Julgamento em NY divide familiares de vítimas do 11/9
- N.R. Kleinfield e Jack Healy
- Do New York Times, em Nova York
Para muitos, foi perfeitamente adequado: começou aqui, é aqui que deve terminar. Outros desejavam que a realidade daquilo fosse distanciada, para um cenário muito menos atormentado por aquela data inapagável.
Foi essa dualidade aguda de reações que recebeu a notícia na sexta-feira de que o governo julgaria em Nova York os acusados de tramar o ataque de 11 de setembro, em um tribunal federal solene a apenas alguns quarteirões de onde as antigas torres gêmeas do World Trade Center um dia existiram e foram destruídas.
A decisão fez as pessoas perguntarem: a cidade quer isso? Será que ela pode suportar isso?
"Deixe que eles venham a Nova York", disse Jim Riches, subcomandante aposentado do Departamento de Bombeiros de Nova York, cujo filho, Jimmy, também um bombeiro, morreu no ataque. "Deixe que eles venham a julgamento. Vamos fazer isso do jeito certo, para que o mundo todo veja como eles são. Vamos lá. Já passou muito tempo. Vamos ter alguma justiça."
Um julgamento irá significar uma reaproximação forçada entre o público e um ato terrorista que tirou quase três mil vidas e marcou a alma da cidade, testando sua força. Khalid Sheikh Mohammed, o confesso conspirador do ataque, junto de outros quatro acusados, serão transportados para as celas da cidade de Nova York e julgados quase com vista para a cena aplanada do crime. E todos estarão assistindo.
Autoridades públicas de Nova York, em sua maior parte, se juntaram em apoio ao julgamento na cidade. E muitos outros aceitaram a decisão como uma justiça poética, um ciclo apropriado que chega a um ponto final.
"Saúdo qualquer coisa que leve esses terroristas a julgamento", disse Sally Regenhard, cujo filho, Christian, foi morto no ataque, e seus restos mortais nunca foram recuperados. "Após oito longos anos, não houve justiça em nenhum nível, e queremos que essas pessoas sejam levadas à justiça."
A onda persistente de emoções do 11 de setembro, no entanto, continua forte, e se dá de maneiras diferentes. Para muitos outros, a ideia de se considerar um julgamento foi tão injusta quanto repulsiva.
"É totalmente nojento", disse Joan Molinaro, cujo filho, Carl, um bombeiro, também morreu no ataque. Ela disse sobre Mohammed, "Ele estava disposto a se declarar culpado na corte militar. Agora ele vem a Nova York e tem direitos de um cidadão americano, o que ele não é. Ele vai estar, o que, a dois quarteirões do Marco Zero, onde vai poder ver seu trabalho e ridicularizar aqueles que ele assassinou."
Molinaro costumava viver em Staten Island, mas se mudou para uma pequena cidade na Pensilvânia. Ela não suportou ouvir as sirenes dos caminhões de bombeiros.
Ela começava a chorar. "Todos os dias ao acordar, sei que nunca mais vou ver meu filho", ela disse. "Isso é como um tapa na cara dele."Margit Arias-Kastell perdeu o marido, Adam Arias, na segunda torre. Ela também não conseguiu aceitar a ideia de que os suspeitos serão defendidos por advogados em um tribunal de sua cidade. Ela estava entre as levas de parentes que assinaram uma carta em oposição a julgamentos criminais comuns para os terroristas do ataque.
"É totalmente injusto", ela disse. "Por que temos que constantemente ter que reviver isso? Quando teremos paz? Eles deveriam ser enforcados."As reações divergentes dos parentes das vítimas lembram muito a cisão similar entre todo o universo de nova-iorquinos.
Muitas das autoridades eleitas da cidade apoiaram a decisão. O prefeito Michael R. Bloomberg disse em declaração, "É adequado que os suspeitos do 11/9 enfrentem a justiça perto do local do World Trade Center, onde tantos nova-iorquinos foram assassinados." Ele ressaltou que a cidade já havia sido o cenário de outros julgamentos de terrorismo, incluindo o de Omar Abdel Rahman, que foi condenado em 1995 por uma conspiração para explodir marcos de Nova York.
