Cada preso de Guantánamo custa US$ 800 mil por ano aos EUA
24 jan2012 - 06h01
(atualizado às 07h33)
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A penitenciária de segurança máxima de Guantánamo é o foco da guerra dos Estados Unidos contra o terrorismo islâmico, um lugar que fica longe da visão de muita gente e cujo preço de manutenção é alto econômica e politicamente.
Para manter seus 171 presos em território cubano, os EUA gastam cerca de US$ 800 mil por ano por preso, aos quais é preciso somar o custo logístico de manter uma base militar americana em território completamente isolado por terra.
Caminhões, material de construção e até a alface fresca do único McDonalds em Guantánamo são levados em navios ou aeronaves, com o consequente custo para manter uma base que há uma década começou a receber os primeiros presos da guerra dos EUA contra a rede terrorista Al-Qaeda e na qual foram investidos desde então US$ 500 milhões.
Segundo fontes do Pentágono consultadas pela Agência Efe, é difícil detalhar a quantia exata do custo de manutenção da base, com cerca de 10 mil militares e suas famílias, mais um grande número de terceirizados filipinos e jamaicanos, em parte porque algumas verbas utilizadas não são divulgadas.
A complexidade logística e a despesa aumentam com a realização das "comissões militares" em "Camp Justice", um complexo de edifícios pré-fabricados que nos últimos dias 17 e 18 de janeiro acolheu pela segunda vez um processo militar contra o saudita Abd al Rahim al Nashiri, acusado de planejar o ataque ao destróier USS Cole em 2000, no qual morreram 17 oficiais americanos.
O juiz civil de Nashiri, Richard Kammen, definiu a penitenciária como "um monumento ao esbanjamento" ao se queixar durante a audiência do elevado custo de mobilizar toda uma equipe de defesa, promotoria, analistas, oficiais, observadores, parentes das vítimas e jornalistas a este local do sudeste de Cuba.
À prisão mais cara do mundo se chega lentamente por uma estrada que atravessa uma zona residencial e que se adentra em uma paisagem de cacto e arbustos até desembocar em uma área montanhosa.
Sobre esses morros fica a prisão de segurança máxima de Guantánamo, com seu interminável perímetro de cercas, espirais de arame e torres de vigilância.
Em seu interior há vários campos de prisioneiros e algumas organizações internacionais acreditam que guarda inúmeros segredos.
Mantê-los não é barato. Só nos campos 5 e 6, os mais cheios, há cerca de 900 guardas que em sua maioria recebem o salário correspondente a um soldado desdobrado em uma zona de guerra, muito superior ao de um oficial de prisões militares.
No Campo 6, dedicado aos presos de melhor comportamento, ficam 85% dos detentos, segundo disse à Efe o chefe do módulo, um militar que não traz seu nome na lapela e que também não quis divulgá-lo.
"Isso pode dar uma ideia de como é o comportamento dos presos", explica, embora afirme sem dar detalhes que podem ocorrer situações complicadas, visto que, entre outras causas, eles "têm acesso a notícias", entre outras as da rede Al Jazeera em inglês.
Durante a visita, o oficial explica atrás de um vidro opaco como os detentos - observados sem que eles saibam - compartilham em uma área comum uma aula de arte, na qual pintam, sempre com os tornozelos presos ao chão por correntes.
O centro penal para os menos comportados é o Campo 5, onde existem mais medidas de segurança e os réus, que rondam entre 20 e 30, ficam em celas planejadas para evitar que machuquem a si mesmos.
Esses réus, que são controlados a cada três minutos, só podem sair de suas celas para ver televisão ou ler jornais, presos ao chão quatro horas por semana com tempo variável para sair ao ar livre.
Questionado sobre se existem campos secretos na base, um dos responsáveis da prisão afirma em tom misterioso: "Todos os campos secretos são secretos".
Mas o custo mais alto para o governo dos EUA pode ser a perda de confiança em sua capacidade para fazer justiça, como indicou a defesa de Nashiri, que qualificou as comissões militares como uma "fachada" cheia de obstáculos que não existem em um tribunal federal.
Os promotores garantem que estes tribunais oferecem todas as garantias necessárias em processo contra "inimigos de guerra", mas para grande parte dos réus que ficam em Guantánamo - de um grupo inicial de perto de 700 - não há provas claras de que tenham sido combatentes da Al-Qaeda, enquanto passam seus dias isolados na base.
