Primeiro-ministro da Turquia, Tayyip Erdogan, cumprimenta seus partidários, em Ancara, em 30 de março
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O primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan, prometeu acertar contas com os inimigos depois da grande vitória nas eleições municipais de domingo, o que permite prever novas tensões em um país dividido por escândalos e polêmicas.
Os que esperavam uma mensagem de paz estavam equivocados. Pouco depois do anúncio dos resultados, Erdogan retomou a retórica agressiva da campanha contra a oposição e em particular contra os "traidores" da organização do imã Fethullah Gülen.
"Vamos buscá-los até em seus esconderijos", prometeu ante milhares de partidários reunidos diante da sede do Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP) em Ancara.
Acusado de corrupção, abalado pela divulgação nas redes sociais de escutas telefônicas comprometedoras, Erdogan venceu com ampla vantagem o "referendo" de domingo.
Os candidatos de seu partido receberam 45,5% dos votos, muito à frente do principal grupo de oposição, o Partido Republicano do Povo (CHP). O AKP, inclusive, conseguiu conservar as duas maiores cidades do país, Istambul e Ancara, a capital.
O partido de Erdogan, que venceu todas as eleições desde 2002, recebeu 38,8% dos votos nas eleições locais de 2009 e quase 50% nas legislativas de 2011.
Um ano antes do fim de seu terceiro e último mandato como chefe de Governo, o êxito eleitoral confiram o poder de Erdogan à frente do país.
A grande vitória poderia convencê-lo a disputar a presidência nas eleições de agosto, quando será disputada pela primeira vez com sufrágio universal direto. Mas também poderia optar por seguir com a carreira de primeiro-ministro nas legislativas de 2015, modificando para isto os estatutos de seu partido.
"Vencedor das eleições (municipais), provavelmente disputará a presidência", prevê o cientista político Soner Cagaptay, do Washington Institute, que advertiu que Erdogan "irritará os liberais, os 'gulenistas' e a oposição laica".Depois de 12 anos de poder na Turquia, o primeiro-ministro continua sendo o personagem mais carismático do país, e também o mais polêmico. Aclamado por aqueles que o consideram o líder do crescimento econômico do país, mas criticado por muitos que o encaram como um "ditador" islâmico.
Outubro de 2012 - o governo de Ankara proíbe uma marcha planejada para o Dia da República, sob a alegação de que serviços de segurança do Estado receberam a informação de que grupos pretendiam causar tumultos. Ainda assim, milhares de pessoas, incluindo o líder do maior partido da oposição, desconsideram a ordem e desafiaram os policiais, que reagiram com lançamento de jatos d'água
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Fevereiro de 2013 - milhares de mulheres turcas protestam contra declaração do primeiro-ministro Erdogan de que considera o aborto um assassinato. Na Turquia, o aborto é legal nas 10 primeiras semanas de gestação quando há consentimento da mulher e do marido
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Abril de 2013 - começam as escavações para a construção da controversa mesquita Camlica, em Istambul, de mais de 55 mil metros quadrados e com capacidade para até 30 mil fieis. O projeto recebe críticas da população, que, além de julgar a construção desnecessária, acredita que ela causará grandes danos ao meio ambiente
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Abril de 2013 - conhecido mundialmente, o renomado pianista turco Fazil Say é condenado a 10 meses de prisão por insultar as crenças religiosas de uma parcela da população. O fato causa revolta de simpatizantes do músico, ateu e opositor de Erdogan
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Maio de 2013 - policiais recorrem à violência para dispersar manifestantes que participam do May Day, na praça Taksim. A população protesta contra o fechamento da praça, considerada necessária pelo governo para a sua renovação
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Dois carros-bomba matam 52 pessoas e ferem outras 140 em Reyhanli, na fronteira com a Síria. O governo turco acusa o governo sírio de estar envolvido no atentado, mas moradores locais culpam a própria política turca
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Erdogan se encontra com o presidente Barack Obama para discutir, entre outros assuntos, a crise na Síria. Ambos reforçam o compromisso de derrubar o presidente Bashar al-Assad, apesar da crescente impopularidade de Erdogan entre os cidadãos turcos
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O governo turco aprova a lei que proíbe a venda de bebidas alcóolicas entre 22h e 6h, o patrocínio de eventos por empresas de bebidas e o consumo de álcool a menos de 100 metros de mesquitas. A lei é aprovada duas semanas após ser proposta, sem que a população tenha sido consultada
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Em resposta à advertência feita por Erdogan contra demonstrações de afeto em público, dezenas de casais organizam um beijaço em uma estação de metrô na cidade de Ankara
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Manifestantes ambientalistas acampam no Parque Gezi para evitar sua demolição. Conforme a manifestação é violentamente contida pela polícia, outros protestos se espalham em outras regiões
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Maio de 2013 - forças de segurança usam gás de pimenta e jatos d'água para dispersar manifestantes. Centenas de pessoas ficam feridas e dezenas são presas. O Ministro do Interior comunica que o uso desproporcional da força por parte dos policiais será investigado
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Junho de 2013 - o primeiro-ministro Erdogan critica as redes sociais , especialmente o Twitter, classificando o microblog como uma ameaça e uma "versão extrema da mentira". Grupos de manifestantes lotam a praça Taksim e há novos confrontos. A mídia pró-governo acusa a rede de TV americana CNN de mostrar a Turquia em estado de guerra civil
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Agosto de 2013 - pessoas formam correntes humanas para pedir paz e intervenção na Síria
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Dezembro de 2013 - escândalos de corrupção envolvendo o primeiro-ministro e seu filho vem à tona, e recomeçam os protestos contra o regime
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Janeiro de 2014 - ligações telefônicas publicadas na internet reforçam as acusações de corrupção contra o primeiro-ministro Erdogan, e o governo ameaça exercer maior controle sobre a rede, dando origem a novas marchas
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Março de 2014 - o Governo bloqueia o Twitter e, depois, o Youtube. Milhares de pessoas participam do funeral de um adolescente morto, que ficou meses em coma depois de ter sido atingido por uma lata de gás de pimenta durante manifestações contra o governo. A população pede a renúncia do primeiro-ministro Erdogan
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Erdogan recebeu o primeiro alerta em junho de 2013, quando milhões de turcos exigiram sua renúncia nas ruas. Há três meses enfrenta um escândalo de corrupção inédito.
Em resposta, o governo de Erdogan intensificou as medidas autoritárias. O bloqueio das redes sociais Twitter e YouTube provocaram uma avalanche de críticas, na Turquia e no exterior.
Neste contexto, uma candidatura presidencial poderia reforçar as tensões em um país já muito dividido.
"Erdogan se sentirá invencível agora", afirma Brent Sasley, da Universidade do Texas.
"Provavelmente tentará de tomar a revanche contra os que, em seu julgamento, tentaram prejudicá-lo e até provocar sua queda".
"O tom do discurso sugere que Erdogan não vai abandonar a estratégia de confronto e é muito provável que este ambiente político muito elétrico continue até a eleição presidencial de agosto", opina o economista Deniz Cicek, analista do Finansbank de Istambul.
"Nada será como antes. O primeiro-ministro escolheu avançar no caminho da divisão", lamentou Devlet Bahçeli, presidente do Partido da Ação Nacionalista (MHP), terceiro colocado nas municipais de domingo.
O mercado financeiro comemorou a vitória do AKP e a lira turca registrava forte alta.
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