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Desmilitarizada no pós-guerra, Alemanha aposta no Exército enquanto governo despenca em popularidade

Um ano após chegar ao poder, o governo alemão enfrenta rejeição recorde enquanto acelera uma mudança histórica em sua política de defesa. Para a cientista política Ulrike Franke, do Conselho Europeu de Relações Exteriores, "a impressão é que este governo sofre os acontecimentos mais do que os controla", o que ajudaria a explicar o desgaste enfrentado pelo chanceler Friedrich Merz. Ao mesmo tempo, a Alemanha avança em uma guinada militar inédita desde o pós‑guerra.

6 mai 2026 - 16h00
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Friedrich Merz completa seu primeiro ano de governo com85% de insatisfação entre os alemães, um índice que chama a atenção até mesmo entre analistas. "Não acho que ele tenha feito tudo errado. Mas esses números são impressionantes", afirma Franke em entrevista à RFI.

O chanceler alemão, Friedrich Merz, em 5 de maio de 2026.
O chanceler alemão, Friedrich Merz, em 5 de maio de 2026.
Foto: © Christian Mang / Reuters / RFI

Segundo ela, o desempenho do governo deve ser entendido a partir de três fatores. O primeiro é externo: "a situação internacional é difícil, assim como a situação econômica". O segundo é interno: "é um governo de coalizão e há disputas demais, tensões por todos os lados".

Mas é o terceiro ponto que, na avaliação da pesquisadora, agrava o problema político do chanceler: "de vez em quando ele comete erros verbais que prejudicam sua popularidade e sua política".

Erros de comunicação ampliam desgaste

A cientista política destaca que o estilo de comunicação de Merz se tornou um fator de risco adicional em um cenário internacional sensível. "Às vezes ele faz essas pequenas gafes verbais nas quais parece que não foi intencional, mas simplesmente disse algo de forma equivocada", afirma.

Segundo ela, esse tipo de declaração ganha peso maior diante da presença de Donald Trump na Casa Branca. "Nos encontramos em situações em que Trump diz, por exemplo, que vai retirar 5.000 soldados da Alemanha porque Merz disse tal ou tal coisa." Ainda assim, Franke relativiza o impacto dessas declarações: "também não se deve exagerar o efeito dessas frases. No fim das contas, Trump tem suas próprias ideias e sua visão das coisas. Ele fará o que quiser, de qualquer forma".

Reforço militar marca virada estratégica

Enquanto a popularidade do governo se deteriora, a política de defesa segue em direção oposta. A meta anunciada por Merz ao assumir o cargo - transformar a Bundeswehr no principal exército convencional da Europa - está em curso.

"Eu diria que sim", afirma Franke, ao avaliar se esse objetivo foi alcançado. "Hoje se diz que a Bundeswehr é o exército convencional mais potente da Europa." Ela destaca que essa meta aparece de forma insistente em estratégias militares recentes e faz parte de uma mudança estrutural. "A Alemanha e a Bundeswehr estão conduzindo uma Zeitenwende, uma mudança de doutrina."

Segundo a pesquisadora, o aumento de gastos é significativo: "há um aumento realmente considerável do orçamento militar; trata-se de centenas de bilhões destinados a equipar as forças armadas". Ainda assim, ela ressalta que o processo é gradual: "há muitas coisas em preparação, e isso leva tempo".

Franke identifica dois desafios principais para a Alemanha nesse processo. "O primeiro é a retirada das forças norte-americanas da defesa europeia. O segundo é a questão do pessoal", afirma. Atualmente, a Bundeswehr conta com cerca de 180 mil soldados, e a meta é ultrapassar 200 mil com as reservas nos próximos anos. "Portanto, será necessário recrutar mais."

Fim de uma era de desmilitarização

Durante décadas, o baixo investimento militar foi parte de uma escolha política e cultural. "Na Alemanha, havia a impressão de que isso realmente não era necessário", afirma Franke.

Essa percepção estava ligada à presença dos Estados Unidos: "eles garantiam a defesa". Também refletia uma visão mais ampla surgida nos anos 1990: "a ideia de que a história tinha terminado, que os conflitos militares pertenciam ao passado".

Nesse contexto, as forças armadas foram vistas como secundárias. "Pensava‑se que eram necessárias apenas para intervenções externas, como no Afeganistão. Defender a Alemanha ou o continente europeu parecia improvável."

Esse cenário mudou com a invasão da Ucrânia pela Rússia, em 24 de fevereiro de 2022. "Foi um golpe duro", afirma. A decisão de retirar 5.000 soldados norte‑americanos da Alemanha não altera de forma significativa o equilíbrio militar imediato, segundo a pesquisadora.

"A princípio, isso não muda muita coisa", afirma. Ela lembra que o país abriga entre 35 mil e 40 mil militares dos EUA há décadas. Além disso, essas forças cumprem múltiplas funções. "Há bases que servem para outras missões, como o Africa Command ou um grande hospital militar."

Capacidade militar preocupa mais que número de tropas

Mais preocupante, na avaliação de Franke, é outra decisão: a ausência de novos sistemas estratégicos.

"A decisão de não implantar mais mísseis de alcance intermediário na Alemanha é mais preocupante", diz.

Segundo ela, trata‑se de capacidades que a Europa não possui em quantidade suficiente. "Isso enfraquece o apoio à dissuasão europeia." 

Franke avalia que a Europa tem condições de se defender sem os Estados Unidos - mas não no curto prazo. "Sim, penso que pode", afirma. "A Europa é um continente rico, com 450 milhões de habitantes, capaz de se defender por si mesmo."

No entanto, o problema está na estrutura atual: "nosso sistema de defesa está organizado com os Estados Unidos". Se a retirada for rápida, "isso cria um problema".

A adaptação exigirá recursos e coordenação. "A longo prazo, poderemos nos adaptar, mas será necessário muito dinheiro e mais coordenação europeia."

A possibilidade de uma aliança atlântica sem os Estados Unidos também entra no horizonte estratégico. "É um risco", afirma Franke. "É preciso se preparar, pensar como se organizaria a segurança europeia sem os Estados Unidos", finaliza.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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