2009: Em 14 de janeiro, o governo reconhece pela 1ª vez que empregou práticas de tortura contra um prisioneiro em Guantánamo. No dia 20, Barack Obama assume a presidência dos EUA. Dois dias depois, ele assina uma ordem de fechamento de Guantánamo em um ano e bane o emprego de controversas práticas de interrogatório Em maio, Obama anuncia que vai reestruturar os tribunais militares criados por Bush. 2009 é o ano em que se acentua a transferência de prisioneiros para outros países
2002: O primeiro grupo de 20 detidos chegou à Baía de Guantánamo, em Cuba, no dia 11 de janeiro e permaneceu em celas provisórias a céu aberto. Sete dias mais tarde, o presidente americano George W. Bush diz que os prisioneiros detidos por terrorismo não se qualificam para leis internacionais sobre prisioneiros de guerra. Em fevereiro, autoridades americanas informam que o objetivo é construir uma prisão de longo prazo no local
Foto: AFP
2003: Em março de 2003, uma corte de apelações federal dos EUA decide que os prisioneiros não possuem direitos legais no país. Em maio, a população carcerária de Guantánamo atinge o seu ápice, com 680 detentos. Em julho, Bush aponta que seis supostos terroristas da Al-Qaeda devem ser julgados por tribunais militares - os primeiros desde a Segunda Guerra Mundial
Foto: AP
2004: A Suprema Corte dos EUA decide em junho que os prisioneiros de Guantánamo podem usar tribunais federais para recorrer de suas detenções. Em resposta, o Pentágono cria painéis militares especiais para decidir o status dos prisioneiros como inimigos combatentes ou aptos para serem soltos. Em novembro, um juiz distrital ordena que o Pentágono suspenda o julgamento de Salim Ahmed Hamdan - suposto motorista de Osama bin Laden - alegando que as comissões militares são ilegais
Foto: AP
2005: Em março, as comissões militares encerram o processo de análise da situação de 558 prisioneiros e estabelecem que 38 deles não são mais inimigos combatentes e, portanto, devem ser libertados. Em maio, muçulmanos ao redor do mundo iniciam manifestações contra supostos abusos cometidos contra o Corão dentro de Guantánamo. Em novembro, o Senado americano decide por 49 votos a 42 que os prisioneiros não têm o direito de entrar com petições de habeas corpus
Foto: AP
2006: Em fevereiro, um relatório da ONU recomenda o fechamento de Guantánamo. Em 18 de maio, dois prisioneiros tentam suicídio, o que desencadeia uma rebelião de detentos. Dez dias mais tarde, o departamento de Defesa informa que 75 prisioneiros estão em greve de fome e sendo forçados a se alimentar desde agosto de 2005. Em 10 de junho, dois iemenitas morrem de aparente suicídio. Em dezembro, os primeiros detentos são transferidos para Camp Six, a ala de maior segurança da prisã
Foto: AP
2007: Em março, o queniano Abdul Malik Abdul-Jabbar é transferido para Guantánamo, representando o 1º prisioneiro diretamente relocado para a prisão. Em 30 de maio, um prisioneiro saudita comete suicídio. 2007 é o ano que entra em vigor uma nova lei para as Comissões Militares, que, entre outras coisas, estabelece mais restrições para os prisioneiros examinarem evidências contra eles, questionarem seus encarceramentos e pedir a exclusão de provas obtidas através de coerção
Foto: AFP
2008: Em 5 de junho, cinco prisioneiros acusados de envolvimento nos ataques de 11 de setembro são levados a juízo em Guantánamo. Sete dias mais tarde, a Suprema Corte dos EUA decide que os prisioneiros têm o direito de questionar suas detenções em tribunais federais através de habeas corpus. Em novembro, o juiz militar chefe de Guantánamo anuncia aposentadoria, o que resulta no adiamento do julgamento dos conspiradores do 11 de setembro para além da administração Bush
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2009: Em 14 de janeiro, o governo reconhece pela 1ª vez que empregou práticas de tortura contra um prisioneiro em Guantánamo. No dia 20, Barack Obama assume a presidência dos EUA. Dois dias depois, ele assina uma ordem de fechamento de Guantánamo em um ano e bane o emprego de controversas práticas de interrogatório Em maio, Obama anuncia que vai reestruturar os tribunais militares criados por Bush. 2009 é o ano em que se acentua a transferência de prisioneiros para outros países
Foto: AFP
2010: Em 5 janeiro, Obama interrompe a transferência de presos para o Iêmen em resposta a uma tentativa frustrada de ataque a um avião partindo de Detroit no Natal de 2009. No dia 21, o Departamento de Justiça conclui que cerca de 50 dos 196 presos que ainda restavam no local devem ser mantidos presos indefinidamente sem julgamento de acordo com as leis de guerra. Em julho de 2010, A administração Obama condena o seu primeiro prisioneiro em um tribunal de guerra
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2011: O procurador-geral Eric H. Holder anuncia que Khalid Sheikh Mohammed e outros quatro conspiradores do 11 de setembro serão julgados por comissões militares em vez de por uma corte federal. O ano se encerra com 171 prisioneiros ainda detidos em Guantánamo. A maioria segue em situação indefinida, sem acusação ou sem data de julgamento anunciada