Ataques racistas a prefeito levam milhares a protesto na região de Paris
Milhares de pessoas participaram neste sábado (4) de um protesto contra o racismo em Saint-Denis, na periferia de Paris, convocado pelo novo prefeito da cidade, Bally Bagayoko. Nas eleições municipais francesas, em março, uma campanha de ódio contra ele abriu um debate nacional sobre discriminação racial.
"Resistência! Resistência!", gritava o prefeito para a multidão reunida na praça em frente à prefeitura. Diversos sindicatos, associações e figuras políticas de esquerda, incluindo o líder do partido França Insubmissa, Jean-Luc Mélenchon, e outras personalidades da legenda estavam presentes, além de uma delegação socialista.
"Não temos medo da extrema direita; a luta contra o racismo é uma luta que venceremos", exclamou Bally Bagayoko. "Somos a França!"
O prefeito, alvo de ataques desde sua vitória no primeiro turno, em 15 de março, denunciou "a irresponsabilidade de um grupo de veículos de comunicação racistas que estão alimentando o racismo", e convocou outro protesto para 3 de maio.
Em 27 e 28 de março, no canal CNews, pertencente ao grupo Bolloré, Bagayoko foi comparado à "família dos grandes símios" e acusado de comportamento "machista".
O líder Jean-Luc Mélenchon denunciou "uma onda repugnante de racismo vinda das elites políticas e midiáticas que, sem restrições ou reservas, demonstraram seu desprezo por uma parcela do nosso povo".
'Racismo não é opinião'
"Racismo é crime, e ainda assim está sendo tratado como opinião", lamentou Karim, um funcionário público de 52 anos que mora em Livry-Gargan e participou da manifestação. Kantéba Camara-Sissoko, de 55 anos, cuidadora de crianças, veio expressar sua "indignação". "Pensei: 'Devo estar sonhando, isso é um pesadelo'", disse ela, recém-eleita pelo Partido Comunista de Gennevilliers. "Queremos muitos prefeitos negros", dizia uma das placas dos manifestantes.
Já Sara, uma estudante de direito de 26 anos nascida em Saint-Denis, foi "apoiar Bally" diante dos "ataques inaceitáveis" que ele vem sofrendo. "Há membros do Partido Socialista aqui, mas foram eles que atiraram a primeira pedra", acusou ela, referindo-se ao ex-prefeito Mathieu Hanotin, que durante a campanha havia afirmado que traficantes de drogas estavam pedindo votos para Bally Bagayoko.
O prefeito de La Courneuve, Aly Diouara, também afirmou que o partido precisava "se organizar ou sair" do protesto. Pelo X, o deputado socialista Jérôme Guedj ofereceu seu "apoio total" ao protesto.
Silêncio de Macron
O prefeito vem denunciando há vários dias o "silêncio" do presidente Emmanuel Macron sobre o assunto, e criticou a ausência de integrantes do governo no protesto antirracista. O ministro da Educação, Edouard Geffray, disse esta manhã que "não é lugar de ministro estar em uma manifestação cidadã". Ele acrescentou, no entanto, que "a luta é totalmente compartilhada pelo governo e pelo Estado".
O canal CNews afirmou que "nega formalmente quaisquer comentários racistas" feitos em suas programas, e afirma que os comentários foram "deliberadamente distorcidos nas redes sociais, alimentando uma controvérsia infundada".
Na quinta-feira, o Ministério Público de Paris anunciou que abriu uma investigação por "insulto público com base em origem, etnia, nacionalidade, raça ou religião", um dia depois de Bagayoko ter registrado uma queixa. Em uma entrevista à AFP, ele também pediu o fechamento do canal.
Com AFP