França: política migratória endurecida por ex-ministro conservador há mais de um ano afeta economia
Mais de um ano após o endurecimento das condições de regularização de trabalhadores imigrantes por meio de uma circular emitida em 2025 pelo então ministro do Interior francês, Bruno Retailleau - hoje pré-candidato à Presidência da França pelo partido Os Republicanos -, empregadores de pequenas e médias empresas ainda enfrentam as consequências da medida. Segundo reportagem do jornal Libération publicada nesta quarta-feira (22), um novo estudo da France Travail, o serviço público de emprego da França, revela necessidades elevadas de mão de obra imigrante, sobretudo nos setores de bares e restaurantes e cuidados a pessoas.
O Libération destaca o tema na manchete principal de sua edição impressa desta quarta-feira. A reportagem analisa os efeitos do endurecimento das regras de regularização de imigrantes sem documentos em um contexto de forte escassez de mão de obra, evidenciada por dados oficiais da France Travail.
Do ponto de vista econômico, o relatório aponta que, apesar de uma queda geral nas intenções de contratação em 2026 (menos 6,5% em relação a 2025), a demanda segue muito elevada em setores essenciais e estruturalmente dependentes de trabalhadores imigrantes.
Os números ajudam a explicar esse cenário. Segundo a Dares, órgão de estatística do Ministério do Trabalho francês, 22% dos cozinheiros, 27% dos operários não qualificados da construção pesada e mais de 15% dos auxiliares domiciliares são estrangeiros. O relatório reforça que a imigração deixou de ser apenas uma questão social e se tornou um pilar do funcionamento de setores inteiros da economia francesa, em um contexto de envelhecimento demográfico e de saldo natural negativo da população.
No plano político, o texto evidencia um choque frontal entre o governo e parte do empresariado. A circular Retailleau substituiu a circular Valls, de 2012, que concedia maior margem de manobra aos prefeitos para regularizações caso a caso. Segundo o Libé, "a participação de imigrantes cresceu rapidamente em profissões como açougueiros, charcuteiros e padeiros, e mesmo antes do endurecimento promovido por Bruno Retailleau, aprendizes desses setores já enfrentavam dificuldades para se regularizar".
"Um excelente trabalhador expulso é um desperdício"
O jornal ilustra a situação de Stéphane Ravacley, padeiro na região francesa de Besançon, que em 2021 viu seu aprendiz guineense, Laye, receber uma ordem de saída do território francês (OQTF). "Se eu o perder, perco um terço dos meus funcionários", declarou Ravacley à France TV, que dedicou um documentário ao caso.
"Formar um jovem e vê-lo ser expulso quando ele é um excelente trabalhador porque seu título de residência não foi renovado é um desperdício para todos", critica Michel Picon, presidente da União das Empresas de Proximidade (U2P), em entrevista ao Libération.
Por fim, a reportagem destaca que o próprio governo francês reconhece que, diante do saldo demográfico negativo e das necessidades urgentes do mercado de trabalho, a presença de trabalhadores imigrantes é uma necessidade econômica. O Ministério do Trabalho afirma estudar, nas próximas semanas, a ampliação da lista de profissões consideradas "em tensão", em diálogo com os parceiros sociais.
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