França: mais um manifestante perde a mão em protestos com 500 mil e denúncias de violência policial
Um manifestante perdeu uma das mãos neste sábado (17), após a explosão de uma granada policial em Saint-Étienne, durante uma ampla série de protestos que levou mais de meio milhão de pessoas às ruas da França, segundo a central sindical CGT. A mobilização, que reuniu estudantes, sindicatos, agricultores, aposentados e remanescentes do movimento dos coletes amarelos, foi marcada por confrontos em diversas cidades, centenas de detenções, uso intenso de gás lacrimogêneo e renovadas críticas à estratégia de manutenção da ordem adotada pelo governo de Emmanuel Macron.
Protestos na França reuniram mais de 500 mil pessoas contra o aumento do custo de vida e a precarização dos serviços públicos, resultando em ao menos 272 detenções e graves confrontos. O caso mais crítico foi o de um manifestante que perdeu a mão em Saint-Étienne, reacendendo debates sobre a violência policial e o uso de armas de dispersão. Atos de vandalismo e choques com as forças de segurança atingiram várias cidades, incluindo Paris, Marselha e Lyon, a menos de seis meses da eleição presidencial.
O episódio registrado em Saint-Étienne se tornou o caso mais grave conhecido até o momento em um dia que já acumulava denúncias de uso excessivo da força, confrontos entre manifestantes e policiais e cenas de violência urbana em várias regiões do país.
Mas o incidente não é um caso isolado. Em 5 de outubro, um estudante de 15 anos perdeu a mão esquerda durante um protesto estudantil em Lens, no norte da França, nas proximidades da escola secundária profissionalizante Auguste-Béhal. A repetição de ferimentos graves associados à atuação policial volta a alimentar o debate sobre o uso de armamentos de dispersão em manifestações e sobre a estratégia de manutenção da ordem adotada pelas autoridades francesas.
A mobilização ocorre a menos de seis meses da eleição presidencial francesa e catalisou diferentes formas de insatisfação social em torno do aumento do custo de vida, dos preços da energia, da precarização de serviços públicos e das reivindicações estudantis por melhores condições de ensino.
Segundo a CGT, o maior sindicato da França, mais de 500 mil pessoas participaram das manifestações em todo o país. O Ministério do Interior não divulgou balanço nacional equivalente, mas reconheceu forte mobilização em diversas cidades.
Até o meio da tarde, as autoridades contabilizavam ao menos 272 detenções em território francês. O governo também relatou episódios considerados graves em cidades como Marselha, Lyon e Paris.
Ao longo de todo o dia, lideranças políticas, organizações estudantis e participantes dos protestos denunciaram uma resposta policial considerada excessiva, enquanto o governo atribuía os confrontos à atuação de grupos radicais de esquerda.
Governo relata centenas de detenções e confrontos simultâneos
O Ministério do Interior informou que manifestações expressivas foram registradas em Lyon, Nantes e Rennes, onde os cortejos reuniram dezenas de milhares de pessoas.
Segundo as autoridades, grupos black blocs compostos por centenas de integrantes se misturaram a parte das marchas, promovendo ataques contra policiais, depredações de prédios públicos e tentativas de saques a estabelecimentos comerciais.
O governo sustentou que organizações ligadas à ultraesquerda tiveram participação relevante nos episódios de violência. Integrantes do Ministério do Interior afirmaram que esses grupos buscavam deliberadamente transformar as manifestações em confrontos com as forças de segurança.
A leitura é contestada por setores da esquerda francesa, que acusam o governo de concentrar o debate público nos incidentes violentos e de obscurecer a dimensão social dos protestos.
O líder da França Insubmissa (LFI), Jean-Luc Mélenchon, da esquerda radical, criticou a cobertura contínua das cenas de confronto e afirmou que dezenas de milhares de pessoas participavam pacificamente dos atos pelo país.
Já Marine Tondelier, dirigente do partido Ecologistas, voltou a pedir uma revisão do método francês de manutenção da ordem. Segundo ela, a estratégia atual coloca em risco tanto manifestantes quanto policiais.
Repressão começou antes da saída dos principais cortejos
A resposta policial à jornada nacional de protestos começou antes mesmo da partida dos principais cortejos. Desde as primeiras horas da manhã, a capital francesa vivia sob forte vigilância das forças de segurança. Milhares de pessoas foram submetidas a revistas preventivas em Paris, dezenas de manifestantes já haviam sido detidos e agrupamentos que começavam a se formar eram bloqueados pela polícia, numa demonstração de força que antecedeu os confrontos registrados mais tarde ao longo do dia.
