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Estados Unidos

"Tínhamos certeza de que íamos morrer", diz operário de plataforma

17 mai 2018 - 18h04
(atualizado em 17/9/2018 às 17h07)
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A cerca de 80 km da costa, na grande plataforma petrolífera flutuando no mar calmo, um helicóptero pousou no início da manhã de 20 de abril carregando quatro executivos da companhia de petróleo BP. Eles visitavam a Deepwater Horizon para ajudar a honrar a tripulação por seu excelente histórico de segurança.

Fracassa primeira tentativa de tapar poço de petróleo no golfo do México
Fracassa primeira tentativa de tapar poço de petróleo no golfo do México
Foto: AP

Os operários da plataforma murmuravam por outra razão. Eles haviam quase concluído seu último trabalho. Foi um pouco complicado, mas nada com que não pudessem lidar.

Ao cair da noite, Micah Joseph Sandell, 40 anos, estava na pequena cabine de seu guindaste, três andares acima do convés tumultuado. Dois andares abaixo do heliponto, homens de macacão vermelho esperavam o jantar em um saguão sinalizado com placas de segurança douradas. Eugene Dewayne Moss, operador de guindaste de 37 anos, percebeu que precisaria parar de assistir a um filme para se aprontar para o turno noturno.

"Pensei: ah, não, preciso ir", lembrou Moss. "Me levantei e desliguei a TV".

Segundos depois, uma explosão enorme chacoalhou a plataforma, o início de uma noite aterrorizante para os homens que sobreviveriam a um dos mais angustiantes desastres da história da indústria petrolífera.

Por toda a embarcação, homens entraram em ação. Operários dormindo saltaram de suas camas. Então, veio uma segunda explosão, ainda maior que a primeira. Posteriormente, eles tiveram dificuldade de descrevê-la - um tornado de fogo, uma bomba nuclear, a explosão de um jato. Mas a meia dúzia de operários da plataforma entrevistada nesta semana concorda em uma coisa sobre aquele momento: "Tínhamos certeza de que íamos morrer", disse Dennis Dewayne Martinez, 30 anos, supervisor da plataforma.

Uma plataforma de última geração

A Deepwater Horizon era uma das mais sofisticadas plataformas de perfuração no planeta. Posta em funcionamento em 2001, a embarcação, com 120 m de proa a popa, podia estacionar no mar, triangular sua posição exata através de satélites e lançar água de uma série de propulsores para manter aquela posição. Mesmo com ondas batendo contra a quilha, a plataforma era capaz de se manter firme o bastante para a precisão necessária ao trabalho de enviar tubos de perfuração a mais de 9,6 km de profundidade, direto até o leito oceânico e para dentro da crosta terrestre.

Apenas um ano antes, a Horizon havia quebrado o recorde mundial ao penetrar 35 mil pés de água e rocha - quase 11 km ¿ no Golfo do México, criando o poço Tiber para a BP, a gigante petrolífera outrora conhecida como British Petroleum.

Dessa vez, a Horizon estava perfurando um poço de exploração a cerca de 75 km da costa de Louisiana, em uma faixa do leito oceânico conhecida como bloco Mississipi Canyon 252. BP e parceiros haviam pagado ao governo federal US$ 34 milhões pela concessão, e a tripulação da Horizon comemorou ao encontrarem petróleo na área.

Na ponte da plataforma naquela noite de abril, oficiais observavam de perto o Damon B. Bankston, um cargueiro de 79 m que aspirava uma lama específica de perfurações através de uma mangueira da plataforma. O trabalho de perfuração havia sido relativamente tranquilo ¿ alongando o poço, tubo por tubo, até alcançarem o óleo abaixo. Ao final, a tripulação empurrou um longo cano até o reservatório.

Problemas com acúmulo de gás

Conforme o trabalho avançava, porém, os operários tiveram problemas intermitentes com bolsões de gás natural. Altamente inflamável, o gás subia pelos canos de perfuração.

