Incêndios, ondas de calor e seca fazem de julho de 2026 o mês mais quente da história da França
Julho de 2026 foi o mês mais quente já registrado na França e um dos mais secos desde o início das medições, em 1900, segundo a agência meteorológica local Météo-France. A temperatura média do mês atingiu 24,9°C, superando os recordes anteriores de agosto de 2003 (24,8°C) e julho de 2006 (24,4°C). O desvio em relação à média do período 1991-2020 foi de 3,8°C acima do normal, uma das maiores anomalias já observadas no país. Até a próxima safra de vinhos nacionais pode ser prejudicada.
Ondas de calor, seca, incêndios: o mês de julho de 2026 ficará marcado na história como o mais quente e um dos mais secos já registrados na França, ilustrando uma mudança climática cujos efeitos se intensificam.
A anomalia de temperatura em relação à média do período 1991-2020, já calculada com base em um clima aquecido pelas atividades humanas desde 1850-1900, alcançou, assim como em junho, +3,8°C. No caso das temperaturas máximas, o desvio chegou a 5,2°C acima da média sazonal.
"Trata-se da segunda maior anomalia mensal já registrada", atrás apenas de fevereiro de 1990 (+4°C), informou a agência meteorológica francesa em comunicado.
Ondas de calor cada vez mais frequentes
Julho de 2026 foi marcado por duas ondas de calor. A primeira, entre 4 e 19 de julho, foi a terceira mais longa já registrada na França. A segunda começou em 28 de julho e continua em andamento.
Fenômenos extremos como esses estão cada vez menos excepcionais. A Météo-France lembra que mais da metade das 54 ondas de calor registradas no país ocorreram nos últimos 15 anos. Sob o efeito das mudanças climáticas, esses episódios tornam-se "cada vez mais frequentes", "começam cada vez mais cedo na estação" e atingem temperaturas cada vez mais elevadas.
Em julho, outros países europeus também enfrentaram períodos de calor intenso, entre eles Hungria, Áustria e Grécia, onde os termômetros chegaram perto ou até ultrapassaram os 40°C.
Desde o fim de maio, a França já enfrentou quatro episódios de calor intenso, incluindo um evento historicamente severo no fim de junho. E talvez ainda não tenha acabado. Para agosto, setembro e outubro, a Météo-France considera mais provável um cenário de temperaturas acima da média, em um contexto de "persistência de bloqueios anticiclônicos".
Julho de 2026: terceiro mês de julho mais seco
Com um déficit de chuvas de quase 70%, julho de 2026 também foi o terceiro mês de julho mais seco já registrado na França, agravando ainda mais a seca superficial dos solos observada há dois meses.
No fim de julho, "os solos estavam ainda mais secos do que em 2022 e 2025 no mesmo período e atingiram níveis equivalentes aos mais baixos já registrados" em meados de agosto de 2022, informou a Météo-France. Essa seca recorde, combinada ao calor intenso, traz graves consequências para a agricultura e favorece o surgimento e a propagação de incêndios.
No fim de julho, um megaincêndio, caracterizado por sua intensidade, rápida propagação e dificuldade de controle, devastou cerca de 42 mil hectares, segundo estimativas preliminares, e provocou a evacuação de mais de 220 mil pessoas na região de Bordeaux, na Gironda. Em termos de área queimada, um desastre dessa magnitude não era registrado na França continental e na Córsega desde agosto de 1949.
Safra de vinhos afetada após calor e seca
As sucessivas ondas de calor, a seca e fenômenos extremos como tempestades, granizo e incêndios lançaram incertezas inéditas sobre a safra de vinhos de 2026 na França.
Diante da dificuldade para avaliar o impacto das condições climáticas no desenvolvimento das videiras, o Ministério da Agricultura decidiu adiar para setembro sua tradicional estimativa de produção, normalmente divulgada no início de agosto. Segundo autoridades e representantes do setor, os efeitos do calor variam de uma região para outra, tornando as previsões pouco confiáveis neste momento.
Em algumas áreas, as altas temperaturas aceleraram o calendário das vindimas, enquanto em outras provocaram um fenômeno conhecido como "bloqueio da maturação", retardando o desenvolvimento das uvas. Há relatos de frutos queimados pela seca, cachos menores e perdas de produtividade em vinhedos sem irrigação.
Apesar das dúvidas sobre o volume da colheita, os produtores destacam que a qualidade das uvas permanece promissora graças à baixa incidência de doenças. O episódio, porém, reforça os desafios impostos pelas mudanças climáticas a um setor que já enfrenta queda no consumo e dificuldades econômicas.
RFI e AFP
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