EUA e Irã chegam a acordo de paz; Trump diz que a assinatura já ocorreu e detalhes serão divulgados em breve; o que se sabe
Primeiro-ministro do Paquistão anunciou que assinatura oficial deve acontecer na próxima sexta-feira na Suíça.
O presidente americano, Donald Trump, afirmou que um acordo preliminar para encerrar a guerra com o Irã já foi assinado e disse que os detalhes do documento devem ser divulgados "muito em breve".
"Estou muito feliz em dizer que está assinado, o acordo está totalmente assinado", afirmou durante conversas com o presidente francês, Emmanuel Macron, na cúpula do G7 nesta segunda-feira (15/6).
Segundo autoridades dos EUA, o acordo foi assinado eletronicamente por Trump, o vice-presidente JD Vance e pelo presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf.
"É um documento muito poderoso, e eu quero que ele seja divulgado. Então provavelmente em breve", disse Trump.
O acordo estenderá o cessar-fogo por mais 60 dias, período durante o qual os dois países negociarão os detalhes de um acordo final.
O anúncio de que Irã e Estados Unidos tinham chegado a um acordo foi dado por Trump na noite de domingo (14/6), por meio de uma publicação na rede social Truth Social.
Trump se manifestou após declaração do primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, anunciando um acordo de paz entre americanos e iranianos. O conflito entre Irã e EUA começou em 28 de fevereiro.
"Ambos os lados declararam o fim imediato e permanente das operações militares em todas as frentes, inclusive no Líbano", disse em comunicado.
Nesta segunda, integrantes do alto escalão do governo americano começaram a detalhar o conteúdo do acordo, informando em um briefing que o Estreito de Ormuz seria reaberto na sexta-feira (19/6), mesma data em que o acordo será formalmente assinado em Genebra.
Mais cedo, em uma publicação nas redes sociais, Trump afirmou que "navios já estão começando a se mover, muitos carregados de petróleo, saindo do Estreito de Ormuz".
O primeiro-ministro paquistanês afirmou que "mediadores irão facilitar uma série de reuniões nesta semana", e que estas serão "discussões prévias à implementação que lançarão as bases para as negociações técnicas e a cerimônia oficial de assinatura".
Em um telefonema transmitido pela TV estatal do Irã, vice-ministro das Relações Exteriores do país, Kazem Gharibabadi, confirmou que o acordo será firmado na sexta-feira na Suíça.
"Um fim imediato e permanente à guerra e às operações militares em diferentes frentes, incluindo o Líbano, será anunciado esta noite", disse ele, acrescentando que o bloqueio naval dos EUA contra o Irã também será suspenso neste domingo.
Os mercados na Ásia reagiram com forte alta à notícia.
O índice Nikkei 225 do Japão subiu cerca de 5%, enquanto o Kospi da Coreia do Sul teve alta de 4,8%.
Os mercados de ações da região têm apresentado grande volatilidade nos últimos meses, com as ações frequentemente subindo ou caindo em resposta aos desdobramentos da guerra entre EUA e Israel contra o Irã.
As economias asiáticas foram fortemente afetadas pelo fechamento do estreito de Ormuz, pois dependem do Oriente Médio para o fornecimento de petróleo e gás.
O que se sabe sobre o acordo
Nesta segunda, o vice-presidente JD Vance disse ao apresentador Jake Tapper, da CNN, que o memorando de entendimento (MOU) entre os EUA e o Irã tinha "cerca de uma página e meia" e era um documento bastante geral.
Vance acrescentou que muitos dos detalhes ainda serão definidos em negociações futuras.
"Em várias questões, vamos ter que resolver isso durante a fase de negociação técnica, mas o que o MOU faz é estabelecer uma estrutura pela qual os iranianos recebem os benefícios do acordo ao cumprirem suas obrigações dentro dele", afirmou.
No primeiro parágrafo do documento, está previsto que o Irã se comprometerá com a "paz e estabilidade regional", disse Vance, acrescentando que isso inclui a interrupção do financiamento de "organizações terroristas".
"Mais importante ainda, eles terão um compromisso verificável de não construir uma arma nuclear", afirmou Vance.
Apesar de detalhes do acordo ainda não terem sido divulgados, repórteres da BBC dizem que o futuro do programa nuclear iraniano, que é um dos pontos centrais na disputa entre os EUA e o Irã, segue incerto.
O correspondente da BBC nos EUA, Anthony Zurcher, afirma que "ao que tudo indica, o futuro do programa nuclear iraniano - a razão declarada por Trump para o início da guerra - está sujeito a novas negociações".
O repórter da BBC Tom Bateman, que cobre o Departamento de Estado dos EUA, disse que a prioridade do novo acordo será estender o cessar-fogo de 8 de abril por mais 60 dias sem hostilidades, com o fim do bloqueio americano em troca pela abertura do estreito de Ormuz, enquanto ambos os lados se comprometem com negociações.
