'Bienal de Veneza não é tribunal': evento artístico do ano repercute polêmica em torno da Rússia
A decisão da Bienal de Veneza de permitir, ainda que de forma limitada, a presença da Rússia em seus pavilhões, rompe um consenso mantido desde a invasão da Ucrânia em 2022 e expõe uma divisão que já atravessa o sistema internacional de arte. Ao sustentar a tese do diálogo cultural, a direção da mostra enfrentou nesta quarta-feira (6) a pressão direta da União Europeia e vigilância do governo italiano, ao mesmo tempo em que reabre a discussão sobre os limites da neutralidade em meio à guerra.
Em meio à controvérsia, a decisão revelou fissuras internas no sistema de arte contemporânea, evidenciando que, diante da guerra e das sanções, curadores e instituições já não operam sob consenso - tensão que levaria, nos bastidores, a uma ruptura significativa envolvendo o júri internacional da competição, presidido pela brasileira Solange Farkas.
Farkas optou por se pronunciar após a confirmação da participação russa, em um movimento que não foi isolado e evidenciou uma reação mais ampla entre os integrantes do júri. O movimento parece indicar que a controvérsia não se restringe às relações diplomáticas entre Estados, mas atravessa o próprio campo cultural, onde cresce a tensão entre a defesa do diálogo institucional e a recusa em normalizar a participação de um país sob sanções, em meio a uma guerra em curso.
Como indicou em suas redes sociais:
O júri internacional da Bienal de Veneza se absterá de considerar os Pavilhões Nacionais dos países cujos líderes estejam atualmente acusados de crimes contra a humanidade pelo Tribunal Penal Internacional.
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Na tentativa de conter a crise, o presidente da Bienal de Veneza, Pietrangelo Buttafuoco, sustentou publicamente nesta quarta-feira (6) que a Bienal deve permanecer como um espaço de diálogo cultural, rejeitando a lógica de exclusão automática imposta por tensões geopolíticas.
Segundo ele, o mundo que emergiu dos ideais iluministas teria se transformado em um ambiente de intolerância crescente, no qual se multiplicam pedidos por censura, fechamento e exclusão. Nesse contexto, argumentou, a Bienal não pode assumir o papel de julgamento político.
"A Bienal não é um tribunal; é um jardim de paz. Não podemos fechar nem boicotar como resposta automática", declarou o presidente da Bienal.
A decisão, no entanto, rompe com o alinhamento cultural que vinha sendo seguido por diversas instituições desde o início da guerra, e recoloca a arte no centro de uma disputa sobre neutralidade versus posicionamento.
A presença da Rússia foi autorizada, mas sob condições estritas. O país poderá abrir seu pavilhão apenas durante quatro dias de pré‑abertura, reservados à imprensa.
Durante os seis meses da exposição, o público não terá acesso interno ao espaço e poderá apenas observar projeções externas, solução que revela o esforço de conciliar participação formal com restrições políticas impostas pela União Europeia.
A organização sustenta que a Rússia não foi convidada diretamente, mas que sua presença decorre de um fator jurídico: o país é proprietário do pavilhão, o que impede sua exclusão completa sem violar regras patrimoniais.
Reação imediata
A decisão desencadeou reação imediata em nível europeu. Em Bruxelas, a União Europeia ameaçou retirar € 2 milhões de financiamento à Bienal, sinalizando que o campo cultural passou a integrar diretamente o regime de sanções.
Paralelamente, o governo italiano enviou inspetores a Veneza para verificar se a participação russa viola as restrições vigentes.
Esse movimento revela que a disputa ultrapassa o campo simbólico e se traduz em mecanismos concretos de controles financeiros, administrativos e jurídicos.
Protestos
O pavilhão russo foi palco de contestação pública neste primeiro dia de abertura do evento para a imprensa. O coletivo feminista Pussy Riot organizou uma manifestação utilizando sinalizadores cor‑de‑rosa e as cores da bandeira ucraniana, transformando o espaço em um ponto de confronto simbólico.
Ao mesmo tempo, o embaixador da Rússia na Itália, Alexeï Paramonov, reagiu criticando o que chamou de "obsessão da União Europeia em atingir a cultura russa por meio de sanções".
Segundo ele, a presença do país na Bienal expressa a intenção de manter o diálogo com a Itália por meio da arte, reafirmando a cultura como instrumento diplomático em meio ao isolamento político.
RFI com AFP
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