Governo francês discute bloquear redes sociais e endurece discurso contra novos protestos em Paris
Às vésperas de uma nova jornada de protestos contra o aumento do custo de vida, a França discute a possibilidade de bloquear temporariamente redes sociais como TikTok, Instagram, Snapchat e X. O debate ocorre ao mesmo tempo em que a polícia proibiu manifestações no centro de Paris, impôs um trajeto alternativo aos organizadores e decretou toque de recolher em áreas da capital. Especialistas apontam obstáculos técnicos e jurídicos para qualquer restrição às plataformas.
Diante de novos protestos contra o custo de vida, o governo francês proibiu atos no centro de Paris, impôs toque de recolher e avaliou bloquear redes sociais para conter a mobilização de estudantes, sindicatos e coletes amarelos. Emmanuel Macron acusou as plataformas de prejudicar a democracia ao difundir convocações violentas, mas a medida enfrenta barreiras técnicas, riscos a outros serviços digitais e precedentes judiciais contrários, enquanto manifestantes prometem manter os atos.
As autoridades proibiram manifestações no centro de Paris, no sábado (31), impuseram um trajeto alternativo para os protestos e decretaram toque de recolher em áreas da capital. O governo de Emmanuel Macron reconheceu ter discutido cenários para restringir o acesso a plataformas como TikTok, Instagram, Snapchat e X.
As duas iniciativas, embora distintas, refletem uma preocupação crescente do governo francês com o potencial de mobilização desta nova jornada de protestos em toda a França, que devem reunir sindicatos, estudantes e integrantes do movimento dos coletes amarelos em diversas cidades.
O debate sobre as redes sociais ganhou projeção após o site de informações Blast afirmar que o primeiro-ministro havia solicitado às principais operadoras francesas de telecomunicações, incluindo Orange, SFR, Free e Bouygues Telecom, que se mantivessem preparadas para uma eventual interrupção do acesso a determinadas plataformas digitais.
Questionado sobre o tema, Macron confirmou que houve discussões conduzidas pelo governo. O presidente também voltou a acusar as redes sociais de "prejudicar nossas democracias", em um momento em que integrantes do Executivo francês apontam essas plataformas como um dos principais meios de difusão de mensagens convocando manifestações e, em alguns casos, ações violentas.
Paralelamente, representantes das grandes plataformas digitais foram chamados a reuniões com integrantes do governo para discutir formas de reforçar o combate à circulação de conteúdos considerados ilícitos ou de incentivo à violência.
O debate ocorre num momento particularmente sensível para a França. A alta do custo de vida, a perda de poder de compra e a insatisfação de estudantes e sindicatos vêm alimentando uma nova onda de mobilização social, levando as autoridades a reforçar medidas preventivas de segurança.
Governo avalia bloqueios, mas enfrenta obstáculos técnicos
Embora a hipótese de restringir redes sociais tenha voltado à agenda política, especialistas afirmam que sua aplicação está longe de ser simples.
Segundo a Internet Society, organização dedicada à defesa de uma internet aberta, governos que pretendem bloquear plataformas geralmente dependem da colaboração dos provedores de acesso à internet e dos operadores do sistema DNS, responsável por direcionar usuários aos diferentes sites da rede.
Na prática, existem dois mecanismos principais para limitar o acesso.
O primeiro consiste em bloquear os endereços IP utilizados pelos servidores das plataformas, impedindo que os usuários estabeleçam conexão com elas. O segundo atua sobre os domínios de internet. Nesse caso, o sistema DNS deixa de apontar corretamente para a plataforma desejada, produzindo a impressão de que o serviço está fora do ar.
Especialistas observam, contudo, que esses métodos apresentam limitações importantes. Os conteúdos publicados continuam disponíveis nos servidores das plataformas e podem permanecer acessíveis por diferentes caminhos técnicos. Além disso, usuários conseguem contornar parte dessas restrições por meio do uso de redes privadas virtuais, conhecidas como VPNs, ou pela simples alteração de servidores DNS.
Especialistas alertam para efeitos colaterais
Outro problema apontado por especialistas é o risco de impactos sobre serviços não relacionados ao alvo da medida. Muitas plataformas compartilham infraestruturas tecnológicas, sistemas de hospedagem ou endereços digitais. Assim, um bloqueio voltado contra uma rede social específica pode acabar afetando outros serviços disponíveis na mesma estrutura.