"Ainda não temos o texto completo, mas, com base na forma como o acordo estava sendo apresentado pelo governo no final da semana passada, ele não resolve de forma conclusiva as questões que aparentemente motivaram o ataque de Trump, nem aquelas que levaram à agressiva retaliação iraniana", diz Bateman.
"Para chegar a algo que ambos os lados possam apresentar como uma vitória, Trump precisa de uma proibição de longo prazo (pelo menos 20 anos) e verificável do enriquecimento nuclear por Teerã."
"O Irã precisa de um alívio abrangente das sanções e acesso a dezenas de bilhões de dólares em receitas petrolíferas congeladas. Essas questões sempre foram pontos centrais de atrito."
Bateman diz que, embora o acordo fale em "entendimentos" para futuras discussões, "até onde sabemos, ele não contempla nenhum deles de forma significativa".
O principal correspondente da BBC nos EUA, Gary O'Donoghue, disse que o acordo anunciado é, na verdade, "apenas o começo".
"Ele vai dar início a um período de 60 dias durante o qual os EUA e o Irã terão que concordar sobre como destruir e remover o material nuclear iraniano. Isso, por si só, pode facilmente fracassar", diz O'Donoghue.
"O status exato do estreito de Ormuz também é um ponto sobre o que ainda existem opiniões divergentes."
"Muitas dessas questões permanecerão sem resposta até que o texto final completo seja divulgado."
O'Donoghue destaca que nem Israel e nem o Hezbollah serão signatários do acordo — e que ainda não está claro o que acontecerá em relação ao conflito entre Israel e o Líbano.
Israel diz que permanecerá no Líbano
Autoridades dos EUA disseram que, embora o Líbano esteja incluído no marco do cessar-fogo, a retirada das forças israelenses do território libanês não é uma condição do acordo. Israel, acrescentaram, manteria o direito à autodefesa.
Em pronunciamento na noite de segunda-feira (15/6), o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, afirmou que as forças israelenses permanecerão em zonas de segurança no Líbano, na Síria e em Gaza "pelo tempo que for necessário", além de manterem liberdade de ação contra ataques.
Ele também declarou em coletiva de imprensa que o Irã não será autorizado a obter armas nucleares, com ou sem acordo.
Netanyahu falou após a mídia libanesa relatar um ataque israelense mortal contra um carro no sul do país — o primeiro desde o anúncio do acordo de paz. O grupo Hezbollah afirmou ter lançado mísseis e drones contra forças israelenses em resposta.
Já o ministro da Segurança Nacional de Israel, Itamar Ben-Gvir, que é um político da direita radical, criticou o acordo nesta segunda-feira (15/06).
"Não somos parceiros deste acordo que não garante nossa segurança e não nos vincula de forma alguma", disse Ben-Gvir.
Ele diz que Israel não deve se contentar com nada menos do que "o desmantelamento do Hezbollah", instando à continuidade das ações contra o grupo político armado libanês.
Ben-Gvir tem criticado frequentemente seu próprio governo e já sofreu sanções impostas pelo Reino Unido e outros países por "repetidas incitações à violência contra comunidades palestinas".
Reações
O presidente do Líbano, Joseph Aoun, saudou o anúncio e disse em comunicado que espera que os entendimentos se traduzam em "medidas práticas que ponham fim definitivo ao ciclo de violência".
O Egito também elogiou o anúncio. O Ministério das Relações Exteriores descreveu o acordo como uma "novidade altamente significativa" que restaurará a "segurança e a estabilidade" na região e em todo o mundo.
Em comunicado, o Egito afirmou que o acordo é fruto de meses de esforços conjuntos de parceiros regionais e internacionais e abre "um novo capítulo".
E disse ainda esperar que este seja "um ponto de virada importante" na criação de "um ambiente favorável à paz" e na resolução de outras questões no Oriente Médio.
A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, saudou o acordo, mas afirmou que "a prioridade agora é a sua implementação rápida e completa por todas as partes".
Von der Leyen defendeu a "reabertura imediata do estreito de Ormuz", descrevendo a liberdade de navegação como "essencial para a estabilidade regional e para a economia global".
Ela disse que o acordo abre caminho para negociações mais amplas sobre paz e segurança no Oriente Médio.
"E, claro, não pode haver paz no Oriente Médio enquanto o Líbano estiver em chamas. Mais uma vez, a Europa apela a todas as partes para que respeitem a soberania e a integridade territorial do Líbano e implementem um cessar-fogo genuíno", disse von der Leyen.
Ela lembrou que os líderes europeus que estarão reunidos em uma cúpula do G7 esta semana, na França, discutirão o assunto.
O presidente do Conselho Europeu, António Costa, disse que aguarda "com expectativa o fim desta guerra cara".
O premiê britânico, Keir Starmer, disse esperar que o acordo firmado entre os EUA e o Irã "restaure a liberdade de navegação no estreito de Ormuz".
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