No coração da Europa, em 2015, o assassinato de cartunistas e jornalistas por alegadamente insultarem Deus ainda choca, apesar do número crescente de ataques desse tipo nos últimos anos.
Na Europa racional e pós-iluminista, a religião foi relegada a um lugar seguro, com o judaísmo e o cristianismo como alvos seguros de sátira em sociedades ocidentais seculares.
Ataque à revista satírica Charlie Hebdo deixou 12 mortos em Paris na quarta-feira/ Foto: AFP
Mas não em relação ao Islã. A batalha interna entre sunitas e xiitas, tão evidente nas guerras no Oriente Médio, e a luta entre interpretações extremistas do Islã, como as do grupo Estado Islâmico, e muçulmanos que desejam praticar sua religião em paz, agora está sendo travada nas ruas da Europa, com consequências potencialmente devastadoras para a coesão social.
Este último ataque pode ser resultado de "lobos solitários" mas suas consequências vão repercutir em toda a Europa e provocam muita reflexão sobre o fracasso da integração ao longo das últimas décadas.
Comunidades de imigrantes já são vistas com crescente desconfiança na França e na Alemanha, com suas significativas populações muçulmanas, e até mesmo, na Grã-Bretanha.
A França tem a maior população muçulmana da Europa, com cerca de cinco milhões de pessoas ou 7,5% da população. A Alemanha tem quatro milhões, ou 5% da população, e na Grã-Bretanha são três milhões, também 5% da população.
Foto: AFP
França registrou diversos ataques de "lobos solitários" antes do Natal/ Foto: AFP
Em todos estes três países, os principais partidos políticos estão sendo obrigados a enfrentar o descontentamento popular com os níveis de imigração e o aparente desejo de alguns mais jovens, filhos ou netos de famílias de imigrantes, de não adotar o estilo de vida ocidental e liberal - incluindo tradições de tolerância religiosa e livre discurso.
Na Grã-Bretanha, esse mal-estar tem sido debatido na cena pública de uma maneira mais pacífica.
A fátua contra o escritor Salman Rushdie há mais de 20 anos após a publicação de Os Versos Satânicos, forçando-o a se esconder por vários anos, talvez tenha sido a primeira vez que a questão atingiu a consciência britânica, embora os ataques de 7 de julho de 2005 tenham sido um lembrete de que a violência extremista também pode atingir o coração da Grã-Bretanha.
No entanto, a França teve muito mais violência em suas ruas em nome da religião nas últimas décadas, embora tenha tentado associar a maior parte dos recentes ataques a ações de "lobos solitários", como atos de indivíduos mentalmente desequilibrados.
Mas alguns membros da comunidade judaica do país têm respondido à crescente onda de anti-semitismo e à morte de judeus na França e na Bélgica por extremistas islâmicos.
Foto: AFP
Milhares de alemães marcharam em apoio a grupo "anti-islamização"/ Foto: AFP
Ataques recentes a sinagogas e a judeus nos subúrbios de Paris - onde judeus e muçulmanos vivem, muitas vezes, lado a lado em áreas mais pobres como Sarcelles - apenas exacerbou os temores de que a violência em nome da religião, visível em partes da África e do Oriente Médio, e que tantos tentam escapar fugindo para a Europa, seguiu-os até aqui.
A Alemanha também tem visto um aumento crescente do sentimento anti-Islã em suas cidades, no momento em que preocupações em relação a jovens muçulmanos radicalizados deixam partidos de extrema-direita e neo-nazistas e partem para o centro da política, como visto na recente popularidade do movimento Pegida, que faz campanha contra a "islamização" da Europa.
Líderes políticos e religiosos na Alemanha se manifestaram contra o movimento, e marchas de oposição foram realizadas, mas os temores do Pegida trouxeram milhares para as ruas.
Os assassinatos da Charlie Hebdo são um lembrete profundamente indesejável para o Ocidente de que, para alguns, principalmente jovens radicalizados, a interpretação fundamentalista que têm da religião é o suficiente para matar aqueles que, na visão deles, a ofendem.
Como resultado, na Europa ocidental, sociedades liberais estão começando a se dividir sobre a melhor forma de lidar com o islamismo radical e o impacto sobre seus países, enquanto governos agonizam sobre uma potencial reação contra muçulmanos que vivem na Europa.
Organizações muçulmanas tradicionais na Grã-Bretanha e França condenaram os assassinatos de forma inequívoca, dizendo que terrorismo é uma afronta ao Islã.
Mas a potencial reação, incluindo apoio a partidos e grupos de extrema-direita, pode também ferir muçulmanos comuns mais do que ninguém, deixando autoridades e líderes religiosos na Europa Ocidental pensando em como enfrentar a violência em nome da religião, sem vitimizar minorias ou serem acusados de "islamofobia".
