'Não suponham sempre o pior dos franceses': Macron ironiza pesquisas favoráveis a Le Pen em 2027
O presidente francês, Emmanuel Macron, afirmou nesta sexta-feira (17) que as pesquisas que apontam Marine Le Pen como favorita para a eleição presidencial de 2027 devem ser encaradas com cautela. Em encontro com o chanceler alemão Friedrich Merz, perto de Colônia, ele lembrou que sua própria vitória em 2017 contrariou previsões feitas meses antes da votação. A declaração ocorre em meio a debates sobre defesa europeia e após Elon Musk declarar apoio público à líder da sigla francesa de extrema direita Reunião Nacional.
Emmanuel Macron rejeitou as projeções que apresentam Marine Le Pen como favorita incontestável para a eleição presidencial de 2027 na França e pediu cautela diante das pesquisas de opinião que apontam vantagem da líder do Reunião Nacional (RN).
Falando ao lado do chanceler alemão Friedrich Merz, em Brühl, perto de Colônia, no oeste da Alemanha, Macron recorreu à própria trajetória política para relativizar o peso dos levantamentos eleitorais e advertiu contra conclusões antecipadas sobre o resultado da próxima disputa presidencial francesa.
"Mantenham certa desconfiança em relação às pesquisas", afirmou.
Sem citar diretamente Le Pen, o presidente lembrou que muitos observadores consideravam o cenário praticamente definido em meados de 2016, poucos meses após o referendo que levou o Reino Unido a deixar a União Europeia e num momento em que sua candidatura ainda era tratada com ceticismo por parte da classe política francesa.
"Se me permitem, conheci muitas pessoas que já estavam eleitas em julho de 2016. Não eram necessariamente as mesmas que encontramos em maio de 2017", disse.
A observação remete à eleição que o levou ao Palácio do Eliseu. Naquele momento, Macron era um ex-ministro sem um partido tradicional por trás de sua candidatura e aparecia atrás de nomes mais consolidados da direita e da esquerda. Menos de um ano depois, porém, venceu o segundo turno contra a própria Marine Le Pen e se tornou o presidente mais jovem da história da França.
Macron aproveitou a ocasião para defender uma visão mais otimista sobre o comportamento do eleitorado.
"Confiem no povo francês. Não presumam sempre o pior. Deixem que ele escolha o melhor", declarou.
A intervenção não ocorreu por acaso. A menos de um ano do fim de seu segundo mandato, o presidente vê crescer as especulações sobre sua sucessão enquanto pesquisas recentes colocam Le Pen em posição favorável para disputar o comando da segunda maior economia da União Europeia.
Europa acompanha sucessão francesa com apreensão
O tema eleitoral surgiu durante uma visita destinada principalmente a discutir questões de defesa, área em que França e Alemanha tentam acelerar projetos conjuntos diante do agravamento das tensões geopolíticas no continente.
Ao lado de Merz, Macron demonstrou sintonia com Berlim sobre a necessidade de ampliar a capacidade de defesa europeia num contexto marcado pela guerra na Ucrânia, pela ameaça representada pela Rússia e pelas pressões do presidente norte-americano Donald Trump para que os aliados europeus assumam uma parcela maior dos custos militares da Otan.
Os dois dirigentes defenderam o aprofundamento da cooperação estratégica franco-alemã e destacaram iniciativas em curso voltadas ao fortalecimento da capacidade de dissuasão europeia.
A urgência atribuída ao tema reflete também as incertezas provocadas pela disputa presidencial francesa. Para diversas capitais do continente, uma eventual vitória da direita nacionalista poderia alterar o equilíbrio político dentro da União Europeia justamente num momento em que o bloco enfrenta alguns dos maiores desafios de segurança desde o fim da Guerra Fria.
Questionado sobre a possibilidade de trabalhar com uma futura presidente Marine Le Pen, Merz procurou evitar qualquer sinal de preocupação.
"A Alemanha sempre estenderá a mão a uma cooperação aprofundada e baseada na confiança com a França, qualquer que seja a decisão dos eleitores dos nossos dois países", afirmou.
Apoio de Musk amplia debate sobre a eleição
A discussão em torno da sucessão francesa ganhou um componente internacional adicional na quarta-feira (15), quando Elon Musk declarou apoio explícito à candidatura de Le Pen.
Em publicação no X, plataforma da qual é proprietário, o empresário norte-americano afirmou que a líder da sigla de extrema direita Reunião Nacional representa "a última esperança da França" e compartilhou mensagens celebrando sua ascensão nas pesquisas de intenção de voto.
A declaração provocou reações imediatas em Paris. O ministro das Relações Exteriores da França, Jean-Noël Barrot, respondeu diretamente ao bilionário.
"Como dizemos em francês: apenas os tolos não mudam de ideia", escreveu.
Embora Musk já tivesse manifestado simpatia por Le Pen, especialmente durante os processos judiciais enfrentados pela dirigente da direita nacionalista, nunca havia endossado de forma tão clara sua candidatura ao Palácio do Eliseu.
Em abril de 2025, após a condenação de Le Pen por desvio de recursos públicos, o empresário declarou esperar que ela pudesse concorrer à eleição seguinte, apesar da pena de inelegibilidade imposta na ocasião.
A situação mudou na semana passada, quando um tribunal de apelação reduziu a sanção para 15 meses, permitindo que a líder do RN permanecesse apta a disputar a presidência. Pouco depois da decisão, ela confirmou oficialmente sua candidatura.
A nova manifestação de Musk alimentou acusações de interferência estrangeira no debate político francês. O deputado Antoine Léaument, do partido de esquerda radical França Insubmissa (LFI), acusou o empresário de tentar influenciar a eleição e pediu que a Autoridade Reguladora da Comunicação Audiovisual e Digital (Arcom) examinasse o caso.
Mais do que uma controvérsia nas redes sociais, o episódio ilustra o peso crescente atribuído à eleição francesa de 2027. Num momento em que a segurança europeia ocupa lugar central na agenda do continente, a disputa é observada com atenção muito além das fronteiras da França.
Com AFP
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