A Internet Society afirma ainda que restrições desse tipo podem empurrar usuários para ferramentas menos confiáveis de navegação, aumentando riscos ligados à privacidade, à segurança digital e à proteção de dados.
Apesar dessas limitações, a discussão ganhou relevância diante da preocupação das autoridades francesas com a organização dos protestos previstos para este fim de semana. Na sexta-feira (30), a Prefeitura de Polícia de Paris proibiu os trajetos inicialmente propostos pela CGT e pelos coletes amarelos para a manifestação contra o aumento do custo de vida.
Os organizadores queriam realizar atos saindo da Praça da Bastilha em direção à Praça da Nação e à Praça da Concórdia, diante da Assembleia Nacional. As autoridades, porém, vetaram os dois percursos, alegando incompatibilidade com as exigências de manutenção da ordem pública.
Paris proíbe atos no centro da cidade
Segundo a central de polícia, os trajetos propostos atravessariam áreas que concentram delegacias, bancos, estabelecimentos comerciais e outros locais considerados sensíveis. Em seu lugar, as autoridades determinaram um percurso único entre a Porte de Bagnolet e a Porte de Charenton, em áreas periféricas da capital francesa.
O cortejo foi autorizado entre meio-dia e 18h, com saída prevista para as 14h pelas marginais. O governo argumenta que a medida busca preservar o direito de manifestação sem comprometer a segurança pública nem favorecer episódios de violência e depredação.
A decisão provocou forte reação entre sindicatos e organizações estudantis. Clara Privé, tesoureira da Unef, principal sindicato estudantil do país, acusou a Prefeitura de Polícia de tentar impedir manifestações no centro de Paris e afirmou que a medida busca "silenciar a voz da juventude".
A dirigente declarou ainda que os manifestantes pretendem manter o percurso originalmente previsto entre as praças da Bastilha e da Nação, apesar da proibição.
Governo acumula derrotas judiciais em casos semelhantes
Enquanto o debate político se intensifica, especialistas lembram que o governo francês já enfrentou dificuldades na Justiça ao tentar restringir redes sociais. O principal precedente ocorreu em 2024, quando Paris ordenou o bloqueio temporário do TikTok na Nova Caledônia durante uma onda de violência relacionada à reforma do sistema eleitoral do território ultramarino.
Em 2025, porém, o Conselho de Estado, a mais alta instância da Justiça administrativa da França, concluiu que a medida havia representado uma restrição desproporcional à liberdade de expressão, à liberdade de comunicação e ao acesso à informação.
A corte não descartou totalmente a possibilidade de novos bloqueios, mas estabeleceu critérios rigorosos para sua adoção. Segundo os magistrados, uma interrupção só poderia ser considerada legal diante de circunstâncias excepcionais, quando não existirem alternativas técnicas disponíveis e apenas pelo tempo estritamente necessário para implementar outras soluções.
Para a professora de direito público Brunessen Bertrand, da Universidade de Rennes, o Conselho de Estado costuma examinar cuidadosamente a adequação, a necessidade e a proporcionalidade de medidas desse tipo.
Toque de recolher e medo do Halloween
Além da polêmica em torno das redes sociais e das restrições aos protestos, as autoridades francesas decidiram impor medidas adicionais de segurança para o fim de semana.
Um segundo decreto publicado nesta sexta-feira determinou toque de recolher nas áreas da Praça da República e de Châtelet-Les Halles durante as noites de sábado para domingo e de domingo para segunda-feira.
A restrição vigorará entre 23h e 6h. Segundo a central de polícia, a combinação entre os protestos previstos para sábado e as comemorações de Halloween aumenta os riscos de distúrbios em determinados setores da capital.
A adoção simultânea de limitações aos percursos das manifestações, medidas excepcionais de segurança e discussões sobre um eventual bloqueio de redes sociais evidenciam a preocupação do governo francês com uma mobilização que pode representar o teste mais importante de sua capacidade de controle da ordem pública desde o início da nova onda de contestação social.
Com AFP
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