Dinamarca vota em eleições de resultado incerto, com Groenlândia, água e imigração como temas em pauta
Os dinamarqueses comparecem às urnas nesta terça-feira (24) para eleições legislativas de resultado incerto, com a primeira-ministra Mette Frederiksen, de centro esquerda, como favorita para um terceiro mandato graças à sua oposição a Donald Trump sobre a questão da Groenlândia.
No poder desde 2019, a primeira-ministra Mette Frederiksen governa, desde sua reeleição em 2022, com uma coalizão composta pelos social-democratas, seu partido, mas também pelos liberais de centro e pelo partido Venstren, de direita. Um governo que aprovou medidas muito liberais que afastaram o eleitorado tradicional dos social-democratas.
Embora sua popularidade estivesse em baixa nas pesquisas no final de 2025, Mette Frederiksen ganhou um novo impulso de simpatia entre os dinamarqueses durante a crise da Groenlândia em janeiro, passando de 17% para 21%. Foi nesse momento que ela decidiu convocar eleições antecipadas.
Mette Frederiksen enfrentou o presidente dos Estados Unidos e seu interesse em assumir o controle da Groenlândia, território autônomo que Washington considera vital para a sua segurança.
Mas a Groenlândia, não é um tema polêmico e seus oponentes, entre os quais se destaca seu ministro das Relações Exteriores, líder do partido centrista Os Moderados, compartilham a mesma visão.
"É verdade que a política externa e a Groenlândia foram abordadas durante a campanha. Elas ocupam um lugar de destaque nos debates, mas as questões de política externa da Dinamarca não dividem os partidos", destaca Anne Rasmussen, professora de ciências políticas na Universidade de Copenhague e no King's College de Londres. "A abordagem adotada por Mette Frederiksen durante a crise da Groenlândia conta com amplo apoio. Não há divergências significativas sobre esse ponto com seus oponentes", acrescenta.
"A futura composição do governo é muito incerta, mas é provável que, no final, ela esteja à frente do governo", declarou à AFP Elisabet Svane, analista política do jornal Politiken. "As pessoas podem não gostar realmente dela, mas a veem como a líder adequada".
As pesquisas mais recentes apontam que o bloco de esquerda tem uma pequena vantagem sobre o bloco de direita, mas nenhum lado alcançaria a maioria de 179 cadeiras do Folketinget, o Parlamento dinamarquês.
As vagas dos territórios ultramarinos (Groenlândia e Ilhas Faroé, territórios autônomos do Reino da Dinamarca) representam dois deputados cada no Parlamento dinamarquês e podem inclinar a balança, assim como os deputados do partido Os Moderados, do atual ministro das Relações Exteriores, Lars Løkke Rasmussen.
Em Nuuk, capital da Groenlândia, a campanha provocou um interesse maior que o habitual e mais de 20 candidatos disputam as duas vagas em jogo.
"Acredito que esta eleição vai nos mostrar, de certa forma, o rumo para o futuro", declarou o deputado do Parlamento local Juno Berthelsen, que lidera a lista do partido Naleraq, defensor de uma ruptura com Copenhague.
Uma campanha centrada em "temas tradicionais da esquerda"
A campanha girou mais em torno de questões de política interna, como o custo de vida, a tributação dos rendimentos mais elevados ou a idade de aposentadoria, e Mette Frederiksen fez campanha com medidas de esquerda.
"A questão central desta eleição é a orientação econômica que a Dinamarca deseja seguir a longo prazo", resume Anne Rasmussen. "Os social-democratas de Mette Frederiksen fazem parte de um governo de coalizão mais centrista, que reúne partidos de todas as tendências. Eles apoiaram inúmeras reformas do Estado de bem-estar social. Mas, desta vez, sua campanha concentrou-se mais em temas tradicionais da esquerda, como, por exemplo, uma reforma do sistema de aposentadoria com o objetivo de reverter algumas das medidas mais radicais adotadas até agora."
Mas o tema que ganhou destaque nos debates nas últimas semanas é o meio ambiente e, mais especificamente, a água. Um relatório do Ministério do Meio Ambiente revela a presença de nitratos e pesticidas nos pontos de captação de água potável. Em um país onde a suinocultura intensiva é a pedra angular da agricultura, um tema que parece pesar mais do que a Groenlândia na campanha.
"Os partidos de esquerda conseguiram transformar a água potável em um tema central das eleições", destaca Svane. A água potável é muito rica em nitratos na Dinamarca devido aos despejos da pecuária.
A campanha eleitoral também abordou a imigração e os social-democratas defendem 18 novas propostas.
A primeira-ministra dinamarquesa defendeu como "justo" o projeto de privar de atendimento médico não essencial qualquer pessoa de origem estrangeira que tenha proferido ameaças ou se mostrado violenta com profissionais de saúde.
"Deve ser assim: além da pena formal no sistema judicial, nós dizemos: 'você não tem nada que fazer aqui'", afirmou Frederiksen.
A legenda de extrema direita Partido Popular Dinamarquês (DF), que defende a suspensão das autorizações de residência permanentes, considera as propostas insuficientes.
Na Dinamarca continental, a votação terminará às 20h (16h em Brasília), horário em que serão divulgadas as pesquisas de boca de urna.
RFI com AFP