As autoridades proibiram manifestações em áreas sensíveis da capital, incluindo os arredores do Palácio do Eliseu e da residência oficial do primeiro-ministro.
Um cortejo não autorizado que se dirigia ao Eliseu foi interceptado e dispersado pela polícia antes de alcançar a área protegida. Na Praça da República, principal ponto de concentração dos atos em Paris, as tensões aumentaram antes mesmo da saída da manifestação oficialmente autorizada.
Segundo a prefeitura de polícia, centenas de pessoas lançaram pedras e outros objetos contra agentes de segurança. As forças policiais responderam com gás lacrimogêneo e com o uso de canhões de água para dispersar os grupos envolvidos nos confrontos e garantir a saída do restante do cortejo.
Vídeos registrados no local mostraram manifestantes devolvendo bombas de gás lacrimogêneo lançadas pela polícia e entoando palavras de ordem hostis às forças de segurança.
Estudantes colocam violência policial no centro da mobilização
Embora o aumento do custo de vida tenha sido o principal fator de convocação dos protestos, o tema da violência policial ganhou protagonismo ao longo da jornada.
A mobilização incorporou estudantes secundaristas e universitários que protestam desde setembro por mais professores, melhores condições de aprendizagem e mais investimentos na educação pública.
Em Paris, a estudante Lola, de 19 anos, relacionou diretamente sua participação nas manifestações às denúncias de agressões durante os protestos estudantis. "Estamos lutando porque o custo de vida está alto demais, porque o preço dos combustíveis está caro demais, porque estudantes do ensino médio estão sendo vítimas de violência e de ferimentos em todo o país simplesmente por tentarem se manifestar e pedir mais professores e condições dignas de aprendizagem", afirmou.
A perda da mão de um manifestante em Saint-Étienne acrescentou um novo elemento ao debate sobre o uso de armamentos de dispersão por parte das forças de segurança, tema recorrente na França desde os protestos dos coletes amarelos, entre 2018 e 2019.
O caso ocorreu após a explosão de uma granada policial, segundo uma fonte próxima da investigação. Até a noite deste sábado, as circunstâncias exatas do incidente ainda não haviam sido detalhadas pelas autoridades.
"É a Revolução, vamos tomar a Bastilha"
Em Marselha (sul), dezenas de manifestantes conseguiram romper as portas da prefeitura e invadir brevemente o saguão do edifício.
Aos gritos de "é a Revolução, vamos tomar a Bastilha", os participantes derrubaram um busto de Marianne, símbolo da República Francesa, e danificaram parte do mobiliário antes da intervenção policial.
O prefeito Benoît Payan afirmou ter solicitado explicações sobre a estratégia de segurança adotada e anunciou ter obtido reforços policiais após contato direto com o presidente Emmanuel Macron.
Também em Marselha, lojas foram danificadas e um posto da polícia municipal sofreu atos de vandalismo. Em Lille (norte), manifestantes forçaram várias entradas da prefeitura, quebraram portas de vidro e invadiram parte do prédio, provocando danos materiais antes de deixar o local.
Pouco depois, unidades da tropa de choque entraram no edifício para verificar se ainda havia pessoas no interior. Do lado de fora, confrontos entre policiais e centenas de manifestantes continuaram durante toda a tarde.
Bordeaux e Lyon registram alguns dos confrontos mais intensos
Em Bordeaux, um cortejo que reunia estudantes, sindicalistas, agricultores e militantes políticos deixou o ponto de partida antes do horário previsto e rapidamente se transformou em um dos focos de tensão do dia.
O grupo, estimado em cerca de 7.000 pessoas pelas autoridades locais, incluía numerosos manifestantes vestidos de preto e com os rostos cobertos, muitos deles entoando palavras de ordem contra a polícia. Os confrontos começaram pouco depois da chegada ao centro histórico da cidade. Houve arremesso de objetos, uso de gás lacrimogêneo e choques diretos entre policiais e grupos radicais.
Em Lyon, uma unidade do escritório de turismo localizada na Praça Bellecour foi depredada e incendiada. Os bombeiros tiveram dificuldades para acessar o local devido aos confrontos nas proximidades. Jovens encapuzados lançaram objetos e morteiros de artifício contra policiais, que responderam com gás lacrimogêneo, granadas de dispersão e canhões de água.
Também foram registrados ataques contra prédios públicos, estabelecimentos comerciais e veículos em diferentes pontos da cidade.
Enquanto isso, em Rennes, Nantes e outras capitais regionais, milhares de pessoas continuaram marchando em manifestações que transcenderam as pautas originais dos coletes amarelos e transformaram o sábado em uma das maiores demonstrações de descontentamento social vistas na França nos últimos anos.
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