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'Convite para não vir': aumento de taxas para estrangeiros em universidades da França preocupa brasileiros

O ministro do Ensino Superior da França, Philippe Baptiste, anunciou em 20 de abril que o aumento das taxas de matrícula para estudantes internacionais de fora da União Europeia, decretado em 2018, deverá ser efetivamente aplicado pelas universidades. A medida gera preocupação entre estudantes brasileiros na França, que sentem que deixaram de ser "bem-vindos" no país.

14 mai 2026 - 11h15
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Ana Carolina Peliz, da RFI em Paris

A decisão integra o plano Choose France for Higher Education (Escolha a França para o Ensino Superior), do Ministério do Ensino Superior e da Pesquisa. Embora tenha sido instituída há oito anos, a política provocou forte reação de associações estudantis e reitores contra a medida. Em resposta, muitas instituições criaram mecanismos de isenção que poupavam os alunos estrangeiros das taxas.

Agora, apesar da autonomia das universidades, o governo pressiona para que o preço diferenciado para estrangeiros seja aplicado já na matrícula para o ano letivo de 2026-2027, com início em setembro. Segundo o ministério, um decreto obrigará as universidades a adotar a medida, sem detalhar prazos. Apenas 10% dos estudantes poderão ser isentos, em situações específicas, como aqueles oriundos de países em grave dificuldade.

Pela regra, alunos de fora da União Europeia terão que pagar € 2.895 (cerca de R$ 16 mil) para cursos de graduação, contra € 180 atualmente, e € 3.941 (aproximadamente R$ 21.700) em nível de mestrado, contra os € 250 atuais. Os estudantes franceses e europeus continuarão pagando os valores mais baixos, enquanto o doutorado não sofreu aumento. "Isso representa apenas 30% do custo real da formação", afirma Baptiste, destacando que os valores ainda são inferiores aos praticados em destinos como Estados Unidos e Reino Unido.

O governo sustenta que a medida visa reforçar a atratividade da França como polo de ensino e pesquisa, além de melhorar o acolhimento de estudantes estrangeiros. A justificativa, no entanto, não convence Matheus Morandini, presidente da Associação de Estudantes e Pesquisadores Brasileiros na França (Apeb-Fr).

"É contraditório com a própria política de atrair mais brasileiros para o país",  diz, referindo-se ao compromisso firmado em 2024 durante visita de Lula à França. Na ocasião, o presidente brasileiro e Emmanuel Macron estabeleceram a meta de elevar o número de estudantes brasileiros de cerca de 5 mil para 8 mil até 2026. Dados da Campus France indicam, porém, uma queda de 1% em cinco anos, entre 2019 e 2024.

Para Morandini, o aumento das taxas caminha na direção oposta. "É uma espécie de convite para não vir. Não condiz com a política de promoção do ensino superior francês no Brasil", afirma. Ele também aponta outras medidas que desestimulam a permanência de estrangeiros, como o fim do auxílio-moradia para estudantes de fora da UE, restrito agora a bolsistas. "A impressão é de que essas pessoas deixaram de ser bem-vindas", diz.

O presidente da Associação de Estudantes e Pesquisadores Brasileiros na França, Apeb-Fr, Matheus Morandini.
O presidente da Associação de Estudantes e Pesquisadores Brasileiros na França, Apeb-Fr, Matheus Morandini.
Foto: RFI

Faculdades sob pressão financeira

A justificativa apresentada pelas universidades difere da versão oficial do governo.

"Alguns alunos contribuirão mais para o financiamento da universidade no próximo ano. Por razões orçamentárias, somos obrigados a aumentar essas taxas", afirma Christine Neau-Leduc, presidente da Universidade Paris 1 Panthéon-Sorbonne, em dezembro. "Os valores são definidos por decreto de 2019. Não temos autonomia sobre isso", acrescenta.

Em resposta à RFI, a instituição citou sua deterioração financeira. "Há anos sofremos os efeitos de decisões do Estado que foram apenas parcialmente compensadas". Diante do déficit, a universidade recebeu da autoridade regional a tarefa de implementar um plano de economia de € 13 milhões até o fim do ano.

A situação da prestigiosa universidade não é isolada. Diversas instituições enfrentam dificuldades semelhantes, o que ajuda a explicar o recuo em relação a um princípio histórico do ensino francês: a gratuidade para todos. Diferentemente de países como Estados Unidos, Reino Unido e Canadá, esse sempre foi um dos pilares do sistema universitário na França.

