do grafite contemporâneo associado aos metrôs de Nova York. Ao comentar a cena francesa, Gastman recorda o trabalho do fotógrafo Brassaï, que documentou inscrições anônimas encontradas nos muros de Paris entre as décadas de 1930 e 1940. As imagens realizadas pelo artista franco-húngaro deram origem, em 1956, a uma exposição no Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA), frequentemente apontada como uma das primeiras iniciativas institucionais a olhar para o grafite como objeto de interesse artístico.

"A cena francesa do grafite e da arte urbana é muito ativa, e sempre foi", afirma. Para ele, a própria paisagem subterrânea da cidade ajuda a compreender essa continuidade histórica.

"As catacumbas têm uma história extremamente rica de inscrições nas paredes. São um marco da cidade e uma espécie de cápsula do tempo dos artistas em geral, não apenas do grafite e da arte urbana. Dos cartazes dos protestos ao grafite tradicional, tudo isso está aqui. Em Paris, não é preciso procurar muito. Essas histórias estão aqui e continuam aqui para ser celebradas", reflete.

A edição da exposição apresentada em La Villette incorpora esse contexto local. Além de destacar artistas franceses contemporâneos, o percurso estabelece conexões entre a tradição urbana parisiense, a cultura hip-hop e os desdobramentos internacionais do grafite ao longo dos últimos 50 anos.

Vandalismo?

Apesar da crescente presença do grafite em museus e galerias, a discussão sobre a natureza dessa prática continua aberta. A tensão entre reconhecimento institucional e transgressão permanece no centro do debate.

Gastman não procura suavizar essa contradição. Ao contrário de parte do discurso que busca separar o grafite de suas origens, o curador insiste que a dimensão ilegal constitui um elemento fundamental da cultura que a exposição aborda.

"O grafite, em sua definição verdadeira, sempre será ilegal e sempre irritará algumas pessoas. O grafite, em sua essência, é vandalismo. E o que mostramos em Beyond the Streets certamente celebra o vandalismo."

A afirmação pode soar provocadora em uma grande instituição cultural, mas ajuda a entender a lógica da mostra. Em vez de reproduzir a experiência da rua dentro do museu, o projeto procura evidenciar os caminhos percorridos por artistas que partiram da ocupação ilegal do espaço urbano e desenvolveram trajetórias reconhecidas no circuito artístico.

"A primeira palavra do título é 'beyond'. Estamos mostrando como muitos desses artistas pegaram a energia e o aprendizado adquiridos nas ruas para se tornarem grandes artistas." Segundo ele, a pergunta sobre a legitimidade do grafite continua sendo formulada, mas a própria evolução do movimento oferece uma resposta. "As pessoas ainda perguntam por que isso está em um museu. O tempo continua respondendo a essa pergunta. E o tempo está mostrando que isso funciona e que isso é real."

Solo Futura 2000 Renault: Fotografia de Sophie Bramly registra o artista norte-americano Futura 2000 ao lado de um automóvel Renault. A imagem remete ao universo do grafite e da arte urbana que marcou a trajetória do artista, um dos nomes mais influentes da cena nova-iorquina surgida nas ruas e no metrô da cidade nas décadas de 1970 e 1980.
Solo Futura 2000 Renault: Fotografia de Sophie Bramly registra o artista norte-americano Futura 2000 ao lado de um automóvel Renault. A imagem remete ao universo do grafite e da arte urbana que marcou a trajetória do artista, um dos nomes mais influentes da cena nova-iorquina surgida nas ruas e no metrô da cidade nas décadas de 1970 e 1980.
Foto: RFI

Mais do que uma exposição sobre grafite

A ambição de Beyond the Streets é mais ampla do que a de apresentar obras em paredes. O percurso procura reconstruir um ecossistema cultural que engloba música, fotografia, design, moda, skate, ativismo político e cultura hip-hop.

Entre os participantes estão pioneiros do grafite nova-iorquino, nomes decisivos para a documentação do movimento e artistas que posteriormente alcançaram projeção internacional. O conjunto reúne figuras como TAKI 183, FUTURA 2000, Lady Pink, Crash, Zephyr, Martha Cooper, Henry Chalfant, Keith Haring, JR, Invader, JonOne, Shepard Fairey, André Saraiva, Vhils e Damien Hirst.

