Em ano eleitoral, documentário exibido em Biarritz revisita vitória histórica da esquerda em Olinda
Apresentado no Festival de Cinema Latino-Americano de Biarritz, o documentário Os Arcos Dourados de Olinda, do diretor pernambucano Douglas Henrique, resgata um episódio marcante da política brasileira no início dos anos 2000. O filme revisita a eleição de Luciana Santos, considerada a primeira prefeita comunista eleita no país após a redemocratização, e a polêmica em torno da instalação de um restaurante do McDonald's na cidade histórica de Olinda.
Exibido no festival de Biarritz, o documentário do pernambucano Douglas Henrique revisita a eleição histórica de Luciana Santos à prefeitura de Olinda, em 2000, paralelamente à resistência local contra a abertura de um McDonald's na cidade. Usando humor e ironia, o filme traça paralelos sobre identidade cultural e a influência norte-americana na América Latina. O cineasta também destacou a relevância política da obra, os desafios do cinema nacional e a força da produção audiovisual pernambucana.
Maria Paula Carvalho, enviada especial da RFI a Biarritz
A exibição na França acontece a poucos dias da eleição presidencial brasileira, contexto que confere uma dimensão política particular à obra, como explicou à RFI Douglas Henrique, nessa entrevista em Biarritz.
"É particularmente especial estar aqui a alguns dias da eleição no Brasil. Acho que o filme coloca bem claramente qual é a posição que a gente tem, e que grande parte da classe artística brasileira tem, sobre os caminhos que o país deve seguir", afirma.
O diretor também destaca a importância do diálogo com outros realizadores latino-americanos presentes no festival. "Estou muito feliz de apresentar o filme e de encontrar tantos latino-americanos. São filmes que se conectam por diferentes temáticas, e é sempre interessante ver a reação das pessoas à nossa realidade e perceber como ela acaba sendo próxima da deles", continua.
A recepção do público francês surpreendeu positivamente a equipe. Narrado com humor e ironia, o documentário provoca reações diferentes conforme o contexto cultural. "Quando vamos às sessões, ficamos observando a plateia para ver se as pessoas riem, quais piadas funcionam. Na Colômbia e na Argentina algumas referências tiveram mais efeito. Aqui na França, outras funcionaram melhor. Isso também torna divertido para nós continuar assistindo ao filme tantas vezes", conta.
Uma eleição, um McDonald's e a identidade de uma cidade
Em tom didático, o documentário combina entrevistas e imagens de arquivo para reconstruir a disputa eleitoral de 2000 em Olinda. A narrativa acompanha, em paralelo, a chegada da rede norte-americana de fast-food à cidade e a campanha que levou Luciana Santos à prefeitura.
À primeira vista, os dois acontecimentos parecem desconectados. Foi justamente essa aparente falta de relação que despertou o interesse do diretor. "A ideia surgiu a partir de uma característica muito pernambucana: a valorização das coisas que são nossas, de Recife, de Olinda, de Pernambuco", explica. "A partir daí encontrei essas duas histórias. De um lado, a eleição da primeira prefeita comunista desde a volta da democracia. Do outro, a resistência à chegada do primeiro McDonald's da cidade. Essa coincidência já era irônica o suficiente para mim", analisa.
Segundo Douglas Henrique, o filme não busca demonstrar uma relação direta entre os dois acontecimentos, mas explorar os significados que carregavam naquele contexto histórico. "O que um restaurante norte-americano em uma cidade histórica simboliza? E o que representa uma prefeita comunista em uma cidade pequena, mas com uma projeção tão grande? Foi tentando responder a essas perguntas que o filme encontrou suas conexões", diz.
Influência norte-americana
Ao revisitar uma história de mais de duas décadas atrás, o documentário acaba estabelecendo paralelos com o cenário político atual. Para o diretor, as discussões sobre a influência norte-americana na América Latina permanecem relevantes. "É triste perceber que muitas coisas continuam parecidas. Vinte e seis anos se passaram e, em alguns aspectos, a situação ficou ainda mais grave", avalia.
Na visão de Douglas Henrique, o que mudou foi a forma como essa influência é exercida. "Antigamente, havia uma atuação mais velada. Hoje isso acontece de maneira muito mais explícita. As interferências externas são mais diretas e visíveis", aponta.
Às vésperas da eleição brasileira, o cineasta espera que o processo democrático prevaleça. "A gente espera que a influência externa não tenha um peso tão grande e que as decisões sejam tomadas dentro do campo democrático", insiste o diretor.
Cinema brasileiro ainda enfrenta dificuldades
Apesar do reconhecimento internacional conquistado por produções recentes, o diretor afirma que fazer cinema no Brasil continua sendo um desafio. Segundo ele, a situação melhorou em relação aos anos anteriores, mas ainda está distante das necessidades do setor. "Hoje existe novamente uma perspectiva de políticas públicas para o cinema, mas ainda muito aquém da dimensão cultural do Brasil e da importância que o país tem para o mundo", avalia.
Douglas Henrique cita especialmente as dificuldades enfrentadas para levar os filmes aos festivais internacionais. "Produzir com orçamento reduzido já é difícil. Depois, para circular com o filme, participar de festivais e representar o cinema brasileiro no exterior, também faltam recursos. Muitas vezes as pessoas acabam desistindo do processo", lamenta.
Mesmo assim, ele vê sinais de recuperação e aposta na continuidade das políticas de incentivo. "Existe uma esperança de que o país continue dentro do campo democrático e que a cultura possa voltar a sonhar um pouco mais", reitera.
O legado do cinema pernambucano
Natural de Pernambuco, Douglas Henrique pertence a uma geração que cresceu acompanhando a ascensão internacional do cinema produzido no estado. Entre as principais referências está o cineasta Kleber Mendonça Filho. "O Kleber trouxe uma visibilidade muito grande para o cinema pernambucano", afirma.
Para o diretor, o reconhecimento conquistado por cineastas como Kleber Mendonça Filho, Gabriel Mascaro, Marcelo Gomes e Paulo Caldas ajudou a consolidar uma nova geração de realizadores. "Hoje a gente tem filmes pernambucanos que são referência em qualquer lugar do mundo. Viajo para festivais e as pessoas conhecem lugares que frequento porque os viram em filmes do Kleber ou do Gabriel. Isso nos dá uma confiança importante. Faz a gente entender que o nosso cinema também é mundial", comemora.
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