'Cemitério sem lápides': Papa denuncia indiferença à morte de migrantes no Atlântico
Na etapa final de sua visita à Espanha, o papa Leão XIV transformou o porto de Arguineguín, nas Ilhas Canárias, em um cenário de forte simbolismo político e humanitário. Diante de migrantes, socorristas e autoridades, o pontífice denunciou nesta quinta-feira (11) a indiferença internacional frente à tragédia de milhares de pessoas que morrem ao tentar chegar à Europa pela rota atlântica, considerada uma das mais perigosas do mundo.
Com informações do enviado especial da RFI, Manu Terradillos
Em um gesto solene, o líder da Igreja Católica lançou um buquê de flores ao mar em memória às vítimas. A cerimônia ocorreu no local que ficou conhecido como o "porto da vergonha", símbolo da crise migratória europeia, e que agora as autoridades procuram renomear como "cais da esperança".
"Não se pode proclamar a dignidade humana e acostumar-se a que o Mediterrâneo e o Atlântico sejam cemitérios sem lápides", afirmou o papa em seu discurso, em um apelo direto à Europa e à comunidade internacional.
Leão XIV também denunciou a atuação de redes criminosas que exploram migrantes e criticou a passividade de governos. "Hoje, monstros espreitam estes mares: máfias que traficam com o desespero e a indiferença de muitos que permitem que os pobres sejam engolidos pela exploração ou pelo esquecimento", declarou, defendendo uma resposta baseada na proteção, acolhimento e cooperação internacional.
Responsabilidade compartilhada
Durante a visita, o pontífice ouviu relatos de migrantes que sobreviveram à travessia. Uma jovem nigeriana vítima de tráfico humano descreveu como foi explorada após chegar à Europa, enquanto outros testemunhos lembraram o sofrimento de quem enfrentou o mar sem garantias de sobrevivência.
Localizadas próximas à costa noroeste da África, as Ilhas Canárias se tornaram uma das principais portas de entrada para a Europa. Em 2024, mais de 46 mil migrantes chegaram ao arquipélago, um recorde histórico. Apesar de uma queda recente nas chegadas, a rota atlântica continua sendo uma das mais mortais do mundo, devido à distância, às condições climáticas e à precariedade das embarcações.
Foi nesse contexto que o papa fez um apelo por responsabilidade compartilhada. Ele cobrou ações tanto dos países de origem, que devem criar condições para que seus cidadãos não precisem migrar, quanto dos países de trânsito e destino, que devem proteger os mais vulneráveis.
Experiências traumáticas no mar
A reportagem da RFI visitou um centro de acolhimento e ouviu sobreviventes da travessia atlântica, histórias que ecoam a denúncia do pontífice.
"Havia pessoas flutuando na água. Foi aterrorizante. Você não sabe se vai sobreviver ou morrer", relata Djeneba Kane, marfinense que chegou às ilhas ainda adolescente, grávida, após uma viagem marcada por náuseas, tonturas e medo.
Kalili Soukouna, do Mali, revive uma jornada de quase um mês a pé antes de embarcar rumo ao desconhecido. Chegou às Canárias aos 14 anos. "Sou um dos poucos sortudos que conseguiram. Posso contar essa história. Muitos não tiveram a mesma sorte", lamenta.
Ambos destacam, no entanto, a acolhida ao chegar. "A primeira coisa que fizeram foi nos ajudar, nos dar água e comida, e eu nunca vou esquecer essa imagem", lembra Soukouna.
Hoje, os dois conseguiram reconstruir suas vidas, apesar do trauma. "Agradeço a Deus porque consigo me sustentar e também tenho pessoas ao meu lado que me ajudam, que são como uma família para mim", acrescenta Djeneba.
Uma causa de Francisco
A visita de Leão XIV às Canárias retoma um desejo de seu antecessor, o papa Francisco, que fez da causa migratória um eixo central de seu pontificado, mas morreu sem conseguir ir ao arquipélago.
Ao encerrar sua viagem à Espanha com esse gesto, o atual papa reforça essa linha e insiste na necessidade de respostas coordenadas, solidárias e eficazes, capazes de garantir proteção e integração dos migrantes.
A viagem de Leão XIV à Espanha termina nesta sexta-feira (12), na ilha de Tenerife, onde ele deve visitar outro centro de apoio aos migrantes.
Com AFP e RFI
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