A mostra também incorpora personagens ligados a outros territórios da cultura urbana, caso dos Beastie Boys, Fab 5 Freddy, Maripol e Jean-Charles de Castelbajac, reforçando a ideia de que o grafite exerceu influência muito além dos muros das cidades.

Ao destacar alguns dos núcleos da edição parisiense, Gastman menciona uma grande instalação dedicada aos Beastie Boys, construída a partir de letras manuscritas e instrumentos da banda, uma intervenção de grande formato assinada por Shepard Fairey, uma loja de discos integrada ao percurso, ambientes imersivos, um panorama da cultura hip-hop francesa e obras criadas especialmente para a etapa parisiense. "É uma exposição diferente de qualquer coisa que as pessoas já experimentaram." Mas é a reação do público que mais chama a atenção do curador. "Uma das minhas coisas favoritas é o público que está vindo à exposição. É um público muito diverso. Muitas famílias, muitas gerações diferentes."

Segundo ele, a recepção demonstra que o grafite deixou de interessar apenas aos iniciados. "As pessoas não saem daqui me dizendo: obrigado, foi uma grande exposição de grafite. Elas dizem: obrigado, foi uma fantástica exposição sobre cultura", sublinha Gastman. 

Fotografia de Henry Chalfant mostra o artista francês Bando diante de uma obra de Mode 2, um dos principais nomes da arte urbana europeia. A imagem documenta o intercâmbio entre artistas que ajudaram a difundir a cultura do grafite para além de Nova York, consolidando sua presença na cena artística internacional.
Fotografia de Henry Chalfant mostra o artista francês Bando diante de uma obra de Mode 2, um dos principais nomes da arte urbana europeia. A imagem documenta o intercâmbio entre artistas que ajudaram a difundir a cultura do grafite para além de Nova York, consolidando sua presença na cena artística internacional.
Foto: RFI

Grafite, pichação e street art brasileira

Questionado sobre a cena brasileira, Gastman aponta que o Brasil desenvolveu uma linguagem própria dentro da história global do grafite, distante de simples reproduções dos modelos surgidos nos Estados Unidos ou na Europa.

"A história da streetart no Brasil é diferente de qualquer cidade ou país que eu já tenha explorado ou estudado. É um estilo completamente original", diz o curador.

A análise inclui tanto o universo da pixação quanto a produção muralista que ajudou a projetar internacionalmente artistas brasileiros nas últimas décadas. E embora reconheça a crescente notoriedade internacional dessa produção, o curador avalia que boa parte dessa história ainda carece de documentação adequada. "Ela ainda é muito nova, muito pouco documentada. É uma história extremamente rica e importante, que espero continuar vendo ser contada."

Fã de longa data d'Os Gêmeos, com quem colaborou em projetos anteriores, Gastman revela que a participação de artistas brasileiros chegou a ser considerada para a edição parisiense. A ideia acabou esbarrando em limitações práticas.

Segundo ele, a montagem da mostra foi realizada em apenas três meses e meio, prazo considerado excepcionalmente curto para um projeto da dimensão de Beyond the Streets. E as dificuldades logísticas para o transporte internacional de obras influenciaram a decisão. "Analisamos incluir alguns artistas brasileiros, mas o cronograma não funcionou. E a questão do transporte tornava isso pouco realista."

Apesar disso, ele afirma que uma futura edição da mostra em território brasileiro não está descartada. "Nós conversamos sobre isso. Já estudamos essa possibilidade."

Por enquanto, a etapa parisiense oferece até o dia 23 de agosto um retrato abrangente de uma cultura que nasceu à margem das instituições e hoje ocupa uma posição central no imaginário visual contemporâneo, procurando mostrar como essa linguagem alterou a maneira de olhar para a cidade e, aos poucos, redefiniu o próprio conceito de arte pública.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
Compartilhar

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.

Publicidade
Meu Terra