Volta às aulas em Kiev expõe estratégia russa de desgaste e resiliência da população ucraniana
A guerra faz parte do cotidiano dos moradores de Kiev, e isso ficou evidente na volta às aulas esta semana. A capital ucraniana enfrenta uma nova estratégia de Moscou de multiplicar os bombardeios diurnos e noturnos para desgastar a população e paralisar o funcionamento da cidade.
A volta às aulas em Kiev ocorre sob frequentes ataques de drones e mísseis russos, expondo a tática de Moscou de paralisar a vida civil, minar a moral da população e saturar as defesas antes do inverno. Em meio a constantes alertas que forçam o uso de abrigos, a Ucrânia demonstra resiliência e tenta contra-atacar padronizando unidades de drones na linha de frente, reconhecendo a guerra aérea como o front mais perigoso e decisivo do conflito atual.
Pela quinta vez desde o início da invasão russa, crianças e professores retomaram as atividades em um novo ano letivo sob ataques quase ininterruptos de drones russos, realata o jornal Libération nesta quarta-feira (2).
O jornal descreve uma volta às aulas marcada pelas sirenes de alerta. Desde a semana passada, a Rússia lançou contra Kiev drones a jato, muito mais rápidos do que os tradicionais Shahed, obrigando as escolas a adaptar seus protocolos de segurança.
Em uma escola do distrito de Obolon, no norte da capital, a cerimônia de abertura do ano letivo precisou ser transferida para dentro do prédio e foi interrompida por um alerta aéreo.
Para os moradores, a rotina passou a ser organizada em função dos bombardeios. Compras rápidas entre os alertas, estoques de medicamentos e noites passadas em abrigos ou estações de metrô passaram a fazer parte do cotidiano.
Estratégia de enfraquecimento da população
Libération cita o filósofo ucraniano Volodymyr Yermolenko, para quem o objetivo da nova tática russa é exercer uma pressão contínua sobre a população. Moscou quer que os moradores "não possam mais dormir, fazer planos, sonhar nem simplesmente organizar suas vidas". A intenção seria transformar as pessoas em indivíduos "sem vontade".
Para o analista geopolítico e pesquisador associado da Euro Créative Ulrich Bounat, entrevistado pela RFI, o efeito sobre a vida cotidiana é direto. "É muito claro que houve uma vontade de tornar completamente impossível a vida em Kiev", afirmou.
Segundo ele, cada alerta aéreo provoca uma série de paralisações: os metrôs praticamente param, as pontes deixam de ser transitáveis e lojas de departamento e centros comerciais fecham.
A Rússia combina ataques massivos de drones, drones a jato e mísseis balísticos para saturar as defesas ucranianas, já enfraquecidas pela escassez de interceptadores e de mísseis Patriot americanos.
Bounat alerta para um segundo objetivo: preparar o terreno para o inverno. "O inverno que virá será ainda mais difícil para os ucranianos do que os anteriores", afirmou.
Modelo de gestão inspirado no McDonald's
Le Monde analisa como a Ucrânia tenta responder a essa nova fase da guerra aérea. O texto traça o perfil do coronel Pavlo Yelizarov, fundador da unidade de drones Lasar, responsável por operações contra equipamentos russos na linha de frente.
Ex-empresário e produtor de televisão, Yelizarov explica que organizou sua unidade segundo um modelo inspirado no McDonald's: "uma estrutura unificada e integrada", baseada em procedimentos padronizados e resultados replicáveis em qualquer setor do front.
Para Yelizarov, a guerra aérea se transformou no principal campo de batalha. O coronel acredita que a Rússia aposta agora em "destruir tudo na retaguarda" para provocar posteriormente o colapso das posições ucranianas na frente de combate. "Na realidade, este é o primeiro front, o mais perigoso", resume ele ao jornal Le Monde.
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