Suspeitos de atentado em Paris fazem refém e são cercados:
A revista satírica "Charlie Hebdo", que foi ameaçada no passado por ter publicado caricaturas de Maomé, foi alvo nesta quarta-feira em Paris de um ataque
Foto: AFP
Ao menos 12 pessoas morreram em ataque
Foto: AFP
Quatro cartunistas e dois policiais estão entre as vítimas fatais
Foto: AFP
O presidente francês afirmou que se trata de um ataque terrorista
Foto: Christian Hartmann / Reuters
Equipes de segurança e emergência estão no local
Foto: Christian Hartmann / Reuters
Homens armados atacam sede de revista francesa; tiroteio deixa ao menos 12 mortos
Foto: The Telegraph / Reprodução
Homens armados atacam sede de revista francesa; tiroteio deixa ao menos 12 mortos
Foto: The Telegraph / Reprodução
Ao menos dois homens armados atacaram a sede da revista em Paris
Foto: The Telegraph / Reprodução
Vítimas são retiradas no prédio
Foto: The Telegraph / Reprodução
Bombeiros e policiais trabalham no resgate das vítimas do ataque terrorista contra a revista satírica "Charlie Hebdo"
Foto: Philippe Wojazer / Reuters
Vítima do atentado à revista "Charlie Hebdo" é socorrida por bombeiros
Foto: <p>Vítima do atentado à revista "Charlie Hebdo" é socorrida por bombeiros</p>
Ao todo, doze pessoas foram mortas no atentado, incluindo três cartunistas e o editor-chefe da revista
Foto: <p>Ao todo, doze pessoas foram mortas no atentado, incluindo três cartunistas e o editor-chefe da revista</p>
Pessoas se abraçam em frente ao escritório da revista "Charlie Hebdo" após atentado
Foto: Remy de la Mauviniere / AP
A Torre Eiffel de Paris, um dos monumentos mais emblemáticos do mundo, apagou sua luzes em homenagem às vítimas do atentado.
Foto: AFP
Forças policiais de intervenção procuram dois suspeitos de cometerem o atentado
Foto: Christian Hartmann / Reuters
Policial faz vigília em Porte de la Villete, um dos acessos da cidade de Paris, durante a busca pelos suspeitos do atentado.
Foto: EFE en español
Policiais franceses com um cão farejador em local de tiroteio perto de Paris. 08/01/2015
Foto: Christian Hartmann / Reuters
Cartazes de solidariedade na Praça da República em Paris
Foto: EFE en español
Cherif (esquerda) e Said Kuachi, os dois suspeitos do ataque à revista satírica Charlie Hebdo.
Foto: AP
Franceses e brasileiros se uniram em homenagem aos mortos no atentado contra a revista francesa, em Paris
Foto: André Naddeo / Terra
Um cartaz onde está escrito "Somos todos Charlie Hebdo" é erguido na embaixada francesa em Washington, nos EUA
Foto: Gary Cameron (UNITED STATES - Tags: POLITICS CRIME LAW CIVIL UNREST) / Reuters
Homem exibe cartaz com a mensagem "Eu Sou Charlie", em referência à revista francesa Charlie Hebdo, durante vigília na praça Republique, em Paris, em homenagem às vítimas do atentado ocorrido na redação da publicação, nesta quarta-feira. 07/01/2015
Foto: Youssef Boudlal / Reuters
Jornalistas da redação da agência AFP seguram cartazes em solidariedade às vítimas do ataque à revista Charlie Hebdo, em Paris
Foto: Bertrand Guay / AFP
Mulher segura cartaz com a frase "Eu sou Charlie" em frente ao Portão de Brandemburgo, perto da embaixada francesa em Berlim, para protestar contra o atentado à revista satírica francesa Charlie Hebdo. 07/01/2015
Foto: Fabrizio Bensch / Reuters
Atos de apoio a vítimas de ataque se espalham pela Europa
Foto: EFE
Governo francês elevou o alerta contra terrorismo ao nível máximo
Foto: AFP
Milhares de pessoas participam de uma vigília, na praça Republique, no centro de Paris
Foto: EFE en español
Uma pessoa ferida é transportada em uma ambulância depois do tiroteio
Foto: AP
Policiais investigam tiroteio na sede da revista francesa Charlie Hebdo, em Paris, na França, nesta quarta-feira. 07/01/2015
Foto: Youssef Boudlal / Reuters
Capa do dia da revista Charlie Hebdo, nesta quarta-feira
Foto: BBC Brasil / Reprodução
Nesta imagem de arquivo, o cartunista Charb, que ocupava o cargo de editor-chefe da revista, posa na redação da Charlie Hebdo, em Paris
Foto: Jacky Naegelen / Reuters
Polícia busca os culpados pelo atentado terrorista na revista satírica francesa
Foto: Reuters
Polícia fecha posto onde suspeitos teriam sido vistos na manhã seguinte ao atentado
Foto: Twitter
Funcionários do portal Mashable também realizaram uma homenagem aos jornalistas que morreram no atentado
Foto: Mashable / Twitter
Milhares de pessoas se reuniram em Paris, em homenagem às vítimas do sangrento atentado contra a revista humorística Charlie Hebdo
Foto: Twitter
Jornalistas da AFP protestam contra o ataque segurando cartazes
Foto: Loic Venance / AFP
Policiais buscam evidências enquanto homem não identificado é detido em operação na cidade francesa de Reims. 08/01/2015
Foto: Christian Hartmann / Reuters
"Nossa melhor arma é a nossa união. Nada pode nos dividir, nada deve nos separar", declarou Hollande, chefe de Estado da França
Foto: Philippe Wojazer / Reuters
Atos foram convocados por vários sindicatos, associações, meios de comunicação e partidos políticos
Foto: Reuters
Cerca de cinco mil pessoas se reuniram a partir das 17h locais (14h de Brasília) na praça da República, perto da sede do semanário.
