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Livro Minha Luta, de Hitler, completa 100 anos; obra antecipou horrores do nazismo

Em 18 de julho de 1925, há exatamente 100 anos, era lançado o livro Minha Luta, de Adolf Hitler. A obra, uma mescla de biografia e panfleto antissemita, não chamou muita atenção no princípio, mas acabou se tornando um bestseller após a ascensão dos nazistas ao poder.

18 jul 2025 - 06h59
(atualizado às 07h26)
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Em 18 de julho de 1925, há exatamente 100 anos, era lançado o livro Minha Luta, de Adolf Hitler. A obra, uma mescla de biografia e panfleto antissemita, não chamou muita atenção no princípio, mas acabou se tornando um bestseller após a ascensão dos nazistas ao poder.

Em 2016, pela primeira vez desde o fim do nazismo, uma edição comentada de Minha Luta ("Mein Kampf", em alemão) foi publicada na Alemanha. (08/01/2016)
Em 2016, pela primeira vez desde o fim do nazismo, uma edição comentada de Minha Luta ("Mein Kampf", em alemão) foi publicada na Alemanha. (08/01/2016)
Foto: AP - Matthias Schrader / RFI

Marcio Damasceno, correspondente da RFI em Berlim

Hitler escreveu o primeiro volume de seu livro em 1924, durante os nove meses em que esteve encarcerado em uma prisão no estado alemão da Baviera por causa de uma tentativa fracassada de golpe - o chamado Putsch de Munique, também conhecido como Putsch da cervejaria. Em dezembro de 1926, foi lançada a segunda parte da obra, e os dois volumes foram anos depois reunidos em um só livro.

Durante muito tempo, se dizia que Hitler havia ditado o livro para Rudolf Hess, seu vice após a tomada do poder, mas estudos mais recentes sugerem que ele o escreveu diretamente, em uma máquina de escrever portátil dada a ele por uma admiradora e usando folhas de papel que foram levadas a ele na prisão por Winifred Wagner, nora do compositor Richard Wagner.

As quase 800 páginas do livro são consideradas de leitura difícil e pouco agradável, um verdadeiro "desafio para o leitor". A primeira parte da obra traz uma biografia altamente "embelezada" de Hitler, além da história inicial do seu partido, o Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães (NSDAP).

"Lebensraum" no leste

O segundo volume é um panfleto antissemita de um autor fanático, que expõe seu programa político e a base ideológica do nazismo. Hitler prega que os alemães, os "arianos", estão destinados a se tornar a raça dominante, e que somente os fortes têm direito à vida. Ele também afirma que a Alemanha tem que conquistar um novo "espaço vital" no leste da Europa, o chamado "lebensraum", defende a segregação de deficientes, além de culpar os judeus por tudo de ruim que acontece no mundo e aos alemães.

Especialistas ressaltam que tudo o que o ditador nazista faria mais tarde, inclusive o terror do Holocausto, está anunciado nas linhas de Minha Luta. O respeitado historiador alemão Eberhard Jäckel escreveu, em 1981, que "raramente ou talvez nunca na história um governante, antes de chegar ao poder, delineou por escrito o que faria depois de forma tão precisa quanto Adolf Hitler".

Bestseller

Em janeiro de 1933, tinham sido vendidas 287 mil cópias de Minha Luta, o que não fazia dele um fenômeno editorial, mas também não era pouco. Hitler conseguiu marcar pontos com o panfleto principalmente em sua própria bolha, entre pessoas que já eram ligadas à ideologia nazista.

O ministro da Propaganda do regime, Joseph Goebbels, disse ter lido o primeiro volume com "empolgação". Já Heinrich Himmler, dirigente das forças militares, chegou à conclusão de que ele continha "uma quantidade incrível de verdades". Só a partir de 1930, os números de vendas aumentaram visivelmente, acompanhando a ascensão de Hitler e de seu movimento nazista.

A partir de então, com a tomada do poder pelos nazistas, as vendas dispararam e, até o final da Segunda Guerra Mundial, cerca de 12 milhões de exemplares haviam sido comercializados. Até 1945, o livro havia sido traduzido para ao menos 17 idiomas.

Livro nunca foi proibido na Alemanha

A obra de Hitler nunca foi formalmente proibida na Alemanha. O que ocorreu foi que, depois da Segunda Guerra, os direitos sobre o livro foram para o estado da Baviera (sul), onde o ditador teve sua última residência registrada. Nas décadas seguintes, o governo bávaro impediu reedições do texto.

No início de 2016, os direitos de publicação caíram em domínio público, fazendo com que a obra pudesse, em tese, ser livremente publicada. Mas as autoridades alemãs alertam que a publicação e comercialização sem o acompanhamento de comentários que tragam uma contextualização do conteúdo pode ser considerada crime de incitação ao ódio.

Já vender ou possuir cópias antigas não é passível de punição. É possível achar edições antigas em sebos alemães ou sites de antiguidades. Em portais online, os preços de edições de antes de 1945 chegam a custar centenas de euros.

Ligação com a extrema direita

O livro continua a ser atual enquanto um sinal de alerta, em uma época em que a extrema direita floresce em vários países, como na Alemanha, onde o partido AfD se firmou nas urnas como segunda força política do Parlamento alemão. Mas a extrema direita de hoje propaga suas ideias, e com sucesso, não mais em livros, mas em postagens na internet e com vídeos no TikTok. É assim que a AfD tem conseguido atrair votos dos jovens eleitores.

Foi numa live com o bilionário Elon Musk que a líder da AfD Alice Weidel fez questão de deixar claro o quanto a ideologia de seu partido é, segundo ela, distante da cartilha nazista de Adolf Hitler. No bate-papo, ela chegou a dizer que Hitler era comunista, contrariando todas as evidências reconhecidas internacionalmente.

Em uma entrevista à televisão, Weidel afirmou que Hitler era um esquerdista "com os mesmos métodos da esquerda atual", e completou: "Rotular Hitler como de direita e conservador foi o maior erro da história". Conforme a líder, "o verdadeiro antissemitismo se encontra na esquerda". 

O discurso tem sido denunciado por historiadores, como uma distorção da história para atender aos objetivos políticos da AfD.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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