França: mulher que salvou brasileira de estupro em trem na periferia de Paris é homenageada
Desde seu ato de bravura em 16 de outubro de 2025, quando salvou a brasileira Jhordana de uma tentativa de estupro em um trem da linha RER C, ao sul de Paris, Marguerite Dorvilien afirma estar "muito mais atenta" ao que acontece ao seu redor e às pessoas que a cercam.
A diretora escolar Marguerite Dorvilien recebeu a Medalha Nacional do Mérito, na França, por salvar uma brasileira de 26 anos de uma tentativa de estupro em um trem na região de Paris. Sozinha, Marguerite confrontou e filmou o agressor, fazendo-o fugir. A cerimônia contou com a presença da vítima e de autoridades locais. O caso evidencia o problema da violência contra mulheres nos transportes públicos franceses, cenário em que pesquisas revelam que a maioria das testemunhas não costuma intervir.
Naquela manhã, a diretora de uma escola privada em Ablon-sur-Seine, a cerca de 20 quilômetros de Paris, conseguiu sozinha espantar o agressor. A vítima era Jhordana, uma jovem brasileira de 26 anos. Marguerite chamou a atenção do homem falando com ele e filmando a situação com seu celular.
Por seu ato de coragem, a mulher de 45 anos recebeu na segunda-feira (28), em Paris, a Medalha Nacional do Mérito das mãos do ministro dos Transportes, Philippe Tabarot, que fez da segurança nos transportes sua principal bandeira política. Na cerimônia também estava a presidente da região Île-de-France, Valérie Pécresse, que já havia homenageado Marguerite anteriormente.
"Antes, eu não prestava atenção ao que acontecia ao meu redor nos transportes públicos. Hoje, eu conseguiria descrever facilmente as pessoas que estão perto de mim. Jhordana estava usando o celular e não percebeu imediatamente que havia sido escolhida por um predador", explicou Dorvilien à AFP, cercada de amigos e familiares.
"É importante que as mulheres, quando estiverem nos transportes públicos, não fiquem com os olhos fixos no telefone", recomenda ela, que recebe dos familiares os apelidos de "foguete" ou "furacão", em referência à sua energia contagiante e à sua "determinação em fazer o bem" ao seu redor.
'O medo muda de lado'
Também pastora de uma igreja evangélica, Marguerite Dorvilien, nascida em Porto Príncipe, no Haiti, afirma que simplesmente quis ser "a pessoa que não desvia o olhar". Ela ajudou Jhordana, que gritava dentro do vagão quase vazio do RER tentando escapar de um homem que, além de persegui-la, também a agrediu fisicamente e feriu seu rosto naquele dia.
"No vídeo, vemos claramente que a expressão do agressor muda no momento em que Marguerite intervém e que, de repente, o medo muda de lado", destaca seu amigo Samuel Renson, pastor em Champagne-sur-Oise e convidado para a cerimônia no Ministério dos Transportes, em Paris.
No meio da multidão também estava Jhordana, acompanhada de um amigo e levando um buquê de flores para Marguerite. Ela disse estar "muito feliz por estar ali e muito agradecida". "Ela salvou minha vida", disse a brasileira.
Segundo números da Polícia de Paris, os casos de violência sexual nos transportes da região parisiense diminuíram 0,9% no último ano. No entanto, de acordo com um estudo interno realizado pela empresa de transportes RATP em 2022 e divulgado pelo Observatório Nacional da Violência contra as Mulheres, sete em cada dez mulheres já sofreram violência sexista ou sexual nos transportes públicos da região de Paris ao longo da vida. Entre jovens de 15 a 18 anos, esse número sobe para oito em cada dez; entre as de 19 a 25 anos, para nove em cada dez.
Outro estudo, realizado pela organização Alter Égaux entre 2021 e 2022 no departamento Alpes-Maritimes, na região de Nice, mostrou que seis em cada dez mulheres relataram ter sofrido violência sexista ou sexual nos transportes públicos. Além disso, em 88% dos casos testemunhados, ninguém interveio.
Antes de se tornar diretora de um colégio voltado para crianças que "não se sentem bem na escola" devido a transtornos de aprendizagem como dislexia, disgrafia, discalculia, superdotação intelectual (HDI) ou TDAH, e posteriormente de uma escola primária, Marguerite Dorvilien também dirigiu uma associação que acolhe pessoas em situação de vulnerabilidade social ou sem moradia.
"Gostaria de fazer mais pelas mulheres vítimas de violência e pelos órfãos, mas aprendi que não podemos carregar todas as causas", diz aquela que a imprensa apelidou de "a heroína do RER C".
Com AFP
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