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Em Biarritz, curta-metragem paraibano aborda identidade racial no Brasil

O curta-metragem Caso Isolado, dirigido por Jamila Facury e Edson Lemos Akatoy, tem sua estreia mundial no Festival de Cinema Latino-Americano de Biarritz, na França, nesta quarta-feira (30). A produção paraibana aborda as diferenças de tratamento associadas ao tom de pele dentro da própria população negra e os conflitos de identidade racial vividos por quem não se encaixa nas categorias tradicionalmente reconhecidas pela sociedade.

30 set 2026 - 14h11
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Resumo
Exibido no Festival de Biarritz, o curta paraibano dirigido e protagonizado por Jamila Facury aborda o racismo estrutural no Brasil pela ótica de uma vendedora de cosméticos. A trama foca no "não lugar" ocupado por pessoas que transitam entre classificações raciais, expondo preconceitos velados e cotidianos. Fruto do projeto "Casos Isolados", a produção celebra a potência do cinema independente paraibano e busca visibilidade para narrativas e cineastas negros no cenário audiovisual mundial.

Maria Paula Carvalho, enviada especial da RFI a Biarritz

A história acompanha Cristina, uma entregadora de cosméticos que percorre a cidade realizando vendas. A cada parada, ela se depara com diferentes ambientes sociais e situações que revelam preconceitos muitas vezes naturalizados no cotidiano.

Para Jamila Facury, que além de dirigir interpreta a personagem principal, o racismo brasileiro se manifesta às vezes de forma explícita, outras vezes em situações consideradas sutis.

"O racismo vai desde situações bem extremas, bem escancaradas, até situações que são ditas sutis, mas não são tão sutis assim", afirma em entrevista à RFI em Biarritz. Segundo ela, muitos desses comportamentos passam despercebidos por estarem profundamente enraizados na cultura. "Você que está nesse lugar de ser o alvo sente um desconforto, mas muitas vezes não sabe nomear", completa.

A diretora destaca que o filme se concentra especialmente na experiência de pessoas que ocupam um "não lugar" dentro das classificações raciais brasileiras.

"Existem as pessoas de pele retinta, existem as pessoas brancas, e existe aquela pessoa que está ali no meio. Ela não é considerada preta o suficiente, mas também não é tida como branca. Ela está naquele não lugar", explica.

Segundo Jamila, muitas dessas pessoas acabam reproduzindo preconceitos contra negros de pele mais escura e, ao mesmo tempo, também sofrem discriminação. "O sistema vai atribuindo outros motivos para as dificuldades que essas pessoas vivem. Mas, se isso acontece com várias delas, não é um caso isolado. É uma coisa estrutural que está ali", afirma. 

Além de dirigir, Jamila assumiu um papel fundamental na produção. A experiência, segundo ela, foi menos complicada do que imaginava graças à sua trajetória no teatro e em diferentes funções do audiovisual.

"Eu comecei minha carreira artística como atriz e já tinha trabalhado com direção de elenco. A gente ensaiou tudo antes do filme e isso me permitiu me dedicar mais à atuação", conta. Ao longo da carreira, ela já trabalhou como figurinista, maquiadora, assistente e diretora de arte. "A formação teatral nos dá uma visão ampla do processo. Eu trouxe todo esse aprendizado para essa experiência", explica.

Casos Isolados

O projeto nasceu a partir de uma iniciativa maior chamada Casos Isolados, concebida inicialmente como uma coletânea de histórias que futuramente poderá se transformar em um longa-metragem.

Edson Lemos Akatoy explica que, diante da falta de recursos para realizar uma produção mais extensa, a equipe decidiu concentrar esforços em uma das narrativas.

"Era originalmente uma história que renderia 40 ou 50 minutos. O desafio foi condensar tudo em um curta sem perder a força da mensagem", afirma. O diretor também destaca a dimensão coletiva do projeto, realizado com o envolvimento de mais de 30 profissionais da Paraíba.

"Trazer o cinema paraibano para Biarritz é muito importante. É uma forma de dizer: nós existimos, estamos fazendo um cinema potente na Paraíba."

Questionado sobre a recepção do filme na França, país onde as questões ligadas à imigração ocupam espaço no debate público, Edson acredita que a obra pode dialogar com o público europeu, ainda que trate de uma realidade especificamente brasileira.

"A luta por espaço e reconhecimento existe em diferentes sociedades. O Brasil é um reflexo de processos históricos ligados à colonização e à escravidão. Esse filme mostra como essas heranças ainda repercutem nas relações sociais", analisa.

Jamila Facury e Edson Lemos Akatoy, diretores do filme Caso Isolado, que concorre ao prêmio de melhor curta-metragem em Biarritz. Em 29 de setembro de 2026.
Jamila Facury e Edson Lemos Akatoy, diretores do filme Caso Isolado, que concorre ao prêmio de melhor curta-metragem em Biarritz. Em 29 de setembro de 2026.
Foto: RFI

Mais do que disputar prêmios, Jamila vê a seleção para o festival como uma conquista em si mesma. "Eu ficaria muito feliz se o filme fosse premiado, mas só o fato de estar aqui, apresentando essa história para o público francês, já é um prêmio", diz.

Ela lembra que produzir cinema fora dos grandes centros continua sendo um ato de resistência. "Fazer cinema de onde a gente vem ainda é muito difícil", lamenta.

Para Edson, o principal objetivo da produção é abrir caminhos para novas oportunidades e ampliar a presença de vozes pouco representadas no audiovisual brasileiro. "A decisão de fazer esse filme partiu da necessidade de criar as próprias oportunidades, porque elas não estavam vindo de outras formas", diz.

Ele destaca a importância de ver uma mulher negra ocupando simultaneamente os lugares de atriz e diretora. "É um lugar de voz. Isso é muito importante politicamente", conclui.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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