Brasil tem quatro filmes em competição no Festival de Cinema Latino-Americano de Biarritz
Começa neste sábado (26) a 35ª edição do Festival de Cinema Latino-Americano de Biarritz. Até 2 de outubro, a cidade do sudoeste da França reafirma seu papel como uma das mais importantes vitrines do cinema e das culturas latino-americanas na Europa.
O Festival de Cinema Latino-Americano de Biarritz traz produções brasileiras nas disputas de longas, documentários e curtas, com obras como "Coração de Lona" e "Pau D'Arco", além de coproduções e atrações musicais do país. A 35ª edição do evento também promove encontros culturais, homenageia o chileno Eduardo Carrasco e o escritor cubano Leonardo Padura com o prêmio Abrazo d'Honneur, e dedica atenção especial a Cuba e ao Uruguai, abrindo a programação com o filme mexicano "Moscas".
Maria Paula Carvalho, da RFI
A programação inclui as tradicionais competições de longas-metragens, documentários e curtas, além de encontros literários, debates universitários, exposições, concertos, oficinas de dança e atividades dedicadas ao desenvolvimento de coproduções entre a América Latina e a Europa.
Neste ano, o festival decidiu homenagear não apenas uma, mas duas grandes personalidades da cultura latino-americana: Leonardo Padura e Eduardo Carrasco. Segundo os organizadores, ambos possuem trajetórias intimamente ligadas à história, à memória e às realidades sociais do continente.
Compositor, músico e membro fundador do histórico grupo chileno Quilapayún, Eduardo Carrasco construiu uma carreira marcada pelo engajamento político e social. Sua obra tornou-se símbolo de uma geração e ajudou a difundir internacionalmente a música comprometida com as causas democráticas e populares do Chile. Carrasco receberá o Abrazo d'Honneur na noite de abertura, na Gare du Midi, seguido da exibição do documentário "Quilapayún más allá de la canción".
Já Leonardo Padura, um dos escritores cubanos mais reconhecidos internacionalmente, será homenageado por uma obra enraizada na história e na sociedade de Cuba. Por meio de romances que têm como figura central o detetive Mario Conde, Padura aborda temas como liberdade, desilusões políticas e as transformações sociais do país. O escritor receberá o Abrazo d'Honneur na terça-feira (29), também na Gare du Midi.
A edição de 2026 terá ainda um olhar especial para Uruguai e Cuba, países que estarão em destaque em diversas atividades culturais e cinematográficas do festival.
Participação brasileira
O Brasil estará presente de diversas formas na programação. Entre os longas de ficção selecionados para a competição oficial, destaca-se "Coração de Lona", da diretora brasileira Tuca Siqueira. O filme acompanha uma família ligada ao universo do circo itinerante nordestino e aborda questões de pertencimento, memória e sobrevivência de uma tradição cultural diante das transformações do mundo contemporâneo.
Na competição de documentários, o Brasil é representado por "A Fabulosa Máquina do Tempo", de Eliza Capai, que terá sua estreia na França durante o festival. O filme é narrado por uma menina de dez anos que vive no interior do Piauí. Apesar das dificuldades impostas pela vida no sertão, ela e as amigas constroem uma máquina capaz de viajar no tempo.
Outro documentário brasileiro em competição é "Pau D'Arco", de Ana Aranha. O filme acompanha a busca por justiça dos sobreviventes da chacina em que policiais civis e militares mataram dez trabalhadores rurais na Fazenda Santa Lúcia, no Pará, em 2017. Considerado um dos mais graves massacres no campo da história recente do Brasil, o caso continua sem uma sentença definitiva. Somente em 2026 a Justiça confirmou que os policiais acusados deverão ser submetidos a júri popular, quase uma década após as mortes.
Na competição de curtas-metragens, o Brasil aparece com dois títulos. O documentário "Os Arcos Dourados de Olinda", de Douglas Henrique, revisita o episódio que opôs a primeira prefeita comunista do Brasil à instalação de uma unidade do McDonald's na cidade pernambucana, transformando Olinda em símbolo de resistência política e cultural. O filme tem lançamento na França durante o evento.
Já "Caso Isolado", de Jamila Facury e Edson Lemos Akatoy, com lançamento mundial em Biarritz, aborda as diferenças de tratamento associadas ao tom de pele dentro da própria população negra e as questões de identidade racial enfrentadas pela protagonista, uma mulher que passa a trabalhar como entregadora após sofrer um acidente de trabalho.
O Brasil também marca presença fora das competições. "Narciso", coprodução internacional dirigida pelo paraguaio Marcelo Martinessi, reúne produtores de Paraguai, Brasil, Portugal, Alemanha, Espanha, França e Uruguai, refletindo a vocação do festival para estimular parcerias entre a América Latina e a Europa.
Outros títulos com participação brasileira na programação são "La Perra", de Dominga Sotomayor, coprodução entre Chile e Brasil; "Seis Meses no Edifício Rosa com Azul", de Bruno Santamaría Razo, realizado entre Brasil, México e Dinamarca; e "Patrícia", de Aude Chevalier, coprodução entre Brasil e França.
Também integram a programação "El Cordón", "O Banho do Papa", "Ainda Estamos Aqui", "Planeta Fome", "Lagoa do Abandono" e "O Rio de Janeiro Continua Lindo".
A presença brasileira não se limita ao cinema. O Village du Festival contará com apresentações da cantora Graziela Bianco, do grupo Sambastian, além de atividades dedicadas ao samba e à cultura brasileira.
O filme de abertura da 35ª edição será "Moscas", do diretor mexicano Fernando Eimbcke.
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