Foto: Reuters
Diversos cartazes foram levantados em memória dos que morreram no ataque
Foto: Reuters
Velas foram acesas em homenagem às vítimas da revista semanal
Foto: Reuters
Ataque deixou 12 pessoas mortas na redação da revista
Foto: Reuters
Flores foram levadas para o ato em homenagem às vítimas do atentado
Foto: Reuters
Manifestação durou a noite toda em Paris
Foto: Reuters
Milhares de pessoas participam de uma vigília, na praça Republique, no centro de Paris
Foto: AFP
Alguns usavam adesivos e cartazes onde se podia ler a mensagem "Je suis Charlie" ("Eu sou Charlie"), que também circula nas redes sociais
Foto: AFP
Polícia revista pessoa que andava no entorno do mercado onde terroristas fizeram reféns
Foto: Dan Kitwood / Getty Images
População local observa cerco da polícia ao mercado judaico em Paris
Foto: Dan Kitwood / Getty Images
Ambulâncias e resgate foram disponibilizados para os sobreviventes da invasão.
Foto: Michel Euler / AP
População que ficou presa dentro do mercado saiu correndo do local; informações iniciais apontam que quatro reféns morreram na operação.
Foto: Michel Euler / AP
Polícia foi obrigada a usar força dentro mercado, matando um dos terroristas e libertando dezenas de reféns presentes no local. Um refém acabou morto e a sequestradora fugiu.
Foto: Dan Kitwood / Getty Images
Perímetro foi isolado pelas forças de segurança, que trabalham ativamente desde quarta-feira, quando 12 pessoas foram mortas dentro da sede da Charlie Hebdo.
Foto: Gonzalo Fuentes / Reuters
Grande contingente policial francês foi deslocado para tentar solucionar a questão.
Foto: Dan Kitwood / Getty Images
Respectivamente, Hayat Boumediene e Amedy Coulibaly, que mantiveram reféns no mercado judaico.
Foto: Twitter
O casal terrorista Hayat Boumediene e Amedy Coulibaly fez reféns dentro de um mercado judeu no leste de Paris, nesta sexta-feira. Outras três pessoas foram mortas por eles.
Foto: Gonzalo Fuentes / Reuters
Ao todo, cerca de 88 mil homens das forças armadas francesas participaram, por três dias, da caçada ao suspeito de envolvimento no ataque a revista Charlie Hebdo
Foto: Twitter
Por fim, a polícia invadiu o local e matou os dois irmãos. O refém foi liberado e passa bem.
Foto: Twitter
A polícia falou por celular com os irmãos durante o cerco a fábrica.
Foto: Twitter
Cerco policial foi formado para capturar os irmãos Said e Cherif Kouachi.
Foto: Christian Hartmann / Reuters
Os terroristas mantiveram um refém dentro de uma fábrica ao nordeste de Paris.
Foto: Pascal Rossignol / Reuters
Cherif Kuachi e Said Kuachi, irmãos suspeitos do atentado terrorista na revista Charlie Hebdo na quarta-feira, foram vistos na manhã desta sexta na cidade de Dammartin-en-Goele, no norte da França.
Foto: Thibault Camus / AP
Chinesa carrega cartaz em homenagem ao jornal alvo dos ataques na última quarta-feira, em francês e chinês
Foto: Reuters
Premiê de Israel, Benjamin Netanyahu chega a Grande Sinagoga de Paris para discurso em homenagem às vítimas do ataque ao mercado kosher
Foto: Reuters
O presidente francês, Francois Hollande, conforta o colunista do Charlie Hebdo Patrick Pelloux durante a marcha pela liberdade
Foto: Reuters
Pessoas escalam o monumento da Queda da Bastilha durante os últimos momentos da marcha pela liberdade
Foto: EFE
Jovens sobem no monumento 'O Triunfo da República', no fim da marcha pelas ruas de Paris
Foto: Fernando Diniz / Terra
Cartaz que foi o mote da manifestação, "Eu sou Charlie" é visto no meio da manifestação
Foto: Reuters
Manifestação foi até o cair, com velas sendo acendidas pelos franceses
Foto: Reuters
No dia 14 de janeiro, franceses fizeram fila para comprar a primeira edição da revista após o ataque terrorista
Foto: Bertrand Guay / AFP
Fila é formada em banca de jornais; franceses encontraram dificuldades em comprar o Charlie Hebdo
Foto: Fernando Diniz / Terra
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