Leão XIV chega à França em busca de novos fiéis e de recuperar a confiança na Igreja
O papa Leão XIV visita a França entre os dias 24 e 28 de setembro, na primeira visita oficial do líder da Igreja Católica ao país em 18 anos. Milhares de pessoas são esperadas nos eventos que devem mobilizar o país nos próximos dias. No entanto, o sumo pontífice enfrenta desafios para reconquistar os fiéis em um país com o catolicismo em queda e marcado por casos de violência sexual na Igreja.
O papa Leão XIV visita a França sob forte comoção popular e alta procura para seus eventos, em meio ao aumento de batismos entre jovens e adultos. Apesar desse sinal de renovação espiritual, a Igreja enfrenta o declínio histórico do catolicismo no país, marcado pela queda na frequência às missas e nos casamentos. A viagem foca ainda na recuperação da confiança institucional, com o pontífice encontrando vítimas de abusos sexuais cometidos pelo clero, sob críticas de coletivos locais.
Cerca de 600 mil pessoas se inscreveram para assistir à missa que o papa vai celebrar na praça da Concorde, em Paris, no sábado (26). Diante da grande procura, a Diocese de Paris criou uma área temporária onde as pessoas que não conseguiram um código QR para ter acesso ao local poderão circular.
Para a vigília com os jovens no Stade de France na noite de sábado, os ingressos gratuitos foram distribuídos em menos de duas horas e 80 mil pessoas são esperadas.
O entusiasmo com a visita de Leão XIV surpreende em um país onde o catolicismo está há décadas em declínio e aponta para um possível ressurgimento da religião.
Outro dado que reforça esta ideia é o aumento de batismos de adultos na França. Para entender o que impulsiona este movimento, o papa Leão XIV prevê se reunir com pessoas que se preparam para serem batizadas e recém-batizadas na sexta-feira, no Instituto Católico de Paris.
Os jovens procuram a religião por uma "experiência espiritual", ou devido "às provações da vida, luto, separação", ou ainda pela "ansiedade em relação a um futuro que parece mais sombrio do que o que parecia para as gerações anteriores", diz o historiador Charles Mercier, diretor de estudos da École Pratique des Hautes Études de Paris.
Segundo ele, o fenômeno é internacional. "A afinidade da Geração Z por crenças metafísicas está documentada além da França", particularmente nos Estados Unidos.
O número de batismos na França tem aumentado nos últimos cinco anos, tanto entre adultos (um aumento de 28% até 2026) quanto, em menor escala, entre adolescentes (um aumento de 10%), totalizando 21.386 em 2026, segundo a Conferência Episcopal Francesa (CEF).
Queda do catolicismo
No entanto, essa situação está longe da posição hegemônica da Igreja que prevaleceu até o século passado. No início da década de 1960, 85% dos franceses se identificavam como católicos. Hoje, esse número caiu para apenas 46%, segundo um amplo estudo do Instituto Francês de Opinião Pública (Ifop) para o jornal La Croix, publicado em dezembro de 2025.
Além disso, a frequência regular à missa está despencando. Apenas 5% dos franceses vão à igreja todos os domingos, de acordo com a mesma pesquisa.
Outro dado importante é que, paralelamente ao aumento dos batismos de jovens, os de bebês estão em constante declínio: 150.000 em 2024 (contra 380.000 em 2000). O número de casamentos religiosos também caiu drasticamente para 40.000 em 2023, em comparação com 122.000 em 2000. E apenas 84 padres foram ordenados este ano na França.
"Não há nenhuma melhora", resume François Mabille, diretor do Observatório Geopolítico da Religião. Segundo ele, o número de novos batizados reflete "a mudança de um catolicismo de transmissão para um catolicismo de adesão", com jovens criados longe da religião decidindo seu próprio caminho espiritual.
Violência sexual na Igreja
Por isso, apesar do entusiasmo aparente da população, Leão XIV sabe que vai enfrentar desafios nessa visita à França. Entre eles, a necessidade de recuperar a confiança após as revelações e diante da forma como os casos de violência sexual e de proteção de menores foram tratados.
No domingo, em Lourdes, o papa se encontrará com sete vítimas de abuso sexual na Igreja, um momento crucial na visita à França. Mas coletivos que representam as vítimas lamentam o número restrito de pessoas ouvidas e o tempo escasso do encontro.
Para algumas vítimas, como Philippe, entrevistado pela RFI, o encontro é apenas uma "ação de comunicação". Ele sofreu violência sexual por parte de um padre quando era criança. "Eu tenho a impressão de que eles fizeram entrevistas antes para não receber pessoas que têm algo contra a Igreja. Isso é chocante", lamenta.
O Relatório Sauvé, o mais importante sobre violência sexual na Igreja Católica na França, publicado em 2021 pela Comissão Independente sobre os Abusos Sexuais na Igreja (CIASE), estimou o número de vítimas no país desde 1950 em 330.000.
RFI e AFP
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