Desde o início do ano, dirigentes universitários vêm alertando para a crise orçamentária. Segundo relatos, cerca de três quartos das instituições operam no vermelho. Embora o orçamento para 2026 preveja um acréscimo de € 175 milhões, o montante é considerado insuficiente para compensar a inflação, de acordo com a Federação de Educação, Pesquisa e Cultura, ligada à CGT.

"As universidades estão à beira do colapso", conta à RFI a professora e pesquisadora em Ciências Política da Universidade Paris 1 Panthéon-Sorbonne. "Cortamos 90% dos investimentos; já não compramos livros". Ainda assim, ela critica a medida: "Essa diferenciação por origem é inaceitável. Esses estudantes terão as mesmas condições de ensino que outros que pagam poucas dezenas de euros", opina.

A proposta do governo é controversa e, segundo entidades estudantis, pode agravar ainda mais a situação financeira dos alunos estrangeiros.

Imagem de ilusração da Universidade Sorbonne em Paris, França, em 15 de abril de 2022.
Imagem de ilusração da Universidade Sorbonne em Paris, França, em 15 de abril de 2022.
Foto: RFI

Incerteza entre estudantes

Muitas universidades ainda não confirmaram se aplicarão integralmente a medida ou se manterão isenções, o que aumenta a incerteza entre os estudantes.

"Perguntei se serei afetada, mas ainda não tive resposta", relata Alice Machado, que deve iniciar uma graduação em psicopedagogia em Paris, um curso realizado pela Escola de Formação em Psicopedagogia, em parceria com a Universidade de Nanterre. "Estou muito preocupada", completa.

A estudante explica que, após mudar de tipo de visto, ficou impedida de trabalhar por meses. "Vou ter que me reorganizar e talvez buscar um emprego de verão para conseguir pagar a universidade. Mas posso trabalhar no máximo 20 horas semanais, e isso não é suficiente". Segundo ela, o dinheiro que pretendia usar para visitar a família no Brasil deverá ser destinado à matrícula.

Ela ressalta que o custo é elevado para muitas famílias. "Vou ficar em uma situação bem apertada. Não é qualquer família que pode disponibilizar € 2 mil ou mais para estudar fora", declara.

Caio Dério, mestrando em Desenvolvimento e Ação Humanitária Universidade Paris 1 Panthéon-Sorbonne, vive situação semelhante. Ele foi surpreendido pela decisão da universidade no meio do curso. "Fiquei muito preocupado, mas, após pressão dos estudantes, a cobrança não foi aplicada para quem já estava inscrito", conta.

O estudante brasileiro Caio Dério ao lado de uma placa com o nome da universidade onde estuda, Panthéon Sorbonne, que subiu as taxas de matrícula em dezembro de 2025.
O estudante brasileiro Caio Dério ao lado de uma placa com o nome da universidade onde estuda, Panthéon Sorbonne, que subiu as taxas de matrícula em dezembro de 2025.
Foto: RFI

"Quem entrou em 2025 poderá concluir pagando as taxas anteriores" segundo ele, que sublinha que a decisão só foi revertida após mobilização. Ele lamenta que não foi alertado sobre um possível aumento quando se inscreveu na universidade. "Planejei tudo com base nos valores informados. Deixei meu emprego no Brasil, usei minhas economias e organizei minha mudança contando com esses custos". Caso a cobrança fosse mantida, Caio não teria condições de permanecer e teria que abandonar o curso.

Na avaliação do aluno, a medida pode empurrar estudantes para empregos e formações fora de suas áreas. Ele questiona ainda a lógica da política. "Parece que a qualidade do estudante está sendo associada ao quanto ele pode pagar. Isso não faz sentido. O governo acaba fechando portas para pessoas talentosas", aponta.

Morandini, da Apeb-Fr, também relata a importância das isenções. Ele chegou à França em 2021 e só conseguiu estudar graças a esse mecanismo. "Eu não teria vindo se tivesse que pagar esses valores".

Para ele, o cenário indica uma mudança de orientação. "O governo caminha para uma política que precariza estudantes estrangeiros de fora da União Europeia, especialmente os estudantes de países do Sul Global e com menor poder econômico", conclui.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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