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Esperança por sobreviventes diminui no Nepal, enquanto país discute reconstrução após catástrofe

Uma semana após o colapso de uma geleira no Himalaia provocar uma onda devastadora de água, lama, rochas e detritos no norte do Nepal, as esperanças de encontrar sobreviventes diminuem. As equipes de resgate ainda procuram nesta quarta-feira (2) centenas de trabalhadores que podem estar presos em túneis de usinas hidrelétricas, enquanto o governo começa a preparar a reconstrução de uma região fortemente destruída.

2 set 2026 - 07h37
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Resumo
O colapso de uma geleira no Himalaia causou mais de 1.130 mortes e deixou quase 4.500 desaparecidos no Nepal e no Tibete, com chances de sobrevivência diminuindo a cada dia. O desastre atingiu duramente o setor energético ao paralisar 10% da geração elétrica nepalesa e soterrar túneis com centenas de operários. Agora, o premiê Balendra Shah enfrenta o desafio político e econômico de liderar uma reconstrução bilionária, enquanto especialistas alertam para os riscos climáticos na região.

Segundo as autoridades nepalesas, 1.114 corpos foram recuperados e 3.916 pessoas continuam desaparecidas. No vizinho Tibete, as autoridades chinesas registram 16 mortos e 546 desaparecidos. Somados, os números oficiais dos dois países chegam a 1.130 mortos e 4.462 desaparecidos. Entre os desaparecidos, estão mais de 800 estrangeiros de mais de 30 países.

O desastre ocorreu em 26 de agosto, quando o colapso de uma geleira na região do Himalaia, na fronteira com a China, desencadeou uma gigantesca onda de água e detritos que atingiu cidades, vales e infraestruturas próximas. Pelo menos 639 trabalhadores de projetos hidrelétricos continuam desaparecidos no Nepal.

As equipes de resgate concentram esforços nos túneis de várias centrais hidrelétricas. Pelo menos 279 pessoas foram retiradas dos escombros de instalações do setor, mas o trabalho enfrenta grandes dificuldades devido ao volume de lama, rochas e sedimentos que bloqueiam as entradas e o interior dos túneis. Equipes especializadas da Índia, China e Estados Unidos participam das operações.

Até agora, os socorristas recuperaram corpos em pelo menos dois túneis e conseguiram avançar algumas centenas de metros em outros, mas foram impedidos pelo acúmulo de detritos. O governo chegou inicialmente a estimar que mais de cem trabalhadores poderiam estar vivos dentro dos túneis. Uma semana depois, porém, as autoridades reconhecem que as chances diminuem a cada dia.

Bhim Gautam, diretor-geral da Associação de Produtores Independentes de Energia do Nepal (IPPAN), em entrevista à RFI, alerta que "a maioria das instalações está soterrada por poeira e pedras, às vezes a 13 ou 14 metros de profundidade". "Lá dentro, pode já não haver comida, oxigênio ou água. As chances são mínimas. Não temos nenhum contato", disse.

Para Gautam, a dimensão da destruição também exige uma revisão dos projetos de infraestrutura hidrelétrica no país. "É preciso rever a concepção para que os projetos hidrelétricos sejam mais resistentes. Onde e como construir os túneis? Que tipos de barragens menores devem ser utilizados? Ou grandes barragens, mas mais resistentes? De qualquer forma, é preciso reforçar as infraestruturas", afirmou.

Enquanto as buscas prosseguem, algumas famílias já começaram a realizar cerimônias funerárias simbólicas para parentes que continuam desaparecidos. Em comunidades hindus, bonecos de palha são queimadas para representar os mortos e permitir, segundo a tradição, que suas almas encontrem descanso.

Setor energético abalado

A catástrofe também atingiu duramente o setor energético. Onze usinas hidrelétricas e uma usina solar, com capacidade combinada de 431,1 megawatts, deixaram de operar, o equivalente a cerca de 10% da capacidade instalada de geração de eletricidade do Nepal. Outros 15 projetos hidrelétricos em construção, que somariam 470 megawatts, também foram danificados.

A dimensão dos danos já coloca a reconstrução no centro das preocupações. Uma estimativa preliminar do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento aponta para pelo menos 2,2 milhões de toneladas de detritos, entre edifícios destruídos, rochas e sedimentos. O volume, equivalente a cerca de seis edifícios Empire State, representa um enorme desafio para a retirada dos escombros, a recuperação de estradas e a reconstrução das áreas atingidas.

O primeiro-ministro Balendra Shah afirmou que o governo começa a deslocar o foco das operações de emergência para a reabilitação e reconstrução, embora as buscas e os esforços para proteger os moradores continuem. A reconstrução deverá pressionar uma economia já frágil, dependente do turismo e das remessas enviadas por nepaleses que trabalham no exterior. O custo dos danos é estimado pelo governo em bilhões de dólares.

A crise também representa um importante teste político para Shah, de 36 anos, conhecido como "Balen". Ex-prefeito de Katmandu e antigo rapper, ele chegou ao cargo de primeiro-ministro há apenas seis meses, impulsionado por uma onda de insatisfação popular contra a corrupção e o antigo sistema político. Sua atuação diante da catástrofe é agora observada como o primeiro grande teste de seu governo.

Analistas ouvidos pela AFP apontam que, durante o terremoto de 2015, a presença do Estado nas áreas atingidas foi considerada insuficiente. Desta vez, Shah esteve entre as populações afetadas desde os primeiros dias da tragédia, e alguns moradores avaliam positivamente a atuação do novo governo. A eficácia dos trabalhos de resgate e, sobretudo, a gestão dos recursos destinados à reconstrução deverão, porém, determinar a avaliação definitiva de seu governo.

A reconstrução também poderá atrasar as reformas prometidas por Shah, especialmente nas áreas de economia e emprego. A destruição de infraestruturas energéticas é particularmente preocupante porque o Nepal vinha ampliando sua capacidade hidrelétrica e suas exportações de eletricidade. A principal estrada que liga o país à China, fundamental para o comércio bilateral, também foi destruída pela inundação.

Mudanças climáticas no centro do debate

A dimensão da tragédia reacendeu ainda o debate sobre os efeitos do aquecimento global no Himalaia. Cientistas alertam que o aumento das temperaturas acelera o derretimento das geleiras da região, elevando o risco de inundações provocadas pelo colapso de lagos e massas de gelo.

O primeiro-ministro Shah classificou a catástrofe como um sinal do aumento dos riscos climáticos na região do Himalaia e defendeu uma resposta internacional. O Nepal contribui relativamente pouco para as emissões globais de gases de efeito estufa, mas está entre os países mais vulneráveis às consequências do aquecimento do planeta.

Para especialistas, o desastre pode fazer com que a mudança climática passe a ser tratada também como uma questão de segurança nacional no Nepal, diante dos riscos para energia, infraestrutura, comércio e segurança da população.

com agências

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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