Script = https://s1.trrsf.com/update-1790713512/fe/zaz-ui-t360/_js/transition.min.js
PUBLICIDADE

As Principais Notícias da Europa

Publicidade

Entre a visita de um papa e a violência urbana, filmes brasileiros levam dramas socials a Biarritz

Em sua 35ª edição, o Festival de Cinema Latino-Americano de Biarritz presta homenagem a dois países: Cuba e Uruguai. Entre os destaques da programação dedicada ao cinema uruguaio está O Banheiro do Papa, dirigido por César Charlone e Enrique Fernández. Lançado em 2007, o longa retorna às telas em uma sessão especial fora de competição, quase duas décadas após sua estreia.

1 out 2026 - 14h29
Compartilhar
Exibir comentários
Resumo
O Festival de Biarritz destaca dramas sociais do cinema latino-americano ao exibir produções de César Charlone e Felipe Casanova. Charlone celebra os 20 anos de seu longa sobre o impacto econômico e as frustrações da visita papal na fronteira entre Uruguai e Brasil, além de exaltar a evolução do cinema uruguaio. Já Casanova exibe curta premiado sobre violência policial e luto no carnaval carioca, enquanto prepara um novo projeto acerca da diáspora e de imigrantes brasileiros na Europa.

Maria Paula Carvalho, enviada especial da RFI a Biarritz

Para César Charlone, a reapresentação do filme franco-uruguaio-brasileiro tem um significado especial. "É muito lindo porque coincide com o relançamento do filme também no Uruguai. Esse novo papa vai visitar o país em breve. Além disso, o filme completa 20 anos. Então virou um acontecimento. Isso me toca muito, profundamente, porque tenho um carinho enorme por esse filme, pelo que ele significa. É a minha raiz uruguaia no Brasil", disse em entrevista à RFI em Biarritz.

A exibição na França acontece poucos dias depois da visita do papa Leão XIV, reforçando a atualidade do tema abordado pelo longa-metragem. Para o cineasta, a figura do pontífice continua despertando mobilizações populares.

"Sim, total. Virou um evento. As visitas do Papa agora são um evento, né? Os caras constroem banheiro, outros compram comida para vender, enfim, é um evento. O Papa é um evento", afirma.

A comédia dramática se passa em 1988, na pequena cidade uruguaia de Melo, às vésperas da visita do então papa João Paulo II. Convencido de que milhares de peregrinos atravessarão a fronteira para acompanhar o evento, o protagonista Beto investe todas as suas economias na construção de um banheiro público em frente à própria casa. A expectativa de lucro, no entanto, acaba transformando-se em frustração.

Charlone lembra que muitos moradores acreditaram que a cidade seria invadida por brasileiros. "Na verdade, o que eles esperavam era que essa quantidade de visitantes fosse brasileira, porque o Papa não tinha visitado o Brasil e estava visitando uma cidade fronteiriça. Imaginaram que muitos brasileiros iam loucos para Melo para ver o Papa. De fato, alguns foram, mas não o que eles imaginavam", conta.

Segundo o diretor, o excesso de otimismo provocou prejuízos econômicos para muitas famílias. "Pensando que os brasileiros iriam em peso, a turma vendeu terrenos para comprar salsicha, comprou frituras para vender e ficaram com elas. Tem uma cena final no filme que mostra esse excesso de comida que foi jogada fora", relata.

César Charlone, em Biarritz, em 30 de setembro de 2026.
César Charlone, em Biarritz, em 30 de setembro de 2026.
Foto: RFI

Renascimento do cinema uruguaio

Nascido no Uruguai e radicado durante muitos anos no Brasil, Charlone considera a homenagem ao cinema uruguaio um reconhecimento importante para uma cinematografia que ganhou força nos últimos anos.

"Acho muito lindo, porque, de fato, o cinema no Uruguai aconteceu ultimamente", afirma. O cineasta atribui parte desse crescimento ao período da pandemia de Covid-19. "Muitas produções se viram frustradas porque não tinham onde filmar e o Uruguai estava protegido na pandemia. A população tinha sido vacinada totalmente e era muito educada no uso de máscara. Então muitas produtoras terminaram indo ao Uruguai para filmar durante a pandemia", lembra.

Para ele, o resultado foi uma profissionalização acelerada do setor audiovisual. "Isso fez com que o cinema uruguaio crescesse. Então, no Uruguai agora está se produzindo muito e bem", avalia.

Violência policial e carnaval na tela

Outra produção exibida fora de competição em Biarritz é o curta-metragem O Rio de Janeiro Continua Lindo, do diretor suíço-brasileiro Felipe Casanova. Lançado em 2025 e premiado no Festival de Clermont-Ferrand, o filme acompanha a carta de uma mãe para o filho morto. Ambientada durante o carnaval carioca, a obra aborda temas como luto, violência policial e memória.

Casanova destaca a importância de apresentar o filme em um festival dedicado ao cinema latino-americano. "É uma oportunidade bem legal mostrar o filme em cidades diferentes e ainda mais numa mostra da América Latina. Traz temas como violência policial à tona e acho isso importante", disse em entrevista à RFI.

O diretor também acredita que a exibição em Biarritz pode estimular reflexões sobre questões sociais e políticas. "Biarritz é linda, maravilhosa, mas acho que é uma cidade que está tomada também por ideologias que estão indo cada vez mais para a extrema direita", diz. "Então talvez seja bom também trazer essas histórias para cá", completa. 

No curta-metragem, a violência policial é retratada como um problema estrutural da sociedade brasileira, cuja origem remonta a períodos anteriores. "Infelizmente é uma coisa que está lá enraizada há muito tempo. E é por isso que acho que foi importante trazer um pouco esse fantasma da ditadura", explica.

Para Casanova, existe uma continuidade entre a violência praticada durante o regime militar e problemas enfrentados atualmente nas periferias urbanas. "A violência policial está muito, muito atual. Já a violência da ditadura, a impunidade vem desse tempo também", afirma. E alerta: "O perigo está mais presente do que nunca nas políticas que estão sendo agora propostas."

Apesar dos desafios retratados, o cineasta acredita na capacidade do cinema de promover mudanças por meio da empatia. "O cinema toca as pessoas. Acho que é uma ferramenta que não é só sobre informação, não são números. Você realmente vai tocar no emocional de alguém, criar empatia com uma realidade que não é dela necessariamente", diz.

Novo filme sobre diáspora

Hoje radicado na Bélgica, Casanova já prepara um novo projeto, desta vez voltado para a experiência da imigração brasileira na Europa. "Estou escrevendo um filme que se passa na Suíça e tenta colocar em cena a diáspora brasileira, de brasileiros que trabalham na Suíça sem documentos, como empregadas domésticas", conta o diretor. "Eu vi muita gente que saiu do Brasil e teve essa experiência de vida. Isso existe no meu imaginário há muito tempo", acrescenta.

Segundo o cineasta, o objetivo é retratar trajetórias em busca de oportunidades, mas a partir de perspectivas diferentes da sua própria. "Eu fui embora criança e quero me interessar por quem também foi, mas viveu uma outra realidade, sem os mesmos privilégios que eu tive", analisa. 

César Charlone e Felipe Casanova mostram como o cinema latino-americano continua dialogando com questões sociais, políticas e humanas. Em comum, seus filmes transformam histórias locais em reflexões universais. 

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
Compartilhar

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.

Publicidade
Meu Terra