Estrangeiros que perderam parentes em 11/9 preparam homenagens
Quase 10 anos depois dos ataques do dia 11 de setembro de 2001, familiares de vítimas que vivem em outros países se preparam para fazer suas homenagens aos parentes mortos. Muitos sofrem por estarem longe do local onde seus parentes morreram. Entretanto, a dor do luto é tão pessoal e complexa que se torna simplista demais afirmar que os estrangeiros que perderam familiares nos atentados sofrem mais. O psicólogo Richard Bryant, que trabalhou com vítimas dos ataques nos Estados Unidos e na Austrália, viu a luta de ambos os lados.
Alguns parentes que vivam na Austrália se sentiram temporariamente isolados em seu luto e afastados de casa. Em outros casos, estar separado de constantes lembranças da tragédia ajudou. "Pelo menos na Austrália, eles sentiam que podiam falar sobre isso e que podiam fugir disso", afirmou Bryant, diretor da Clínica de Estresse Traumático da Universidade de New South Wales. "Quando eles voltaram a Manhattan, eles acharam que as lembranças estavam em todo lugar (...) e realmente sentiram que tinham menos controle de como processavam isso", disse o psicólogo.
Lituânia
Em um cemitério na Lituânia, as torres gêmeas continuam de pé - mas essas têm menos de 2 m de altura. Vladimir Gavriushin construiu as réplicas em homenagem à filha, Yelena, uma das quase 3 mil vítimas do ataque de 11 de setembro de 2001. O homem enterrou pedras do Marco Zero embaixo das torres no cemitério, bem longe do local onde Yelena morreu - que ele afirma não poder mais visitar. Ele reza pela filha em seu próprio Marco Zero.
Gavriushin lembra de gritar pelo nome da filha naquele dia, em meio à multidão no bairro nova-iorquino do Brooklyn, onde ele estava na época. "Ela nunca respondeu", afirmou ele.
Austrália
O australiano Simon Kennedy perdeu sua mãe, Yvonne Kennedy, no dia 11 de setembro de 2001, no ataque ao Pentágono. "Minha mãe não era uma 'heroína da liberdade', como eu ouvi alguns descreverem-na uma vez", afirmou ele. "Ela estava no lugar errado na hora errada", disse Simon, 36 anos.
Yvonne, 62 anos, havia entregado a Simon o itinerário de suas férias na América do Norte antes da viagem, e brincou: "Isto é só para o caso de os terroristas me pegarem". A visita aos Estados Unidos era um presente de aposentadoria que ela havia dado a si mesma após uma carreira de 30 anos na Cruz Vermelha.
México
Em um pequeno vilarejo no México, Raquel López e sua família não podem pagar por vistos para ir aos Estados Unidos. Por isso, no próximo dia 11 de setembro, eles se reunirão em uma missa durante a manhã e colocarão flores no túmulo do irmão de Raquel, Leonardo López, um cozinheiro morto aos 42 anos em um restaurante que ficava no topo da Torre Norte do World Trade Center. Os parentes de Leonardo pretendem assistir pela televisão às cerimônias pelos 10 anos dos ataques.
"Onde nós todos quereríamos estar naquele dia, no entanto, era no Marco Zero", afirmou Raquel, com os olhos cheios de lágrimas. "Nós todos queremos estar no lugar onde ele morreu, com pessoas que estarão passando pela mesma dor que nós, e que entendem o vazio com que todos nós ficamos", disse a irmã de Leonardo.
Filipinas
Nas Filipinas, a jornalista Cookie Micaller se diz frustrada pelos recursos que os Estados Unidos vêm gastando para combater o terrorismo ao invés de lutar contra doenças, melhorar a educação e prover comida e água para aqueles que precisam. "Pessoalmente, mesmo que eles travem uma guerra, isso não trará minha irmã de volta", afirmou ela.
Micaller estava trabalhando até tarde em um jornal em Manila quando seu editor disse para ela ligar a televisão. Um avião havia colidido com o World Trade Center - onde sua irmã, Cynthia Wilson, trabalhava. Ela correu para pôr a reportagem na capa do jornal. "Eu temia silenciosamente que eu pudesse estar escrevendo a reportagem sobre o fim da minha irmã", disse a jornalista. A confirmação veio no dia seguinte.
Índia
O indiano Yambem Laba, cujo irmão, Jupiter Yambem, foi morto nos ataques, diz acreditar que os Estados Unidos não tiveram escolha a não ser começar uma caçada por Osama Bin Laden. "O ataque ao World Trade Center foi a faísca, e a chama foi a guerra", disse ele.
A cada aniversário dos atentados, cerca de 150 familiares e amigos de Jupiter Yambem o homenageiam com um almoço hindu. Com a morte de Bin Laden, a reunião deste ano será especial, diz Laba. "O efeito colateral do 11 de setembro é que a guerra ao terrorismo tomou um rumo diferente", afirmou ele. "Antes, você poderia dizer que um homem terrorista é outro homem que luta pela liberdade, mas isso não é mais verdade", disse Laba.
Israel
Em Israel, a família de Daniel Lewin honra sua memória com um tradicional yahrzeit judeu, uma cerimônia anual para lembrar a morte de um ente querido. Eles falam sobre sua vida e leem a Torá, a Bíblia hebraica, em seu nome.
O irmão de Daniel, Michael Lewin, já visitou o Marco Zero várias vezes durante viagens de negócios a nova York. Entretanto, ele não considera esse o melhor lugar para a cerimônia de homenagem a seu irmão. "Estou contente de ver que a América está construindo o Marco Zero. Mas o objetivo de um memorial não é ser triste, e sim usar a perda de 11 de setembro para fazer o mundo melhor. Lavar-se em nossa perda não é produtivo", afirmou Michael.
Ucrânia
Iryna Ushakova, uma ucraniana que perdeu o pai no World Trade Center, quer superar o que aconteceu. "A vida continua", disse ela. "Dez anos é um bom momento para dizer adeus a tudo pelo que nós passamos, um bom momento para virar a página para uma nova era", afirmou. Neste ano, ela e sua família viajarão a Nova York para participar da cerimônia. "Quando ele foi morto, percebi que não se pode controlar tudo na vida", disse Iryna.