O republicano Jerrold Nadler, cujo distrito inclui Lower Manhattan, disse em nota, "Nova York não tem medo de terroristas, queremos confrontá-los, queremos levá-los à justiça e fazê-los pagar por suas ações desprezíveis."
Contudo, houve uma ampla oposição pública a permitir que qualquer cidade dos EUA aceitasse receber um julgamento, ou detenção, de presos da prisão militar de Guantánamo, em Cuba. Vários legisladores argumentaram que sua entrada seria perigosa e colocaria a população em perigo.
"Tenho medo do julgamento deles em nosso país", disse Mike Low, cuja filha, Sara Elizabeth Low, morreu em um dos aviões que atingiu as torres. Ele teme que a "defesa tenha muitos artifícios." Ele teme que "estaremos dando a esses monstros um fórum para despejar seu lixo novamente. Eles farão um circo e vão lutar até o fim".
Ronald L. Kuby, advogado de Nova York que representou os acusados nas investigações de terrorismo, assumiu a posição de que era importante que as vítimas dos ataques, que ele considerou como a maioria das pessoas da cidade, pudessem "caminhar até o centro e ver que a justiça estava sendo feita", acrescentando, "os cidadãos de Nova York têm o direito de testemunhar esse julgamento".
Mas até que ponto os nova-iorquinos, especialmente os parentes das vítimas, querem ver os rostos dos acusados de tramar o ataque e ouvir seus advogados argumentarem em sua defesa?
"Se você tivesse um filho que foi assassinado, você evitaria comparecer ao julgamento?", perguntou Maureen Bosco, cujo filho, Richard E. Bosco, morreu nas torres. "É essa a nossa postura. Meu filho foi morto por essas pessoas. Isso é em respeito a ele, para termos um desfecho."
"Meu filho morreu", Riches disse. "Quero falar com ele. Vou para onde precisar ir. Quero ver esses homens serem condenados." Outros disseram que não iriam. "Nunca vai haver um desfecho para mim", disse Elaine Leuning, que perdeu seu filho, Paul Battaglia. "Não quero me envolver no julgamento. Não vai me ajudar, simplesmente não vai. Não vai fazer eu me sentir melhor. Trata-se do meu filho. Essa é uma parte de mim que se foi."
Aqueles que vivem e trabalham nos bairros do centro próximos ao Marco Zero têm suas próprias apreensões sobre o julgamento iminente. Há muito tempo, eles aturam com ressentimento levas de turistas e vendedores ambulantes de souvenires. Agora, eles enfrentam uma migração em massa que provavelmente irá acabar no tribunal: manifestantes, curiosos, imprensa e vendedores ambulantes de souvenires.
Mike McCalman, 42 anos, que vive em um edifício de 25 andares chamado Chatham Towers, perto do tribunal, disse que ele e os vizinhos já haviam se conformado com a perturbação que provavelmente acompanharia o julgamento. "Soubemos disso esta manhã e dissemos, 'Aqui vamos nós'", ele disse, acrescentando: "Eles precisam ser julgados em algum lugar."
Anthony Maruffi, funcionário de um estacionamento, disse que ele não tinha problema com a decisão. "Se eles vão ser julgados, deveriam ser julgados aqui", ele disse. "Foi aqui que eles cometeram seus crimes."
No entanto, George Zouvelos, dono da Spartan Bail Bonds, que tem um escritório perto do tribunal, estava preocupado com a segurança. A solução dele? "Mande-os para Washington." Domingo Nunez, que trabalha na Spartan, disse, "Essa comunidade vai fazer um escândalo", prevendo que "será muito difícil para algumas pessoas. Fico arrepiado só de pensar nisso."
Tradução: Amy Traduções