Era algo que a BP não havia considerado sério, declarando um ano antes que o gás provavelmente representaria um risco "insignificante". O governo americano alertou a companhia que o acúmulo de gás era uma preocupação real e que a BP deveria "agir com cautela".

A certo ponto nas semanas anteriores, tanto gás estava subindo à superfície que os anúncios pelos alto-falantes pediram a interrupção de toda "atividade quente", ou seja, fumar, soldar, cozinhar ou qualquer outro uso de fogo. Expelimentos menores, ou jatos de gás descontrolados, atrasaram os trabalhos que estavam terminando.

Em meados de abril, a tripulação estava nos estágios de limpeza da operação. No dia anterior à explosão, operários da empreiteira petrolífera Halliburton terminaram uma das tarefas mais delicadas da construção de um poço: o fechamento com cimento, adicionando uma tampa temporária de cimento próxima do final da tubulação para selar o poço.

Os operários da Halliburton utilizaram uma técnica pouco comum para o cimento, injetando gás nitrogênio na mistura para criar um tipo de musse. Esse tipo de cimento, se usado corretamente, forma uma vedação mais firme, mas é mais difícil de manusear.

Apesar disso, de modo geral, foi um trabalho rotineiro para a Horizon."Quase lá", disse um supervisor ao sair da reunião diária às 11h em 20 de abril. "Estamos quase prontos, baby!" Alguns haviam escutado que até ganhariam um bônus se terminassem antes do prazo.

Fúria explosiva

Aconteceu muito rápido. Pouco antes das 22h, a tripulação usava água do mar para tirar a lama da perfuração de dentro dos tubos. De repente, com fúria explosiva, água e lama foram violentamente expelidas dos tubos para o convés, seguidas pelo assovio fatídico do gás natural. Em segundos, ele atingiu alguma faísca ou flama.

Três andares acima do convés, a explosão lançou Sandell para fora de seu assento até o fundo de sua cabine. Enquanto descia com dificuldade pela escada, as chamas subiram de repente e o engolfaram. Outra explosão o fez voar a 7,5 m do chão.

"Eu fugi correndo", disse Sandell. "Como, eu não sei dizer". Ele se juntou a outros correndo em direção aos dois botes salva-vidas na proa da plataforma. Os homens estavam subindo uns sobre os outros para entrar nos barcos cobertos, com capacidade para 50 pessoas cada. O sondador assistente que deveria inspecionar os presentes - ou checar a lista de chamada - entrou em pânico. Ao invés disso, ele deu a Martinez a prancheta antes de entrar no bote.

"Depressa!", gritaram os homens já nos barcos. "Desça o bote!"Martinez disse que precisavam esperar pelos outros. Os homens nos barcos berraram que não havia mais tempo - a torre de 73 m no centro da plataforma estava envolta em chamas. Eles estavam certos de que ela cairia em sua direção.

Em um barco salva-vidas, um operário deitou-se no convés, tentando estancar o sangue jorrando de um corte profundo em seu pescoço. Alguns tentaram limpar dos olhos o material isolante das paredes de suas cabines, que haviam desabado. Outros ainda estavam untados com a lama marrom que saiu do poço depois da primeira explosão.

A maioria usava os coletes salva-vidas laranjas. Alguns deles, expulsos de seus beliches, não usavam muito mais além disso. Nem todos conseguiram chegar aos botes. Através de uma vigia, Moss viu quando alguns colegas - silhuetas escuras contra as chamas ¿ saltaram da plataforma. "Não deu para vê-los direito para saber se usavam salva-vidas ou qualquer outra coisa", disse.

Em 10 minutos, os dois barcos salva-vidas fecharam suas portas e desceram quase 30 m até a água. Um pequeno barco estava nas proximidades. Albert Andry III, um pescador por hobby, e seus amigos flutuavam próximos da plataforma, tentando pegar os peixes que se reuníam à sua volta. Quando Andry - que foi contatado pela reportagem após publicar o relato de sua experiência na internet - percebeu que o centro da plataforma espirrava água, um de seus amigos, que já havia trabalhado em plataformas, sabia que algo estava errado.

