Funeral do criminoso de guerra Ratko Mladic reúne milhares de pessoas em Belgrado
Milhares de pessoas participaram nesta segunda-feira (7), em Belgrado, do funeral do ex-comandante militar sérvio-bósnio Ratko Mladic, condenado por genocídio, crimes de guerra e crimes contra a humanidade por seu papel na Guerra da Bósnia, nos anos 1990. A cerimônia reuniu veteranos, simpatizantes e nacionalistas sérvios. A União Europeia denunciou qualquer tentativa de glorificação do ex-general.
Milhares de pessoas compareceram ao funeral do ex-general Ratko Mladic em Belgrado, exaltado como herói por apoiadores locais. Condenado à prisão perpétua por genocídio e crimes de guerra na Bósnia, incluindo o massacre de Srebrenica, Mladic faleceu aos 84 anos em Haia. A cerimônia e as honras prestadas geraram forte repúdio internacional, com duras condenações da União Europeia contra a glorificação de criminosos de guerra, além de críticas severas da Bósnia-Herzegovina.
Pela manhã, milhares de pessoas aguardavam em frente à pequena Igreja Ortodoxa de São Lucas, onde o caixão de Mladic ficou exposto durante cinco horas antes do enterro em um cemitério próximo. No interior da igreja, seis soldados faziam guarda de honra diante do caixão fechado, acompanhado por uma fotografia, medalhas militares, um quepe de oficial e uma espada.
A cerimônia, organizada pelo filho de Mladic, Darko, teve forte carga simbólica e mobilizou admiradores vindos de várias regiões da Sérvia e da República Sérvia, entidade de maioria sérvia da Bósnia-Herzegovina. Muitos fiéis beijaram o caixão enquanto sacerdotes ortodoxos recitavam orações. Do lado de fora, bandeiras nacionais foram erguidas, e camisetas em homenagem ao ex-general eram exibidas pelos participantes.
"Estou aqui para me despedir do general, um herói nacional", afirmou a aposentada Radojka Visic, que viajou da República Sérvia para participar da cerimônia.
O funeral foi cercado por polêmica desde o anúncio de que o Estado sérvio prestaria honras oficiais ao ex-comandante. O ministro da Justiça, Nenad Vujic, chegou a anunciar homenagens militares e de Estado, provocando reações indignadas no exterior. Diante das críticas, o presidente sérvio Aleksandar Vucic procurou minimizar o caráter oficial da cerimônia, afirmando que ela seria realizada de acordo com os desejos da família.
O caixão de Mladic havia chegado à Sérvia na quinta-feira (3), transportado em um avião do governo e recebido com honras militares. Durante o trajeto até Belgrado, o cortejo foi saudado por grupos de jovens que carregavam faixas de apoio ao ex-general e lançavam sinalizadores de fumaça.
A União Europeia condenou duramente as homenagens. Nesta segunda-feira, um porta-voz do serviço diplomático europeu declarou que "a glorificação de criminosos de guerra, a negação do genocídio e o revisionismo não têm lugar na União Europeia nem nos países candidatos", em referência à Sérvia, que negocia sua adesão ao bloco.
A comissária europeia responsável pela ampliação da União Europeia, Marta Kos, cancelou uma visita prevista a Belgrado nesta semana. Segundo ela, a exaltação da morte de Mladic é incompatível com os valores defendidos pela União Europeia.
As críticas também vieram da Bósnia-Herzegovina. Denis Becirovic, membro bósnio da presidência tripartite do país, acusou as autoridades sérvias de se associarem "a um dos piores assassinos da história europeia" e advertiu que a situação pode ter consequências para a estabilidade da região.
Prisão perpétua
Ratko Mladic morreu no fim de agosto, aos 84 anos, em Haia, na Holanda, onde cumpria prisão perpétua. Preso em 2011 após dezesseis anos foragido, ele foi condenado definitivamente em 2021 por genocídio, especialmente por seu papel no massacre de Srebrenica, em julho de 1995, quando cerca de 8 mil homens e adolescentes muçulmanos foram executados pelas forças sérvio-bósnias. O episódio é considerado o pior massacre ocorrido na Europa desde a Segunda Guerra Mundial.
Mladic também foi condenado por perseguições contra populações muçulmanas e croatas, pelo cerco de Sarajevo e pela tomada de soldados da ONU como reféns durante o conflito. A guerra da Bósnia, travada entre 1992 e 1995, deixou cerca de 100 mil mortos e mais de 2 milhões de deslocados.
Apesar das condenações internacionais, o ex-general continua sendo visto como um herói por parte da população sérvia, especialmente na República Sérvia, onde sua morte foi marcada por vigílias, homenagens e manifestações de apoio. Seu filho, Darko Mladic, declarou nos últimos dias estar "orgulhoso do papel" desempenhado pelo pai durante a guerra.
Com AFP
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