Macron sinaliza saída da política, organiza legado e não resiste a deixar portas abertas no futuro
Ao dizer que "não fez política antes e não fará depois", Emmanuel Macron não apenas ensaia uma despedida: ele tenta controlar a narrativa do "fim". Em meio ao início informal da campanha presidencial francesa, o chefe de Estado escolhe o tempo e o tom para falar de herança, limites e frustrações, enquanto seus aliados disputam espaço sob o peso de uma impopularidade recorde e a extrema direita avança perigosamente nas pesquisas na França.
"Eu não fiz política antes e não vou fazer depois." Em uma frase curta, Emmanuel Macron reconheceu sua próxima saída do jogo político, no momento em que começa a se estruturar a campanha para a eleição presidencial, sem descartar, contudo, a possibilidade de um retorno mais adiante.
A campanha "já começou", com (o candidato da sigla Reunião Nacional, de extrema direita) Jordan Bardella expondo sua vida privada na revista Paris Match e Gabriel Attal também se revelando em um livro, observa à AFP Philippe Moreau-Chevrolet, professor de comunicação da Sciences Po.
"É o momento certo para o presidente, que, de qualquer forma, não vai mais controlar muita coisa, anunciar e preparar sua saída. Ele precisa de um relato alternativo, deixando as especulações sobre o depois correrem soltas."
Emmanuel Macron fez essa confidência durante uma conversa com estudantes do ensino médio, na quinta-feira, no Chipre. No mesmo momento, disse que o "mais difícil", depois de nove anos no poder, foi defender seu balanço sabendo reconhecer aquilo que não conseguiu "fazer bem".
Há várias semanas, o chefe do Estado vem se dedicando a tecer seu legado enquanto, em seu próprio campo político, os pretendentes à sucessão tentam se diferenciar diante de sua taxa de rejeição recorde.
Ele também aposta que, fora do campo político, poderá recuperar o vínculo com os franceses — e a popularidade associada a isso — como ocorreu com (o ex-presidente, de direita) Jacques Chirac em seu tempo.
Virada em Davos
"Em algum momento, vai haver uma mudança de olhar, porque ele não será mais um personagem político. Algumas linhas de força e de coerência vão sobressair", acredita um de seus interlocutores próximos.
Até lá, "é preciso que as últimas pinceladas desta década que se encerra revelem o conjunto", acrescenta, ao detalhar os "fios condutores" dos dois mandatos de cinco anos: "a independência industrial e europeia, diante das crises".
No plano internacional, Emmanuel Macron continua a marcar posição frente a Donald Trump, seja diante de suas ambições sobre a Groenlândia, seja em relação à condução imprevisível da guerra contra o Irã.
Se até pouco tempo exaltava a relação privilegiada entre ambos, o ocupante do Palácio do Eliseu agora não perde uma oportunidade de apontar o dedo para o presidente americano, que começa a se tornar um fator de rejeição inclusive entre aliados europeus.
"Não falei com ele nas últimas horas porque considerei que (…) não havia necessidade", declarou sem rodeios durante uma viagem à Polônia, na segunda-feira.
Para Philippe Moreau-Chevrolet, Emmanuel Macron "encontrou seu verdadeiro papel no cenário internacional". O Fórum de Davos, em janeiro, "cristalizou isso", com "sua defesa das democracias europeias".
Ainda assim, foi sobretudo a imagem do presidente usando óculos escuros ao estilo Tom Cruise — por razões médicas — e repetindo "for sure" ao longo de sua intervenção, que marcou a audiência, virou um meme que viralizou na França e tomou conta das redes sociais.
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#Macron2032
Nada está definido para o que vem depois. "Não fazer política não significa se retirar completamente", pondera Philippe Moreau-Chevrolet. "Ele falava de política no sentido partidário do termo", reforça um aliado.
Alguns já o imaginam à frente do Fundo Monetário Internacional (FMI) ou da Comissão Europeia, dadas suas afinidades com esses temas.
"Depois de 2027, ele vai montar uma empresa própria. E vamos ver florescer o #Macron2032", avalia um dirigente de seu campo político, em referência à próxima eleição presidencial na qual ele poderia voltar a concorrer.
Enquanto isso, "ele não se desconecta dos assuntos que o mobilizam: a reindustrialização do país, a inteligência artificial, a indústria de defesa, o cenário internacional. Todo o resto ele deixa para o primeiro-ministro e não se incomoda", resume uma ministra.
Ele também deve deixar o caminho livre para o candidato de seu campo, desde que seu legado seja respeitado. "Isso tudo significa: atenção, existe o meu legado e vocês vão carregá-lo", acrescenta.
"Ele não pode, em hipótese alguma, dar a impressão de querer ser um candidato por procuração, de agir por ressentimento", alerta outro aliado.
Isso não o impede, porém, de continuar existindo politicamente, sobretudo diante do Reunião Nacional, de extrema direita, favorito nas pesquisas.
Com AFP
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