"Vai! Vai! Vai! Vai! Vaaaai!", gritou seu amigo. Andy acelerou ao máximo, distanciando-se cerca de 90 m antes da plataforma explodir."A plataforma explodiu algumas outras vezes depois disso e começou a queimar", escreveu mais tarde em uma postagem na web, onde também publicou fotos e vídeos da cena. "Partes da plataforma começaram a desmoronar sobre a água e a plataforma se inclinou e ficou em chamas."

Nos barcos, a tripulação do Horizon pedia socorro pelo rádio. O Bankston, o cargueiro ancorado à plataforma quando a explosão começou, havia conseguido se afastar, e então seu capitão passou a resgatar sobreviventes dos botes salva-vidas.

Chamadas de emergência desesperadas atraíram aviões, helicópteros e a Guarda Costeira até a plataforma golpeada.

Silêncio no rádio

No Bankston, os homens choraram e rezaram. Ninguém falou muito enquanto assistiam às labaredas laranjas do Horizon subirem aos céus, refletindo-se na água calma.

Os homens ficaram a bordo do navio de resgate, no meio do oceano, por 12 horas. Pior que a espera, disseram, foi a proibição de contatar suas famílias. Os homens ouviram que a Guarda Costeria queria conduzir entrevistas antes que os operários conversassem com familiares ou qualquer outra pessoa.

Começaram boatos de que os executivos da BP que haviam visitado a plataforma estavam na ponte do Bankston usando o rádio ou um telefone por satélite para contatar suas casas. "Eles iam nos manter lá o máximo que pudessem até que tivessem tudo sob controle", disse Martinez.

Helicópteros sobrevoaram suas cabeças. Barcos se lançaram ao redor da plataforma à busca de sobreviventes. Logo se recebeu a notícia de que 11 estavam desaparecidos (dos 126 a bordo no momento do desastre, 115 sobreviveram, sendo que 17 ficaram feridos).

"Parecia um pesadelo"

Enquanto via a pesada plataforma, seu lar por boa parte dos últimos oito anos, lentamente inclinar e desabar, Martinez pensou no anel de seu pai. O único momento em que tirava o anel era para trabalhar. Agora ele está no fundo do mar.

"Perdi meu pai quado eu tinha 23 e ele 46", disse. Outro operário, alarmado por uma lembrança, enfiou a mão no bolso. Ele tirou uma pequena fotografia de seu filho. Recuperou o fôlego, olhou para ela e depois relaxou.

Finalmente, o Bankston começou sua jornada de 12 horas de volta à costa. Ele parou no caminho para pegar alguns paramédicos de outra plataforma. Em uma segunda parada, ele recebeu oficiais da Guarda Costeira, que imediatamente começaram a distribuir formulários para que os homens preenchessem descrevendo o que viram. Alguns foram selecionados para entrevistas.

Algum alívio chegou: cobertores e, para o jantar, costeleta e cachorro-quente. As conversas avançavam, mas a maioria só trocava perguntas. O que poderia ter dado tão horrivelmente errado? Se o trabalho de cimentar funcionou, como o gás vazou pelo tubo e se incendiou? Outros se perguntaram sobre um dispositivo no leito marítimo chamado preventor de explosões: por que ele não havia sido ativado? Levados a Port Fourchon, os homens ficaram novamente em silêncio.

"Para mim, parecia um pesadelo", disse Sandell. "E não tinha certeza se estava acordado." Eles saíram do Bankston e foram recebidos por vários oficiais da Guarda Costeira e executivos da companhia sentados ao redor de uma mesa empilhada de formulários.

Atrás da mesa estava uma fileira de banheiros portáteis. À medida que os membros da tripulação se aproximavam, cada um recebia um pote para um teste de drogas obrigatório. A busca por uma explicação começaria por eles. A busca continua.

The New York Times
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